Sense8 cancelada no Netflix: a diversidade em risco ou uma nova estratégia?

Depois de The Get Down, o serviço de streaming põe fim à trama das irmãs Wachowski sem apontar razões específicas. CEO da empresa defende que é preciso cancelar mais séries.

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Uma semana depois de cancelar o drama musical de Baz Luhrmann The Get Down – a primeira série da plataforma a chegar ao fim após uma única temporada –, o Netflix anunciou que Sense8, a série de ficção científica criada pelas irmãs Wachowski e por J. Michael Straczynski, não regressaria para uma terceira temporada. “Depois de 23 episódios, 16 cidades e 13 países, a história do grupo de Sense8 chega ao fim”, oficializou Cindy Holland, vice-presidente do departamento de conteúdos originais do Netflix, em comunicado citado pela revista The Hollywood Reporter. Sem mencionar os motivos que levaram ao cancelamento da série após duas temporadas, Cindy Holland caracterizou Sense8 como uma trama “ousada”, “emocionante”, “deslumbrante”, “brutal” e “completamente inesquecível”.

A decisão do Netflix surge um dia após Reed Hastings, CEO e fundador da operadora de streamingter falado à NCBC sobre o baixo quociente de cancelamentos da plataforma. “O nosso rácio de sucesso é demasiado alto neste momento”, afirmou. “Estou sempre a pressionar a equipa de conteúdos; temos de arriscar mais e experimentar mais coisas absurdas, porque deveríamos ter uma taxa maior de cancelamentos."

Sense8, cujas temporadas estrearam em 2015 e 2017, abordava a ligação psíquica entre oito desconhecidos oriundos de diferentes culturas e contextos, os chamados sensates. A série notabilizou-se por celebrar o ser humano em todas as suas dimensões, tirando para esse efeito partido de uma grande diversidade cultural, étnica, religiosa e sexual. “Nunca uma série foi mais verdadeiramente global, com um elenco e uma equipa técnica igualmente internacionais e diversificados, o que se reflecte ainda na sua fervorosa comunidade de fãs em todo o mundo”, acrescentou Cindy Holland no mesmo comunicado.

Foi essa mensagem de inclusão e empatia que conquistou uma fiel legião de seguidores nas redes sociais e que tornou a série popular entre a comunidade LGBT (uma das cenas da série foi filmada na maior marcha pelo orgulho LGBT de sempre, em São Paulo), mas não só. 

A notícia do cancelamento surpreendeu os fãs da série e levou mesmo à criação de uma petição pela renovação da terceira temporada que já conta com mais de 200 mil assinaturas. O abaixo-assinado, precedido de uma mensagem em inglês traduzida em línguas como espanhol, francês, português, italiano, holandês, alemão, russo e mandarim, pede uma justificação para o fim de uma série que tem reunido uma vasta e heterogénea audiência: “Não é apenas uma série de televisão para consumir como entretenimento; Sense8 deu ao mundo uma forma nova de ver os outros: com consideração, amor e compaixão."

E as audiências?

Os rumores sobre o possível cancelamento de Sense8 adensaram-se com o cancelamento de The Get Down, uma produção cara e vinda de um criador cujo repertório abrange maioritariamente o cinema, à semelhança das irmãs Wachowski (Matrix, V de Vingança, então creditadas como irmãos Wachowski). Enquanto esperavam que o Netflix se pronunciasse sobre o futuro da série, os fãs criaram no Twitter a hashtag #renewsense8, que rapidamente se tornou uma das mais tweetadas – levando até o actor Brian J.Smith (Will) a dar um empurrão à pressão sobre o Netflix.

Mas a decisão do cancelamento já parecia estar consolidada. De acordo com a Slate, no início de Maio, o produtor Roberto Malerba terá dito que o avultado custo de produção da série (cerca de oito milhões de euros por episódio) seria um factor decisivo para a decisão de dar ou não luz verde a uma terceira temporada. Esta procuraria ser ainda mais ambiciosa do que as anteriores, rodadas em cidades como Chicago, Seul, Cidade do México, Mumbai e Reiquiavique. “Somos uma série razoavelmente cara e tentamos sempre ir um pouco mais longe”, disse o produtor Grant Hill ao Indiewire no mês passado.

Entre a imprensa especializada, a onda de cancelamentos do gigante do streaming tem feito correr muita tinta, uma vez que parece reverter a forte aposta do Netflix na ficção original e, ao mesmo tempo, vai reduzindo a representatividade da sua programação televisiva. Num artigo de opinião da revista Variety – e a propósito dos cancelamentos de Sense8 e The Get Down –, a jornalista Maureen Ryan elogia o carácter inclusivo das séries, mas diz que a luta pela diversidade é uma constante numa indústria em que tudo se afigura efémero. “Hollywood é demasiado rápida a dar-se uma palmadinha nas costas pelos mais passos mais pequenos no que diz respeito à diversidade, à inclusão e representatividade – e a indústria é demasiado, demasiado rápida a deixar que ela se desvie desse propósito." Ryan aproveita para defender a importância da diversidade no entretenimento na era Trump, já que é preciso reforçar ideias que sejam “progressivas, inclusivas e tolerantes”.

O Netflix não é particularmente conhecido por cancelar as suas séries e tem, inclusive, renovado a vasta maioria do seu portefólio. O cancelamento destas duas está longe de ser único (Marco Polo e Bloodline também chegam ao fim), mas tem desencadeado uma conversa sobre o possível alinhamento de uma nova estratégia para o Netflix. De resto, é impossível ter informação sobre os números de audiências da programação da plataforma, já que estes nunca são divulgados. É justamente sobre o mistério Netflix que Tim Goodman escreve na The Hollywood Reporter. Pegando nas palavras de Reed Hastings, o jornalista refere que os “comentários à CNBC podem ser interpretados como um interesse em séries ousadas de menor dimensão e mais baratas (em comparação com as duas recentemente canceladas)”. O CEO do Netflix havia referido, a título de exemplo, que 13 Reasons Why – Por Treze Razões foi um “grande hit” que “surpreendeu” a empresa (sem apontar números, claro) pelo fenómeno em que se tornou.

Quanto questionado sobre o futuro da empresa, Hastings referiu que se previa um “maior orçamento” alicerçado numa “maior distribuição”, estratégia que parece contrariar os acontecimentos dos últimos dias. Mas se é difícil medir audiências sem números concretos, o CEO do Netflix afirmou na mesma entrevista que a avaliação de uma série “é uma mistura” entre as audiências que obtém e o número de subscritores da plataforma, notando que os dois factores estão “frequentemente relacionados”.

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