Crítica

Turismo revolucionário

As Ondas de Abril

O problema de As Ondas de Abril é que a recepção ao filme dependerá do lugar de onde se o vê. Dito de outra maneira: na Suíça (país de origem da produção) não custa acreditar que esta caricatura gentil do Portugal de 1974 pareça “fresca”; a um espectador português que tenha visto nem que seja só um bocadinho do cinema, da televisão ou do teatro que nas últimas décadas retratou o Portugal “revolucionário” mas também o mais intemporal Portugal “rural”, tudo isto parecerá simplório, dos gags com os camponeses aos gags com os militares e os citadinos embrenhados na euforia revolucionária.


Não é questão de se ficar ofendido com o “retrato” de Portugal proposto por um filme suíço - longe disso, e até podíamos lembrar que foi um suíço, Alain Tanner, quem filmou, com a Cidade Branca, um retrato hoje quase mítico da Lisboa de meia dúzia de anos depois de 1974. É mesmo só que tudo o que diz respeito à “reconstituição” da época e ao “olhar” sobre o país parece batido e desengraçado, sem ponta de novidade ou, sequer, de severidade: país pobrete mas alegrete antes da revolução, e depois país pobrete mas um pouco mais alegrete (e sexualmente desinibido, como numa sequência festiva que parece caricatura de Garrel, Maio de 68, 25 de Abril, é tudo a mesma partouze). É só isto, que é bastante pouco.

Vale que o destinatário da caricatura serão sobretudo os circunspectos suíços, mais ricos mas talvez menos alegres e desinibidos, eventualmente invejosos de haver revoluções por todo o lado e eles só terem, segundo a imortal fórmula de Welles, o relógio de cuco. São sobretudo eles que se “libertam” nesta história de uma equipa da rádio suíça apanhada desprevenida em Portugal no 25 de Abril de 1974 e rapidamente alinhada com o ritmo da revolução. Uma certa agilidade narrativa, Valerie Donzelli a dar todos os ares da sua graça, uma inusitada fixação em Marcel Pagnol, um gag com um tanque que transpõe Tiananmen 1989 para Abril 1974, muito Gershwin na banda sonora (e bom, o inevitável momento fadista), tudo isto assegura que As Ondas de Abril se deixe ver sem maçada extraordinária. Mas é objecto bem menor.

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