Aprender com o Público

“Ouvir mais os jovens.” A palavra aos vencedores do concurso “Isto também é comigo!”

Entre outubro e maio, alunos de Guimarães, Azambuja, Moita, Vila Real, Fafe, Sesimbra e Torres Vedras deram a sua opinião sobre a atualidade. Em entrevista, trazem reflexões intemporais.

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Os alunos e as alunas que venceram o concurso "Isto também é comigo!" em 2022-23

“Não tens nada a perder, o ‘não’ já tens garantido”, disse a professora bibliotecária a Iva Tavares, aluna do Agrupamento de Escolas da Moita, quando decidiram participar no concurso “Isto também é comigo!”. Iva não estava confiante, até porque o texto tinha sido feito apenas para praticar a escrita. Acabou por se esquecer de que submetera e só se lembrou quando foi avisada de que havia ganho. “Ao princípio eu não estava a acreditar, por momentos até achei que devia ter sido a única a concorrer naquele mês”, recorda. Iva Tavares foi uma das vencedoras da edição de 2022-23 de “Isto também é comigo!”, concurso mensal de textos de opinião que resulta de uma parceria entre o PÚBLICO na Escola e a Rede de Bibliotecas Escolares, e a sua história é representativa desta segunda edição do concurso: é que este ano, ao contrário da primeira edição, os textos vencedores vieram de contextos muito distintos.

Alguns foram escritos em contexto de aula, como aconteceu com todos os participantes do ano passado. Mas uma grande maioria surgiu de forma voluntária, ora depois de a professora de Português ter falado do concurso, caso interessasse a alguém; ora depois de o exercício ter sido usado para treinar a leitura e a escrita em sessões informais; ora porque o aluno abriu o site do PÚBLICO na Escola e descobriu que o concurso existia. E também os temas foram diversos, alguns deles com uma ligação evidente às notícias da atualidade e outros com reflexões intemporais: falou-se sobre o abandono do interior, o estado do Serviço Nacional de Saúde, feminismo e extrema-direita, as exigências que o sistema de ensino português faz aos alunos, o valor da escola pública, os abusos na Igreja, os direitos das mulheres afegãs e a importância da leitura.

Desta vez, entre outubro e maio, oito alunos de Guimarães, Azambuja, Moita, Vila Real, Fafe, Sesimbra e Torres Vedras mostraram que o país precisa de "ouvir mais os jovens" — nisso, todos eles estão de acordo. Rui Pinto, Sofia Rodrigues, Iva Tavares, Rodrigo Caldeira, Joaquim Faria, João Pinhal, Gabriel Oviedo Pereira e Margarida Constantino pegaram no megafone e disseram que isto também era com eles. Os artigos de opinião já evidenciavam que os seus autores tinham muito a dizer. O PÚBLICO na Escola quis ouvi-los e conhecê-los melhor.

Rui Pinto, 17 anos, Agrupamento Santos Simões (Guimarães)

Ver a degradação e o abandono [do interior] deixa-me triste”

A paisagem de todos os dias é em Guimarães, mas foi a pensar nos cenários que encontra na aldeia dos avós que Rui Pinto escreveu o texto que lhe valeu a vitória no concurso “Isto Também é Comigo!”. “O futuro mora no interior?”, perguntava em jeito de provocação logo no título. Depois de a professora de Português ter divulgado o concurso na sua turma, pousou os olhos no PÚBLICO e encontrou uma reportagem que lhe chamou a atenção: “Querem fechar blocos de partos? ‘Dão uma mala a cada um destes habitantes e vamos todos para o litoral do país’”, com texto de Natália Faria e fotografias de Nelson Garrido.

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Os meus pais, tanto a minha mãe como o meu pai, são do interior. Eu costumo ir lá muitas vezes e foi essa a minha inspiração. Ver o que está a acontecer nas aldeias e vilas do interior, ver a degradação e o abandono deixa-me triste”, conta. Para Rui, a palavra que melhor caracteriza as pessoas do interior é “resiliência”, uma vez que constantemente fazem muito com pouco e têm vários desafios para enfrentar no dia-a-dia: o difícil acesso às escolas, hospitais e centros de saúde, as estradas com curvas e contracurvas, o envelhecimento populacional — enumera.

Rui sente que a desconsideração pelo interior também se espelha nos órgãos de comunicação social. Diz ao PÚBLICO na Escola que fora da época de incêndios os órgãos generalistas voltam aos principais centros e que essa falta de valorização traz consequências. Também nos media gostava que mais uma coisa se alterasse: “Grande parte dos jornalistas e comentadores que aparecem na televisão já passam dos 40 anos, há poucos jovens, gostava que valorizassem mais a nossa voz.”

Sofia Rodrigues, 18 anos, Agrupamento de Escolas de Azambuja

“Sinto que se devia falar mais o abandono dos idosos”

Estava no 12.º ano, no curso de Ciências e Tecnologias, quando recebeu a notícia. Sofia Rodrigues tem 18 anos, quer seguir Engenharia Informática, e as áreas que mais lhe interessam são Redes e Inteligência Artificial. Sabe que a informática foi durante muito tempo um universo dominado por homens, mas acredita que as coisas estão a mudar. E quer fazer parte da mudança. Enquanto cidadã, há várias coisas que a preocupam; em novembro do ano passado foi o estado do Sistema Nacional de Saúde. No texto “De Pandemia a Pandemónio” mostrava-se preocupada com a falta de médicos nos hospitais públicos, contrastante com o cenário que encontra nos hospitais privados. Para que a situação de “pandemónio” terminasse, sugeria que se tornasse obrigatório um determinado número de anos de serviço nos hospitais públicos.

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Pela proximidade com que escreveu, podia julgar-se que queria ser médica. Mas não. Ou que tinha familiares profissionais de saúde. Também não. Durante a pandemia ficou mais atenta às notícias e quis acompanhar tudo o que estava a acontecer sem deixar qualquer pormenor para trás. “Tinha sempre a televisão ligada e ia vendo notícias no telemóvel. Estive sempre muito em cima.”

Acompanhar o que se passa no país e no mundo também é algo que faz parte do seu dia-a-dia — além de tocar guitarra e fazer natação. Graças às histórias que a mãe frequentemente traz do trabalho, tem reparado que não se fala tanto quanto devia “sobre o abandono dos idosos”. “Por vezes a minha mãe vai a casa de pessoas, vê em que condições vivem e falamos sobre isso em família. Principalmente nas zonas do interior, parece que a gente se esquece um bocadinho, e vamos a ver e há muitos idosos que vivem sozinhos e que não têm apoio.”

Iva Tavares, 20 anos, Agrupamento de Escolas da Moita

“Não é simplesmente sobre lutarmos pelas mulheres, é sobre lutarmos pelo mundo”

Quando Iva Tavares chegou ao Agrupamento de Escolas da Moita, o primeiro embate com a escola não foi o que esperava. Em Angola estudava Construção Civil, em Portugal viu-se numa turma de 12.º ano no curso de Humanidades. As diferenças no ensino eram muitas — lembra-se de ter de fazer um teste diagnóstico em que devia analisar Fernando Pessoa e os seus heterónimos. Até àquele dia, “nunca tinha ouvido falar no Fernando Pessoa”. Um dia perguntou à professora bibliotecária se ela podia ajudá-la a preparar-se para os exames nacionais, porque sonhava entrar na universidade. A professora disse que sim e, entre diversos exercícios propostos, surgiu o concurso “Isto também é comigo!”.

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Uma notícia sobre a eleição de Giorgia Meloni, primeira-ministra italiana conhecida pelas posições políticas de extrema-direita, deixou-a a pensar. Seria a chegada de qualquer mulher, em qualquer condição, a um lugar de poder uma conquista para todas as mulheres? No seu texto defendeu que não, se defenderem ideias que representem um retrocesso para os direitos humanos. Lembra-se de o escrever, como se fosse hoje: “Naquela fase em que estava a fazer o texto, também estava a ver muitas coisas sobre consciência de classe. E enquanto feminista tenho percebido que não é simplesmente sobre lutarmos pelas mulheres, é sobre lutarmos pelo mundo.” E o seu feminismo, que teve como primeira referência a cantora Beyoncé, quando tinha 14 anos, já voou para outras referências, como Marielle Franco, Malala, Audre Lorde, bell hooks.

“Eu não vou querer salvar só as mulheres que eu conheço, eu não vou salvar a minha mãe, eu não vou salvar a minha irmã. Eu vou salvar todas: as mulheres pobres, as mulheres gordas, as mulheres pretas, as mulheres asiáticas. O feminismo, para mim, é lutar por todas”, acrescenta. É essa pluralidade que também gostava de ver nos manuais escolares — tanto entre os autores e autoras cujas obras tem de ler como entre protagonistas de histórias da vida real. Sabe que “hoje as coisas são muito diferentes de 1974”, mas gostava de poder ler os nomes de Agostinho Neto e Amílcar Cabral nos textos que falam sobre a revolução.


Rodrigo Caldeira, 15 anos, Escola Secundária São Pedro (Vila Real)

Deparei-me com injustiças que aparecem no sistema de ensino”

Numa videochamada entre Lisboa e Vila Real, Rodrigo aparece acompanhado. Está consigo a sua gata, que não resiste a juntar-se para ouvir o que vai ser dito. No artigo de opinião que escreveu em janeiro, Rodrigo conseguiu ir direto ao assunto que o inquieta desde que entrou no ensino secundário: os “paradoxos do ensino em Portugal”. “Afinal, o que querem que sejamos?”, questionava. Em entrevista com o PÚBLICO na Escola, Rodrigo tem a resposta na ponta da língua; parece não ter dúvidas quando tem de dar a sua opinião sobre este assunto.

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Foi quando tive aquela pressão de tentar ter uma boa média para entrar numa boa universidade que comecei a pensar nisso e que me deparei com estas injustiças que aparecem no sistema de ensino”, conta. No texto menciona algumas, que explora na entrevista: ao valorizar “demasiado” as notas dos exames nacionais, privilegia-se alunos que têm mais capacidade financeira para ter acesso a explicações, ou que “têm mais condições em casa para estudar”. “Conta mais um exame de duas horas do que 12 anos a estudar e a participar noutras atividades extra-curriculares importantes”. Para que o futuro não estivesse tão dependente dos exames, Rodrigo sugeria que o acesso ao ensino superior considerasse experiências de voluntariado, cartas de recomendação, as tais atividades extra-curriculares.

Dias antes de escrever o seu texto de opinião, Rodrigo tinha visto o filme O Clube dos Poetas Mortos, que acabou por mencionar. Na sua perspetiva, o filme fala sobre um lado que “qualquer jovem precisa de experienciar”: “viver para além do que os livros da escola nos ensinam”. E é isso que gostava de ver valorizado. Se pudesse falar com o ministro da Educação, João Costa, sabe o que lhe diria: “Diria para ouvir mais jovens, que isso já seria um grande avanço. E também pensar num sistema de ensino mais justo e que focasse outros aspetos, a não ser memorizar a matéria.”

Joaquim Faria, 16 anos, Agrupamento de Escolas de Fafe

Com a educação podes sempre adquirir sonhos”

“O ensino público dá esperança a todos”, dizia Joaquim Faria no artigo de opinião vencedor do mês de fevereiro. Num ano letivo atípico, marcado por greves de professores e trabalhadores não docentes, o aluno de Artes de Fafe decidiu fazer um apelo à valorização do sistema que “traz benefícios inegáveis ao nosso país, a nós jovens, na nossa diversidade e na procura por um futuro”. E ainda contou uma história na primeira pessoa: foi na escola pública que teve o apoio de professores para ultrapassar os desafios que encontrou, à conta da sua dislexia.

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Se o ensino público deu esperança a Joaquim Faria, as bibliotecas públicas abriram caminho para José Saramago, o Nobel da Literatura que surge atrás de Joaquim na fotografia que acompanha o texto de opinião. Antes de ser escritor, quando trabalhava como serralheiro, Saramago visitava bibliotecas públicas para ter acesso aos livros que não havia em casa. E, coincidentemente, foi no mesmo dia em que, há 25 anos, o Nobel foi atribuído a Saramago, que Joaquim Faria conversou com o PÚBLICO na Escola. É em histórias como a sua que Joaquim também se inspira quando exige mais e melhor para o futuro da escola pública.

Não é que toda a gente pense: ah, graças a Deus posso ir à escola. Mas é algo muito impactante na nossa vida. Acho que as escolas públicas dão sempre o apoio que podem, não é? Com a educação podes sempre adquirir sonhos, e mesmo o recinto escolar ajuda-te a criar amizades que podem fazer com que te tornes uma pessoa melhor”, reflete. Joaquim faz parte da segunda geração na sua família a chegar tão longe na escola e tem consciência de que hoje a escola é um espaço muito mais plural. Quer que continue a sê-lo, que toda a gente lhe possa aceder, e que os professores e não docentes tenham condições de trabalho dignas.

[A pedido do movimento “Missão Escola Pública”, o artigo de opinião de Joaquim Faria foi arquivado numa Cápsula do Tempo, cuja abertura estará prevista para 2073.]

João Pinhal, 18 anos, Agrupamento de Escolas de Sampaio (Sesimbra)

Não via nenhum jornal a mostrar as incongruências. Foi o que tentei fazer”

Sempre sonhou ser jornalista e à primeira oportunidade que teve juntou-se ao jornal da sua escola, CREscendo. João Pinhal cresceu em Sesimbra e foi a partir de lá que se começou a sentir inquietado com o mundo. Um dia foi ao site do PÚBLICO na Escola, descobriu que existia um concurso de textos de opinião e decidiu, nesse momento, que ia tentar a sua sorte. A urgência da escrita surgiu da revolta que sentiu ao ler notícias sobre os abusos na Igreja — em particular a notícia “Bispos vão analisar lista de padres abusadores ‘nome a nome’, mas não garantem afastamento”, de Natália Faria. Escreveu e ganhou. “Achei que havia bastante cobertura mediática, mas não via nenhum jornal a mostrar as incongruências. Foi o que tentei fazer”, partilha.

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João decidiu cruzar a notícia do PÚBLICO com tomadas de posição do cardeal Manuel Clemente e um comunicado de imprensa do partido Chega e deu algumas sugestões para evitar que mais abusos aconteçam no futuro, nomeadamente a valorização da disciplina de Educação Sexual, para que toda a gente saiba o que é o consentimento. Esta última foi tema de uma reportagem que fez para o CREscendo, que lhe valeu o prémio de Melhor Reportagem no Concurso Nacional de Jornais Escolares 2022-23, juntamente com mais dois trabalhos assinados por si. E partilha algumas das suas conclusões: “Percebi que, para já, a educação sexual não funciona porque os professores têm muitos tabus e também há uma grande falta de recursos. Trezentos euros para dar um ano inteiro de sessões e para trazer especialistas a um agrupamento inteiro é nada. E as crianças do pré-escolar ao 12.º ano precisam de estar informadas.”

Quando conversou com o PÚBLICO na Escola, Lisboa preparava-se para receber a Jornada Mundial da Juventude. Na altura, falava-se sobre a possibilidade de erguer um monumento em homenagem às vítimas, desenhado por Álvaro Siza, que João considerou insuficiente. Sugeria, por exemplo, que esse dinheiro fosse doado a associações que trabalham com vítimas de abusos sexuais. A quantidade de críticas e argumentos de João Pinhal relativamente a este assunto é reflexo de muitos debates internos, mas também em casa: “Converso muito sobre isto com os meus avós, são as pessoas que me ouvem melhor. Já têm bastante idade, têm alguns preconceitos mas, talvez por terem valores que eu considero muito bonitos, o que acontece é: eu explico-lhes as coisas e eles ficam a entender.”

Gabriel Oviedo Pereira, 19 anos, Escola Secundária Henriques Nogueira (Torres Vedras)

Eu acredito que os direitos humanos não podem ser violados”

Foi a professora Eduarda que sugeriu que fizéssemos este texto, mas era opcional. Eu escrevi porque, como sou estrangeiro, não tinha domínio do português. Ao ler, especialmente notícias, e escrever textos, consegui melhorar.” Foi assim que tudo começou para Gabriel Oviedo Pereira, venezuelano a viver há três anos em Portugal. O incentivo final para participar no “Isto também é comigo!”, depois do empurrão da professora de português, foi perceber que podia “explorar assuntos que são de importância” e que sentia não tinham a visibilidade que achava que merecim. Neste caso, o que se estava a passar com as mulheres no Afeganistão. No texto “Direitos das mulheres no Afeganistão: uma miragem?”, Gabriel defende que “é imperativo que a opinião pública ocidental continue a mobilizar-se em torno do protesto contra as violações dos direitos das mulheres em qualquer parte do globo”.