Um submergível artesanal e descartável que trazia 100 milhões de euros em cocaína a bordo

É a primeira vez que uma embarcação deste tipo é apreendida na Europa no âmbito do combate ao narcotráfico. Submergível descartável seria afundado após terem sido retirados os 3000 quilos de droga a bordo. Governo espanhol diz que apreensão é “histórica”.

Fotogaleria
O submergível que atravessou o Atlântico com três toneladas de cocaína, numa viagem que terá demorado pelo menos 20 dias Anna Costa
Fotogaleria
Anna Costa
Fotogaleria
Anna Costa
Fotogaleria
Anna Costa
Carro
Fotogaleria
Anna Costa
Fotogaleria
Anna Costa

O aspecto artesanal não parece condizer com o nome pomposo que as autoridades espanholas e a imprensa lhe atribuíram: “narcossubmarino”. Na realidade, não é uma embarcação capaz de navegar no fundo do mar, mas apenas junto à linha de água, com uma pequena cabine que terá sempre de ficar fora da água. Isto, porque de outra forma não se fazia a extracção dos gases do motor e a captação de ar, que circulam em tubos colocados junto à pequena cabine com janelas.

Mas isso não retira qualquer importância à descoberta, que esta quarta-feira o delegado do Governo espanhol na Galiza, Javier Losada, fez questão de apelidar de “histórica” numa conferência de imprensa no Porto de Aldán, perto de Vigo, com o semi-submergível em pano de fundo. Isto, porque é a primeira vez que se apreende uma embarcação deste tipo – 20 metros de comprimento — na Europa, no âmbito ao combate ao narcotráfico. E ainda por cima com 3000 quilos de cocaína de grande pureza a bordo. “Haverá um antes e um depois desta apreensão. Agora temos a certeza de que o tráfico também se faz desta forma”, resume o governante. “Esta droga no mercado valeria cerca de 100 milhões de euros. Foram 100 milhões de euros em droga que retirámos da rua”, estimou Javier Losada.

O aspecto rudimentar e ausência de tecnologia avançada só vêm confirmar a convicção das autoridades que acreditam que as redes internacionais usam estes submergíveis de forma descartável. Fazem uma viagem transatlântica e depois de cumprirem a sua função são afundadas. Embarcações deste tipo, mas mais pequenas, já foram apreendidas entre a Colômbia e os Estados Unidos.

O capitão-de-fragata João Galocha, que esteve na Galiza a representar a Marinha portuguesa, também envolvida nesta operação internacional, confirma que a embarcação é artesanal. “É feita de fibra e, por cima, é aplicada uma espécie de cola que lhe dá este aspecto cinza”, explica Galocha. O motor teria 80 cavalos e permitia uma navegação a sete nós, ou seja, cerca de 14 quilómetros hora.

O interior só foi visto pelas autoridades espanholas que agora vão transportá-lo num camião TIR para a Escola Militar de Marín, onde será sujeito a inúmeras perícias forenses. Para já, sabe-se que no interior só haveria duas camas (o terceiro tripulante ficaria em alerta enquanto os outros descansavam), o motor, um grande tanque de combustível e um espaço para armazenar a droga. A comida deveria resumir-se a enlatados e alimentos secos, que dariam para aguentar os cerca de 20/25 dias que se estima terá demorado a travessia atlântica, desde um país da América Latina, que ninguém quer identificar.

Foto
Anna Costa

As autoridades espanholas receberam na quinta-feira passada informações do Centro de Análise e de Operações contra o Narcotráfico Marítimo (MAOC-N, na sigla inglesa), uma entidade intergovernamental que reúne sete países da União Europeia, sobre uma embarcação com uma elevada quantidade de droga a bordo que se dirigia para a Galiza. Nessa altura, já há muito que a Marinha portuguesa tinha um navio em mar para tentar desmascarar um transbordo de droga, que estaria previsto acontecer a 300 milhas náuticas ao sul do cabo de S. Vicente. Um navio da Marinha partiu a 17 de Novembro em busca da embarcação, com inspector da PJ a bordo, mas as condições da ondulação, com seis a sete metros, terão obrigado os traficantes a mudar de ideias.

A PJ, com o apoio da Marinha e da Força Aérea, monitorizou a deslocação da embarcação, tendo mantido o MAOC-C informado. Quando o submergível se começou a dirigir para a Galiza, as autoridades espanholas foram alertadas. Puseram-se em campo e, com aquilo que dizem ter sido a colaboração “fundamental” das autoridades britânicas, conseguiram localizar a embarcação. No domingo de manhã, antes de os três tripulantes terem tentado afundar o submergível, intervieram e conseguiram deter dois dos suspeitos. Esta terça-feira, os dois foram presentes a uma juíza de instrução, em Cangas, que determinou a sua prisão preventiva. Um terceiro, que terá nacionalidade espanhola, continua fugido.

De quem era a droga e quem a deveria ter vindo recolhê-la é algo que as autoridades espanholas não revelam. Javier Losada deixou muitas perguntas sem resposta, realçando que a investigação continua em curso e que muitos dados não podem ser revelados para não prejudicar o seu desfecho. Só o tempo trará mais respostas.

Sugerir correcção
Ler 18 comentários