Empreendedores, tubarões e entretenimento

Ver os tubarões e os candidatos a terem de pensar rápido e decidir rápido é como assistir a uma experiência num laboratório de comportamento humano, o que acho fascinante

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Shark Tank/Facebook

O programa televisivo Shark Tank é um "reality-competition" norte-americano onde empreendedores apresentam um projecto seu a cinco empresários de sucesso e propõem-lhes a venda de parte do capital desse projecto por um preço. Os empresários residentes (os auto-denominados tubarões) entram numa breve negociação com o candidato e, no fim, recusam ou aceitam fazer o negócio (proclamando o famoso "I’m out", quando recusam).

Sou um fã do programa por uma razão simples: diverte-me. O programa é altamente eficaz a fazer aquilo que um programa de entretenimento é suposto fazer, ou seja, entreter o telespectador.

Bem sei que os norte-americanos e a sua indústria televisiva tendem a ser bastante competentes nesta área do entretenimento. Mas este programa atrai-me mais que outros. E mesmo não sabendo quanto do programa é real ou encenado (nunca sabemos toda a verdade em televisão), quero acreditar que tudo o que lá se passa seja mais verdadeiro do que fictício.

As audiências do programa mostram que ele agrada a muita gente, e há diversas razões para que assim seja. Uns gostarão de ver as ideias empreendedoras que são apresentadas, admirando a criatividade dos candidatos. Outros entusiasmar-se-ão com o sonho americano que o programa preconiza: alguém chega com uma ideia (e vontade de a pôr em prática) mas com poucos recursos financeiros, e pode sair do programa cheio de dinheiro e, mais importante, com uma parceria com um grande empresário que pode abrir portas para um futuro de sucesso (o programa encarrega-se, aliás, de fazer "updates" de negócios apresentados em episódios passados, mostrando o sucesso obtido por alguns empreendedores que por lá passaram). Ainda outros acharão piada ao processo negocial, que tende sempre a ser aceso, muitas vezes com os tubarões a digladiarem-se entre si para fecharem negócio com o candidato. Outros apreciarão a postura descontraída e bem-humorada dos tubarões (com especial destaque para Kevin O’Leary, aka Mr. Wonderful, que tem um refinado sentido de humor e tiradas irónicas e hilariantes). E haverá aqueles que se fixam nos cromos (que os há sempre nestes programas) que apresentam ideias tão alucinadas que, ou são geniais, ou completamente idiotas.

A mim, o que mais me prende a atenção é o processo psicológico envolvido naquelas negociações rápidas. Ver os tubarões e os candidatos a terem de pensar rápido e decidir rápido é como assistir a uma experiência num laboratório de comportamento humano, o que acho fascinante. E, também, a boa disposição e "fair-play" dos milionários que (e isso é notório) não só se divertem no programa como aceitam de bom grado experimentar os produtos dos candidatados (seja comida para cães, skates malucos ou adereços ridículos), demonstrando um à-vontade e um "não se levarem a sério" de louvar (conseguem imaginar os grandes empresários portugueses num "Tanque dos Tubarões"?).

Convém, no entanto, não nos iludirmos com o programa. É que ele é mesmo isso, apenas um programa de televisão. Divertido, bem feito. Mas achar que ele representa a vida norte-americana, ou que este empreendedorismo primário pode ser a solução de uma nação, é ter uma visão muito distorcida da realidade. Os dados existem e são claros: o mundo do empreendedorismo apresenta uma taxa de mortalidade brutal. Ao fim de cinco anos de existência, a esmagadora maioria das empresas já faliu (e o mesmo se passará com os negócios que são feitos no “Shark Tank”).

Enfim, se não o levarmos demasiadamente a sério e virmos o “Shark Tank” apenas como o programa de televisão que é, penso que temos aqui um excelente produto de entretenimento!

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