Oksana Chusovitina não vai parar: “Vemo-nos daqui a quatro anos”

A quarentona ginasta do Uzbequistão que foi sétima na final do salto de cavalo diz que vai a Tóquio e acha que o filho não vai gostar.

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Ben Stansall/AFP

Oksana Chusovitina já competiu por três países diferentes e um deles já não existe. Tinha 13 anos quando foi campeã nacional júnior da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e tinha 16 quando conquistou os seus primeiros títulos de campeã mundial. Dezasseis era quanto tinha a pequena chinesa Yan Wang, a mais nova das oito finalistas dos saltos de cavalo no programa de ginástica artística dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Chusovitina, de 41 anos, também estava lá e só uma das outras sete é que já tinha nascido quando a soviética/alemã/uzbeque começou a ganhar títulos mundiais.

Quando acabou a final do aparelho e a norte-americana Simone Biles ganhou mais um ouro, o público saudou a sétima classificada Chusovitina como se de uma despedida se tratasse, com direito a vídeo-montagem da sua carreira ao longo de quase três décadas e um “Obrigado Oksana”. Oksana agradeceu a homenagem, mas diz que foi feita fora de tempo. “Foi uma surpresa muito agradável e agradeci aos espectadores, mas isto não foi uma despedida”, disse a mais velha ginasta de sempre a participar em Jogos Olímpicos. Quando o speaker da prova a introduziu em competição, disse qualquer coisa do género: “Ela já andava nisto antes de boa parte de nós ter nascido”.

Depois da campeã Simone Biles, Chusovitina foi quem mais mereceu atenção da imprensa internacional. Todos queriam falar com aquela quarentona mãe de família, uma personagem diferente num desporto em que predominam as adolescentes e as jovens adultas. Só falou em russo e as suas palavras foram sendo traduzidas para inglês por um intérprete. Mas, quando lhe perguntam sobre Tóquio 2020, solta um par de palavras em inglês. “Of Course!” Claro. “Vemo-nos daqui a quatro anos.”

Os Jogos do Rio de Janeiro foram os sétimos para Oksana Chusovitina, cuja carreira olímpica começou nos já longínquos Jogos de Barcelona em 1992, então com 17 anos. A representar a Equipa Unificada, formada a partir dos despojos da União Soviética, Chusovitina conquistou o ouro na prova por equipas, naquele que foi o seu único título olímpico, conseguindo ainda uma medalha de prata em Pequim 2008, a representar a Alemanha. Em termos de competições, a ginasta nascida em Bukhara ganhou ainda medalhas pela Comunidade de Estados Independentes (formada por nove dos 15 Estados da entretanto extinta URSS) e pelo Uzbequistão, país onde nasceu.

Durante os quase 30 anos que leva na alta roda da ginástica, Chusovitina teve uma itinerância assinalável em termos de nacionalidade e por vários motivos. Deixou de ser soviética porque a União Soviética deixou de existir e deixou de ser uzbeque porque teve de se mudar para a Alemanha para salvar a vida do filho Alisher (de 17 anos, mais velho que Yan Wang), diagnosticado com leucemia. Ela e o marido foram viver para território germânico e Oksana assumiu nova nacionalidade, passando a competir pelo país de adopção em 2006 e até aos Jogos de Londres, onde foi vice-campeã no salto de cavalo. O filho, entretanto, curou-se e a ginasta voltou, em 2013, a competir pelo Uzbequistão.

Continuou a participar em campeonatos mundiais, sem classificações muito vistosas, e assim apareceu nos Jogos do Rio, onde se qualificou para a final juntamente com outras ginastas com idade para serem suas filhas. Porquê? “Porque gosto”, respondeu sinteticamente. E o corpo aguenta? “Não consigo responder a isso. Isto é uma experiência, de ver até quando consigo competir”, sintetizou a ginasta, tal como há 20 anos, diminuta e elegante como todas as outras. Na final, Chusovitina tentou um salto arriscado baptizado como o salto Produnova, de elevado grau de dificuldade e potencialmente perigoso. Caiu e foi penalizada por isso — a indiana Dipa Karmakar tentou o mesmo na final e também não conseguiu uma aterragem perfeita.

E por que razão não há mais mulheres da idade dela a competir? Oksana só sabe de si. “Têm de lhes perguntar a elas, eu não sei”, assinala. A rotina de treino parece adequada para uma ginasta de alta competição — “uma vez por dia”, insistiu, depois de um erro na tradução ter colocado esse esquema em um dia por semana —, mas não tão intenso que deixe de ter tempo para a família. Apesar de ainda fazer parte deste mundo, a uzbeque reconhece que muita coisa é diferente do momento em que começou. “Foi há tanto tempo. Acho que a ginástica é um desporto demasiado sofisticado. Antes, era mais refinado e belo.”

Dividindo a vida entre a Alemanha e o Uzbequistão, Oksana ainda não tinha dito ao filho, que estuda e joga basquetebol na Alemanha, que iria continuar a competir. “Acho que ele vai ficar um bocado desiludido comigo por isso, porque ele toma conta de mim e é muito emotivo em relação a mim. Ele diz: ‘Mãe, não faças coisas complicadas, tem cuidado, não corras riscos’”, revela a ginasta, que, apesar de um corpo moldado e massacrado por mais de 20 anos de competição, não tem problemas em levantar-se da cama de manhã: “Não me dói nada. Se sou humana? Sim, sou humana.”

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