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Onde é despejado ilegalmente o lixo electrónico do primeiro mundo?

África é o destino principal destes resíduos – mas só à capital do Gana chega 39% do lixo electrónico produzido no mundo. Ghana: Following Our E-Waste revela o impacto social e ambiental do fenómeno.

Via Zongo, Acra, Gana, Primavera de 2023. Na via Zongo, e em seu torno, há centenas de pequenas lojas vendem e reparam todo o tipo de componentes electrónicos descartados. A maior parte do lixo electrónico no local provém da Europa, onde praticamente já não se reparam equipamentos. ©Bénédicte Kurzen para a Fondation Carmignac / NOOR
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Via Zongo, Acra, Gana, Primavera de 2023. Na via Zongo, e em seu torno, há centenas de pequenas lojas vendem e reparam todo o tipo de componentes electrónicos descartados. A maior parte do lixo electrónico no local provém da Europa, onde praticamente já não se reparam equipamentos. ©Bénédicte Kurzen para a Fondation Carmignac / NOOR

Ao longo do ano de 2022, de acordo com um relatório da ONU, o mundo gerou 62 milhões de toneladas de lixo electrónico. Devido à democratização do seu uso em todo o mundo, número de telemóveis, smartphones, tablets, ecrãs e computadores descartados aumentou, desde 2010, cerca de 82%. Ao Gana chegam, anualmente e de forma ilegal, centenas de milhares de toneladas deste tipo de lixo; as consequências, tanto para o meio ambiente como para a saúde de quem os manuseia, são devastadoras.

Ao longo de um ano, entre os meses de Fevereiro de 2023 e 2024, o jornalista ganense Anas Aemeyaw Anas e os fotojornalistas Muntaka Chasant, ganense, e Bénédicte Kurzen, francesa, seguiram o rastro do lixo electrónico desde a sua origem, na Europa, até ao seu destino, no Gana. O projecto transnacional Ghana: Following Our E-Waste, que levanta o véu sobre o impacto social, ambiental e económico do fenómeno de assimilação do lixo electrónico no Gana, resulta da atribuição de uma bolsa de investigação na 13.ª edição do Prémio de Fotojornalismo de Carmignac.

“A partir da imagética dramática habitualmente usada pelos média para retratar o Gana como ‘a lixeira do mundo’, a equipa passou um ano a documentar um ecossistema incrivelmente ambíguo e complexo que se traduz em oportunidades económicas cruciais para milhares de pessoas no Gana e que tem um impacto humano e ambiental considerável”, lê-se no comunicado enviado ao P3 pela Fondation Carmignac, que anuncia a realização de três exposições do projecto – sendo a de maior proximidade temporal e geográfica com Portugal a que terá lugar no festival Les Rencontres d’Arles, a partir de 1 de Julho.

As imagens do projecto descrevem a realidade dos portos de Roterdão, nos Países Baixos, de Rainham, no Reino Unido, e de Tema, no Gana, expondo “a opacidade de um ciclo globalizado” que está envolto em ilegalidade. O envio de lixo electrónico para países em desenvolvimento está proibido pela União Europeia, no entanto, muitas empresas dos estados membros continuam a encontrar formas de contornar a lei, expondo a ineficiência da legislação europeia em vigor. O jornalista Anas Aeemeyaw Anas infiltrou-se nos portos de Acra e conheceu “os fluxos legais e ilegais do lixo electrónico, desmascarando as estratégias e a corrupção que tornam possível contornar as leis em solo europeu e ganense”.

Uma parte substancial das imagens do projecto descreve o quotidiano dos cidadãos, em Acra, que se dedicam à prospecção, reparação e revenda dos dispositivos electrónicos avariados ou em fim de vida que estão depositados em enormes lixeiras a céu aberto. O ganense Ali trabalha numa delas diariamente e a sua tarefa consiste na recuperação de detritos metálicos que estão enterrados nas cinzas das fogueiras que são ateadas com vista à separação do plástico do metal. O fumo que resulta dessa combustão é altamente tóxico e Ali está exposto à sua inalação sem qualquer equipamento de protecção; em troca desse esforço e risco, Ali troca o metal por pouco dinheiro em centros de reciclagem locais.

Simon Aniah é visto poucos metros do Lago Korle, em Acra, a atear um fogo com o mesmo objectivo. “Simon e centenas de outros jovens migram das suas aldeias e outras áreas do nordeste do Gana para se dedicarem ao trabalho com lixo electrónico tendo em vista a mobilidade social”, lê-se na legenda de uma das imagens de Muntaka Chasant. O nordeste do país, a região de onde Simon é proveniente, regista a taxa de desemprego mais alta entre a população jovem, de acordo com os censos do Gana de 2021.

Manusear lixo electrónico é um modo de vida para muitos ganeses e nigerianos imigrados em torno da já extinta lixeira de Agbogbloshie, que foi, em tempos, conhecida como uma das zonas mais poluídas do mundo. Parte significativa dos trabalhadores deste ofício – alguns deles menores de idade – sofrem queimaduras com regularidade, padecem de problemas respiratórios, dores de cabeça debilitantes que resultam da inalação de fumos e do contacto não protegido com metais pesados, como mercúrio, arsénio, chumbo, que são componentes dos dispositivos electrónicos.

A recepção de lixo electrónico proveniente dos países de primeiro mundo não é exclusiva do Gana; o e-waste europeu e norte-americano chega em grandes quantidades aos portos de vários países da África Ocidental, onde o fenómeno de grande desigualdade e injustiça económica e ambiental que se observa no Gana se repete. O relatório da ONU supramencionado aponta que, mantendo-se a tendência de não reparação dos equipamentos, o lixo electrónico produzido globalmente pode atingir os 82 milhões toneladas já em 2030.