João Barrento: um guia para leitores perdidos

Nesta quinta-feira, o crítico literário, tradutor e ensaísta João Barrento recebe o Prémio Camões, cuja edição de 2023 distinguiu pela primeira vez o lugar da tradução na literatura.

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Logo a abrir o prefácio à sua tradução dos Fragmentos de Novalis, Rui Chafes recupera a categorização de tradução deixada pelo poeta alemão. Neste sentido, são três os tipos de tradução: gramática, mítica e modificadora. As traduções gramaticais assentam na erudição, requerem capacidades discursivas e são as mais usuais. As míticas são as de mais elevado estilo e oferecem ao leitor uma versão ideal da obra de arte traduzida. Já as traduções modificadoras correspondem ao supremo espírito poético, exigindo ao tradutor transformar-se no Poeta do Poeta, assumindo-se ele próprio artista.

No dia em que é entregue o Prémio Camões a João Barrento, recupero esta passagem da tradução de escultor de Rui Chafes, não apenas pelas óbvias afinidades eletivas entre Barrento e Chafes, mas porque permite identificar uma das marcas mais relevantes do seu trabalho. Entre as várias facetas de Barrento – professor universitário, crítico literário, ensaísta, dinamizador cultural – vejo a tradução como a sua mais fascinante contribuição cultural, acompanhada por uma outra arte igualmente maior: a de prefaciador.

João Barrento não é apenas o tradutor de uma longa linhagem de autores germânicos (de Hölderlin a von Hofmannsthal, passando por Goethe, Kafka, Musil, Celan ou Walter Benjamin), é responsável por termos em português um corpo único da literatura alemã, em que as traduções nos chegam, como o próprio reflete a propósito da edição de Todos os Poemas de Hölderlin, enquanto “cópia transgressora e fiel”, utopias que articulam a mais rigorosa literalidade com o mais amplo e livre espectro de significações possíveis. As suas traduções são, por isso, para parafrasear Herberto Helder, textos mudados para português. Há, invariavelmente, no sublime rigor das traduções de Barrento, uma profundidade e uma liberdade que coexistem com a dimensão poética e musical dos textos.

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João Barrento foi Prémio Camões 2023 Daniel Rocha

A leitura das suas traduções como poesia (“qualquer coisa que pode significar uma mudança na respiração”, na exata definição de Paul Celan) é facilitada por um outro exercício, igualmente laborioso: o de prefaciador. Numa feliz metáfora, o próprio Barrento classificou os prefácios como “umbrais”, portas de acesso que acompanham autores ou livros. Contrariamente à crítica, que por definição é escrita contra o autor, o que move a escrita do prefácio é uma vontade de ir ao encontro de um outro, de o entender e de o dar a ler, e o resultado acaba por ser mais dádiva do que questionamento, revela o próprio em Umbrais – O Pequeno Livro dos Prefácios.

Estas “portas de afeto” construídas por Barrento são autênticos guias para leitores perdidos, quer ao franquearem a entrada noutros textos (como acontece com Hölderlin ou von Hofsmansthal), quer em obras integrais (o que sucede com uma arrebatadora profundidade prismática com Benjamin). Não se trata apenas de humanizar e integrar no tempo e no espaço os autores que traduz ou sobre os quais escreve. Pelo contrário, o que mais releva neste exercício é a depuração sucessiva e plena de vitalidade que Barrento vai fazendo de um diálogo circular em torno de autores sobre os quais lança luz de forma obsessiva.

A leitura é “uma festa do silêncio”. Um encontro interior com o entusiasmo que nos permite sair de nós próprios e encontramos um sentido no mundo à nossa volta. A perda de relevância da literatura, o recuo do tempo demorado da leitura e o risco de desliteralização da vida correspondem, hoje, a uma manifestação aguda da tragédia da cultura (Simmel), acelerada por uma imposição da atualidade face ao dever de memória. Contra isso, persiste a necessidade de literatura como ferramenta para ir mais além, buscar a verdade íntima das coisas e tornar possível a navegação num mundo às avessas. Perante um certo mal-estar e desagregação sociais, João Barrento tem a audácia de clarificar o caminho. Fá-lo através da erudição, do rigor e da seriedade, mas, no que o distingue de outros intelectuais, demonstra sempre uma clareza primordial e um olhar poético que, em conjunto, são iluminadores. Temos mesmo uma profunda dívida de gratidão por tudo aquilo que nos tem dado.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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