Fotogaleria

Na Geórgia, Dato Daraselia protesta, fotografa e sonha com um futuro europeu

"Tem sido muito difícil”, conta ao P3 o fotojornalista georgiano que estagiou no PÚBLICO entre 2013 e 2014. “A polícia responde com muita violência.” Dato Daraselia traz o retrato dos protestos a partir de dentro.

Manifestante em Tbilissi, Geórgia, em Maio de 2024 ©Dato Daraselia
Fotogaleria
Manifestante em Tbilissi, Geórgia, em Maio de 2024 ©Dato Daraselia

Fervilham as ruas de Tbilissi, na Geórgia. Os protestos contra a Lei da Transparência da Influência Estrangeira multiplicam-se e têm sido recebidas pelas autoridades com violência, com gás lacrimogéneo, balas de borracha, canhões de água, para reprimir e dispersar os manifestantes. O fotógrafo Dato Daraselia, natural da capital georgiana, tem acompanhado quase diariamente os protestos que reúnem milhares de pessoas. “Tem sido muito difícil”, escreve ao P3 o fotojornalista georgiano que estagiou no PÚBLICO entre 2013 e 2014. “A polícia responde com muita violência.”

Porque protestam os georgianos? O que está em causa? Dato explica que, em Dezembro de 2023, a Geórgia recebeu o estatuto de país candidato à União Europeia (UE), um objectivo que estabeleceu em Março de 2022, logo após a invasão Rússia da Ucrânia, aquando da apresentação formal da sua candidatura à UE. A lei dos “agentes estrangeiros”, como tem sido denominada no país, “viola os princípios da UE”, refere Dato.

Mas no que consiste a lei e que perigo representa para a democracia georgiana? A lei, que muitos afirmam ser de “inspiração russa”, já tinha sido proposta em 2023 – altura em que gerou forte contestação popular – e foi, a 14 de Maio de 2024, aprovada pelo parlamento do país. Há poucos dias, no entanto, foi vetada pela presidente Salome Zurabishvili, que alegou que a lei “contradiz a Constituição georgiana e todas as normas europeias”; o seu veto pode ainda ser rejeitado em sede do parlamento, motivo pelo qual os protestos não desmobilizaram.

A lei em questão obriga todas as organizações não-governamentais ou órgãos de comunicação social a registar-se como grupos “ao serviço de interesses de uma potência estrangeira” se mais de 20% do seu financiamento for de proveniência estrangeira. A verificar-se, essas passarão a estar sob vigilância do Ministério da Justiça georgiano e sujeitas ao pagamento de multas.

O fotógrafo Dato Daraselia (n. 1984) crê que o partido no poder há 12 anos, Sonho Georgiano – Geórgia Democrática – fundado pelo oligarca Bidzina Ivanishvili, o homem mais rico da Geórgia – tem interesse em fazer aplicar a lei por “temer não ser o vencedor das eleições” marcadas para Outubro de 2024. “Quer impor a ‘lei russa’ para conseguir controlar as organizações e os meios de comunicação social” da Geórgia, opina, no sentido de “facilmente controlar” a informação no país e “identificar os seus opositores políticos”.

“Não queremos voltar ao tempo da URSS, lutámos três décadas para chegar até aqui, por liberdade e valores europeus, e não vamos desistir”, afirma Daraselia, que tem participado activamente nos protestos e que conversa com o P3 na condição de cidadão georgiano, e não de fotojornalista. “Estamos cansados de um governo que nos quer levar para a Rússia e não vamos permitir que o façam.

A maioria dos que protestam em Tbilissi são jovens. “Mas participam pessoas de todas as idades, inclusivamente aquelas que ainda se lembram da Geórgia da União Soviética.” Aqueles que nasceram depois de 1991, que já viveram numa “Geórgia livre”, recordam a guerra de cinco dias que teve início na madrugada de 7 de Agosto de 2008, que resultou na incursão militar russa sobre os territórios georgianos de Abkházia e Ossétia do Sul, que a Rússia reconheceu, unilateralmente, como territórios independentes.

“Temos na memória Abkházia e Ossétia, lembramo-nos dos nossos heróis que morreram a defender a Geórgia. Temos muito medo que a Rússia regresse com o slogan ‘os nosso irmãos precisam da nossa ajuda’ e que venham com os tanques e armas ‘defender-nos’! Mas não há volta dar, não há caminho para trás.” O fotógrafo tem esperança e confiança nos resultados das próximas eleições. “Os políticos da oposição vão unir-se como o objectivo comum de derrotar este governo pró-russo e regressar ao caminho que nos levará à União Europeia.”

Polícia tenta desmobilizar manifestantes, em Tbilissi, Geórgia, num dos protestos do mês de Maio de 2024
Polícia tenta desmobilizar manifestantes, em Tbilissi, Geórgia, num dos protestos do mês de Maio de 2024 ©Dato Daraselia