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Adra Pallón faz o retrato da “morte lenta e silenciosa” das aldeias rurais da Galiza

Inaugura-se na galeria da Leica Store do Porto, 18 de Maio, a exposição do projecto Demothanasia, que documenta o despovoamento das aldeias da Galiza e a vida dos últimos habitantes.

Olga tem 91 anos e, apesar da idade, ela caminha vários quilómetros em torno da sua aldeia todos os dias. O seu filho, que costumava viver na cidade, teve de regressar à aldeia para cuidar de Olga, a única habitante ©Adra Pallón
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Olga tem 91 anos e, apesar da idade, ela caminha vários quilómetros em torno da sua aldeia todos os dias. O seu filho, que costumava viver na cidade, teve de regressar à aldeia para cuidar de Olga, a única habitante ©Adra Pallón

“Aínda hoxe o tempo pareceu non ir tan lento”, disse Mari Carmen, de 62 anos, ao fotógrafo galego Adra Pallón, no dia de 2022 em que decidiu visitá-la numa aldeia da zona de Xistral, ao largo de Lugo. A solidão reprime os ponteiros do relógio e faz escorrer mais lentamente o tempo – uma realidade vivida pelos poucos que ainda resistem nas aldeias remotas da Galiza. A sexagenária vive, com a filha, “numa das zonas mais afectadas pelo despovoamento na região da comunidade autónoma”, nota Adra, que dedicou os últimos seis anos ao registo da “morte lenta e silenciosa” da ruralidade galega.

O projecto Demothanasia nasceu em 2018, altura em que a avó de Adra Pallón, que vive sozinha numa aldeia não muito longe de Lugo, a cidade onde reside o fotógrafo, sofreu um acidente em casa. Isolada, passou horas a gritar por ajuda antes de ser socorrida por uma vizinha. “No final, não aconteceu nada de grave, felizmente, mas foi nessa altura que me fixei numa pergunta: o que acontece às pessoas idosas que vivem longe das cidades? Foi aí que decidi pegar na câmara fotográfica.”

Diante dessas questões, Adra, engenheiro de formação, começou a investigar em profundidade o passado e o presente da ruralidade galega. “Digo sempre que, para mim, a fotografia não é capaz de dar respostas, apenas de gerar mais perguntas.” Munido do conhecimento que obteve em contacto com investigadores da academia, Adra produziu a evidência fotográfica que serve, no presente, para “denunciar a passividade institucional” diante do galopante fenómeno de despovoamento da região.

“Escolhi focar-me na Galiza porque é a região que melhor conheço”, conta, em entrevista ao P3, o fotógrafo de Lugo, que inaugura a exposição do seu trabalho na Leica Store do Porto, a 18 de Maio, em conjunto com mais dois artistas também vencedores do concurso LSI Photography Grant 2023. Adra percorreu centenas, se não milhares de quilómetros no território da Galiza, entre 2018 e 2024, e contactou com dezenas de pessoas que vivem, em elevado grau de isolamento, nas pequenas aldeias rurais galegas. Deparou-se, ao longo dos anos, com um elevado número de aldeias totalmente abandonadas, sem nenhum habitante. “A certa altura, só comecei a visitar as aldeias quando, ao longe, via que, das chaminés das casas, saía fumo.”

Adra encontra, não raramente, aldeias onde vive apenas uma pessoa, ou duas, ou três. “Noto uma diferença entre a Galiza e, por exemplo, o norte de Portugal”, observa. “Mesmo na Galiza, no sul, à medida que me aproximo de Portugal, o número de casas por povoação aumenta, chegando às 20 ou 30 casas por aldeia. Na Galiza, há lugares com três casas mais ou menos dispersas, o que dificulta a vida de quem lá se mantém. A solidão é, por vezes, enorme.”

Existem serviços de apoio social camarários que garantem que essas pessoas recebem uma ou duas visitas dos técnicos por semana, mas que Adra considera claramente insuficientes face às necessidades. Luis, um dos retratados, vive sozinho numa casa a precisar de reparações. “Diz que não vai mudar as janelas ou consertar a casa porque, quando morrer, ninguém irá lá viverá”, lê-se numa das legendas. O abandono das casas é um fenómeno galopante nas regiões rurais da Galiza.

Há poucos vestígios de modernidade nas fotografias de Adra Pallón. A vida nas aldeias, onde residem apenas alguns idosos e quase nenhum jovem, segue um ritmo particular, ditado pelos cultivos agrícolas e pelos cuidados com os animais. As reformas, mínguas, mantêm muitos destes habitantes dependentes do seu próprio trabalho, numa lógica de auto-subsistência. Lidia e Celestino continuam, apesar de octogenários, a cuidar da horta e a recolher os frutos do seu trabalho. Fernando continua a criar galinhas e a plantar hortícolas. "O que me salva é o pouco dinheiro que gasto em comida, porque como aquilo que planto e o que os meus animais me dão", contou ao fotógrafo.

No terreno, Adra tem por hábito perguntar a quem encontra nas aldeias quantas casas habitadas existiam antes e quantas existem agora. “Uma vez responderam-me que ‘chegaram a existir dezoito lumes e que agora só há um’. Achei bonito pensar no conceito de lume. Referia-se ao lume das casas habitadas. Hoje, quando falamos de lume referimo-nos aos incêndios florestais, no Verão.” Lumes é o nome que deu ao livro, editado pela espanhola Phree, que reúne as imagens do projecto, onde constam também imagens que referem ao flagelo dos incêndios florestais que fustigam a Galiza algumas das quais foram premiadas, em 2022, pelo concurso de fotojornalismo português Estação Imagem.

“Nas primeiras viagens que fazia, falava com as pessoas mais velhas e perguntava-lhes se as florestas em torno sempre existiram”, recorda Pallón. “Uma vez uma senhora apontou para o monte e perguntou-me se eu achava que tinha sido sempre assim e eu respondi que sim. ‘E então o que íamos comer? Para onde iam pastar os animais?’, perguntou-me, expondo a minha ingenuidade. Essas eram as terras que usavam para a agricultura e para a pastorícia.” Essa alteração da paisagem rural, que se transformou em paisagem florestal, é também uma consequência do despovoamento, aponta o fotógrafo. “Acontece que os bosques não são sequer compostos por árvores autóctones, mas sim por eucaliptos e pinheiros, que são espécies altamente inflamáveis.” 

Tudo está interligado, na opinião do fotógrafo. “O projecto assenta em quatro pilares”, enuncia. O primeiro é a “falta de autonomia residencial” dos idosos que vivem nas zonas rurais; o segundo é a situação de “precariedade” em que viv