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Russos e ucranianos convivem numa remota, gelada e "quase comunista" vila do Árctico

Arctic Dreams, de Mario Heller, traz o retrato da vida em Barentsburg, no Círculo Polar Árctico, a vila onde vivem isolados, com temperaturas extremas, cerca de 400 habitantes russos e ucranianos.

Barentsburg, Svalbard, Noruega. Um helicópter Mi-8 no hangar. O veículo é usado em último recurso pelos residentes. Devido à imprevisibilidade atmosférica, é um local perigoso para voar. Uma equipa de pilotos, engenheiros e técnicos esforçam-se por que os voos sejam seguros. Em Outubro de 2017, um desastre aéreo matou várias pessoas. ©Mario Heller
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Barentsburg, Svalbard, Noruega. Um helicópter Mi-8 no hangar. O veículo é usado em último recurso pelos residentes. Devido à imprevisibilidade atmosférica, é um local perigoso para voar. Uma equipa de pilotos, engenheiros e técnicos esforçam-se por que os voos sejam seguros. Em Outubro de 2017, um desastre aéreo matou várias pessoas. ©Mario Heller

No Inverno, Barentsburg não vê a luz do Sol; e no Verão, ele nunca se põe, transformando uma estação do ano num interminável dia. Plantada numa das ilhas do arquipélago norueguês de Svalbard, no Círculo Polar Árctico, a pequena vila, construída pela Rússia na ilha de Spitsbergen para servir os trabalhadores da mineração de carvão, é hoje a casa de cerca de 400 habitantes. A população tem uma característica que a torna, na situação de isolamento geográfico extremo em que se encontra e no contexto da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, num lugar muito particular: metade é de nacionalidade russa e a outra é ucraniana.

Quando o suíço Mario Heller, fotógrafo da Panos Pictures, decidiu visitar a ilha do Ártico, em Fevereiro de 2023, a guerra já se estendia há um ano. Contactou a empresa que explora o carvão na ilha de Spitsbergen, a Arktiugol, e conseguiu o apoio logístico que tornou possível a sua viagem, mas impondo uma condição: “Eles eram contra uma cobertura política” da situação na pequena vila, contou ao P3, a partir de Berlim, onde reside. “E eu, honestamente, também não tinha interesse em cobrir a história dessa perspectiva. Já há muitas reportagens sobre Barentsburg a partir desse ângulo.”

O projecto Arctic Dreams, que resulta de duas semanas de estadia de Heller na vila do Árctico, não deixa de ser sobre a sua população. “As 400 pessoas que vivem ali pouco têm que ver com a guerra”, observa. “Os jovens russos trabalham maioritariamente na indústria do turismo e foram para Barentsburg em busca de aventura. Alguns deles também procuravam evitar o recrutamento na Rússia. As pessoas da Ucrânia provêm, sobretudo, da zona leste do país. Para eles, Barentsburg é uma fuga à guerra que, naquela zona, começou verdadeiramente em 2014.”

As tensões entre russos e ucranianos, na ilha, subiram de tom no início da guerra, em 2022. “Algumas pessoas que eram críticas da invasão russa, umas 30 ou 40, acabaram por ter de abandonar. Acho que foram silenciadas, que a agência governamental [russa que gere a ilha] tentou travá-las.” Em 2023, aquando da sua visita, a situação continuava tensa. “Uma das protagonistas do projecto, Barbara, que trabalhava no museu, diz que cada conversa era, então, como andar num terreno minado. Acho que isso ilustra bem quão difícil deveria ser.”

Ainda assim, todos se conhecem em Barentsburg. “A comunidade é muito pequena. Não é completamente unida, existem pequenos clãs. Num local tão frio, é muito importante a convivência e o calor humano.” E foi esse calor que experienciou durante a sua estadia. “Fiz muitos amigos. A partir do segundo ou terceiro dia, fui convidado consecutivamente para visitar as suas casas, para ir ao cinema ou o que fosse. É muito fácil formar laços porque as pessoas são muito abertas.”

Na pequena vila, cuja principal actividade económica é o turismo – e que, desde a pandemia e o estalar da guerra na Ucrânia vive um período de défice – vive-se uma espécie de “comunismo”, conta Heller. “Todos os apartamentos são praticamente iguais. Todos estão mobilados da mesma forma e não é possível comprar mais coisas. E funciona bem porque as pessoas não se importam muito com isso, com coisas, em geral. Existe apenas um supermercado, fornecido por uma cadeia russa em intervalos de meses, e toda a gente tem acesso à mesma comida, bebida, etc.” Existem diferenças salariais, sublinha, mas que não se reflectem no consumo “porque não há onde consumir de forma diferente”. E tudo o que consomem é directamente debitado do seu salário, por via electrónica. “Achei interessante ver o conceito na prática.”

Na cidade, existem todo o tipo de equipamentos, conta. “É uma cidade que dispõe de um grande centro cultural, de um teatro e um cinema, de um museu, de um hotel, de um hospital moderno e enorme, de um centro desportivo”, enumera. “É um lugar luxuoso, em comparação com outras cidades de mineração russas do Árctico, onde vivem apenas homens e onde o cenário pode ser bem depressivo.” Em Barentsburg vivem inúmeras famílias com crianças que frequentam a escola, uma característica que o fotógrafo considera “bastante singular”.

Arctic Dreams é, para o fotógrafo, um projecto sobre os sonhos que conduziram todos os habitantes até àquele lugar remoto do Árctico. E sobre o facto de a sua estadia lhe parecer, à distância, um sonho pessoal. “O lugar tocou o meu coração. Senti que existe, para todos os que lá vivem, a vontade de cumprir um sonho.”

Barentsburg, Svalbard, Noruega. Vista sobre a cidade e a mina de carvão. Os primeiros europeus a descobrirem Spitsbergen foram os holandeses, nomeadamente a expedição de William Barentz, que chegou ao arquipélago em 1596. Barentsburg, baptizada em honra ao explorador, esteve em mãos holandesas antes de ser comprada pela União Soviética.
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Vista sobre a cidade e a mina de carvão. Os primeiros europeus a descobrirem Spitsbergen foram os holandeses, nomeadamente a expedição de William Barentz, que chegou ao arquipélago em 1596. Barentsburg, baptizada em honra ao explorador, esteve em mãos holandesas antes de ser comprada pela União Soviética. ©Mario Heller
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Uma matilha de espécies diferentes de huskies recebe os visitantes de Barentsburg ladrando e uivando à entrada da vila. Os cães são treinados para puxar trenós de turistas e são muito populares entre os habitantes, que os levam a passear.
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Uma matilha de espécies diferentes de huskies recebe os visitantes de Barentsburg ladrando e uivando à entrada da vila. Os cães são treinados para puxar trenós de turistas e são muito populares entre os habitantes, que os levam a passear. ©Mario Heller
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Um busto de Lenine em frente a edifícios residenciais pré-fabricados. Os edifícios foram renovados há poucos anos e têm fachada colorida
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Um busto de Lenine em frente a edifícios residenciais pré-fabricados. Os edifícios foram renovados há poucos anos e têm fachada colorida ©Mario Heller
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Tatyana, o marido Alexander e a filha, que são naturais do Leste da Ucrânia, vivem em Barentsburg há cinco anos. Tatyana diz que "as pessoas comuns são quem mais sofre com a guerra, independentemente do lado em que combatem". "Não deveria existir guerra em nenhum lugar do mundo. É cruel destruir cidades e famílias. A culpa é de quem comanda, dos dois lados."
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Tatyana, o marido Alexander e a filha, que são naturais do Leste da Ucrânia, vivem em Barentsburg há cinco anos. Tatyana diz que "as pessoas comuns são quem mais sofre com a guerra, independentemente do lado em que combatem". "Não deveria existir guerra em nenhum lugar do mundo. É cruel destruir cidades e famílias. A culpa é de quem comanda, dos dois lados." ©Mario Heller
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Uma costureira trabalha numa alfaiataria onde são produzidas roupas de algodão que são vendidas na loja de souvenirs de Barentsburg
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Uma costureira trabalha numa alfaiataria onde são produzidas roupas de algodão que são vendidas na loja de souvenirs de Barentsburg ©Mario Heller
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Durante o Natal de 2022, 40 alunos da escola primária da Noruega visitaram a comunidade russa em Barentsburg para brincar, cantar e celebrar as festas em conjunto
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Durante o Natal de 2022, 40 alunos da escola primária da Noruega visitaram a comunidade russa em Barentsburg para brincar, cantar e celebrar as festas em conjunto ©Mario Heller
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Duas adolescentes no palco durante um espectáculo no centro cultural, onde as performances têm lugar especialmente em datas festivas
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Duas adolescentes no palco durante um espectáculo no centro cultural, onde as performances têm lugar especialmente em datas festivas ©Mario Heller
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Residentes russos e noruegueses participam num torneio de xadrez.
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Residentes russos e noruegueses participam num torneio de xadrez. ©Mario Heller
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Inspirada por histórias de exploração polar e dos seus corajosos exploradores, Barbara Mosktadt conta que estava ansiosa por experienciar a vida no Ártico. A directora do museu adora pertencer à pequena comunidade, embora discorde em absoluto com as políticas do seu país [Rússia].
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Inspirada por histórias de exploração polar e dos seus corajosos exploradores, Barbara Mosktadt conta que estava ansiosa por experienciar a vida no Ártico. A directora do museu adora pertencer à pequena comunidade, embora discorde em absoluto com as políticas do seu país [Rússia]. ©Mario Heller
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Um mineiro reflectido num espelho no interior da mina.
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Um mineiro reflectido num espelho no interior da mina. ©Mario Heller
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Alexander Yatsunenko no final do seu turno de oito horas na mina de carvão. Durante a era soviética, os mineiros eram conhecidos por 'Poljarniki', que significa 'Heróis do Árctico'.
Barentsburg, Svalbard, Noruega. Alexander Yatsunenko no final do seu turno de oito horas na mina de carvão. Durante a era soviética, os mineiros eram conhecidos por 'Poljarniki', que significa 'Heróis do Árctico'. ©Mario Heller