Anca Poiana: o Tejo fez desta romena produtora de vinhos em Tomar

Anca Poiana transformou o projecto familiar da Adega Casal Martins numa das marcas mais premiadas da região do Tejo. Quando chegou a Portugal, há 22 anos, não falava português nem percebia de vinhos.

Foto
Anca Poiana faz os vinhos da Adega Casal Martins e tem vindo a dinamizar este projecto familiar em Tomar Miguel Madeira
Ouça este artigo
00:00
07:52

Quando chegou a Tomar, em 2002, Anca Poiana não sabia nada de vinhos, muito menos falar português. Mais de 20 anos volvidos, transformou o projecto familiar da Adega Casal Martins numa das marcas mais premiadas da região. O segredo? Ir fazendo, sem medo do desconhecido.

Passar um mês em Tomar ou um mês em Madrid: eis a dúvida com que Anca Poiana se debateu sobre onde gozar o seu vigésimo segundo aniversário. Talvez a capital espanhola fosse a resposta mais apelativa, mas Anca, que nada de óbvio tem no seu percurso, seguiu a intuição. “Foi uma coisa de momento. Queria conhecer a Península Ibérica e, entre Espanha e Portugal, preferi Portugal”, diz a actual responsável pelos vinhos da Adega Casal Martins.

O que nem ela nem os pais previram quando a presentearam foi que esta rapariga, nascida na cidade de Pașcani, perto da fronteira com a Moldávia, se apaixonasse em Portugal, não regressando à Roménia. Para trás ficou o último ano da licenciatura em História e Geografia e uma pequena desavença caseira: “Fiquei cá contra a vontade dos meus pais.”

Desde este episódio até à consolidação do projecto da Adega Casal Martins, vão outras quantas insubmissões e mais de 20 anos de esforço. Estabelecer-se como uma das principais produtoras de Tomar, com quatro marcas no portefólio, 25 hectares de propriedades em regime de exploração e mais de 100 mil litros produzidos anualmente não foi um caminho fácil, muito menos planeado. “Nunca olho para trás quando me desafiam a fazer algo. Atiro-me a tudo o que é desconhecido.” Há pessoas que, benditas sejam, vivem da espontaneidade.

Foto
Anca Poiana chegou a Portugal em 2022 sem saber falar português e não percebia muito de vinhos; desde então transformou a Adega Casal Martins, em Tomar Miguel Madeira

“Ser romena em Portugal nem sempre foi fácil”

A relação de Anca Poiana com Portugal começou em 2002, numa altura em que a Roménia atravessava uma grave crise económica. Como muitos dos imigrantes romenos que chegaram nessa época, a maior dificuldade de Anca foi com a língua. “Não falava português e no inglês era péssima.” Mas parada é que não podia ficar. Decidida, foi até ao Politécnico de Tomar, pegou numa série de folhetos com os cursos disponíveis e apontou para o de Engenharia Ambiental. A formação em Técnicas de Laboratório e Físico Química que tivera no secundário pesou na decisão. “A minha dificuldade era o português, mas podia-me safar nos números.”

Havia, porém, que fazer o exame de acesso ao ensino superior. “Estive três meses a ter aulas particulares com uma professora. Estudei Biologia como se fosse o Pai Nosso”, ou seja, diz, decorando a matéria de uma ponta à outra. A fórmula resultou e a professora viu tanto potencial na sua pupila que nem sequer lhe quis cobrar as aulas. “Ela não desistiu de mim. Costumo dizer que é a minha mãe portuguesa.”

O português que agora fala, com uma desenvoltura que faria com que Camões coçasse o seu olho de espanto, aprendeu-o com um colega no Politécnico. Ao longo da nossa conversa, Anca desculpa-se pela pronúncia ou pela vergonha de falar em público, que lhe causa um friozinho na barriga sempre que recebe convites para palestrar. Repetimos-lhe, vezes sem conta, que o seu português é tão desempoeirado e claro como os seus vinhos. “Sabem”, explica-nos com paciência, “ser romena em Portugal nem sempre foi fácil.” Anca não esmiúça o desabafo, não gosta de mexer nas borras do passado, mas deixa pistas: “Uma mulher romena em Tomar em 2002… podem imaginar.” Para bom provador, meio gole basta.

“Quando se gosta, as coisas vão surgindo”

Ainda assim, o ressentimento não é palavra que lhe entre no vocabulário. A produtora agarra-se às pessoas boas que lhe apareceram no caminho. “Eu não dou hipótese à desconfiança. Claro que existe maldade, mas para quê dar-lhe atenção?”. Prefere lembrar-se, por exemplo, do colega de Santarém, que todos os dias entrava no mesmo comboio que ela e lhe fazia companhia numa viagem que a deixava exausta. “Acordava às 5h da manhã para ir para Lisboa. Ia e vinha todos os dias. Foi duro. Chorei muitas vezes”, diz sobre o período em que frequentou o Mestrado em Enologia e Viticultura.

Foi nesta altura, com 29 anos, que se começou a interessar pelo mundo dos vinhos, embora a cultura do vinho à mesa não lhe fosse de todo desconhecida. O pai, na Roménia, fazia o seu próprio vinho para consumo caseiro, à semelhança do que tantas famílias — inclusive o marido, Vítor Martins — faziam em Portugal. Seria algo parecido com o vinho da adega Evaristo, “um palhete de primeira ordem”. Em jantares a que ia com o marido, onde Anca era praticamente a única mulher no meio de homens, começou a prestar atenção às garrafas que eram servidas. A curiosidade aguçou-lhe o apetite: “Como se escolhe um vinho? Qual o critério? Porque é que um vinho sabe a morango? Ou a cereja?” foram perguntas que a atiraram para a enologia.

Aos três hectares de Vítor, apaixonado pela agricultura, juntou mais 13 de uma vinha arrendada. A ideia inicial, conta, era a de venderem as uvas a uma adega — “longe de mim vir a fazer vinho” —​​, mas em 2015 deu por si com 1000 garrafas rotuladas e uma adega montada. “Quando se gosta, as coisas vão surgindo”, atira com naturalidade, como se todas as dificuldades que atravessou não passassem de meras vírgulas, pausas de respiração antes de iniciar uma nova frase.

Vinhos que falam por si

Ao engarrafar o primeiro vinho, o Dona Anca Tinto 2015 (blend de Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet), Anca chorou, tal como chorou quando ganhou o ouro na primeira Gala dos Vinhos do Tejo em que participou, em 2016. “Fiquei muito contente, mas na altura nem percebi a importância de ter ganhado uma medalha”, admite com o despacho de quem, tendo poucas mãos a ajudá-la, é obrigada a dispersar a atenção por diferentes tarefas: é Anca que engarrafa, que rotula, que vai ter com os fornecedores e clientes, que faz o trabalho de adega e que conduz as provas comentadas, sempre que alguém curioso lhe toca ao telefone. “Antes da pandemia, a ideia era crescer. Agora é manter.”

Castelo Templário é uma das marcas da Adega Casal Martins, onde Anca Poiana também faz os vinhos Cave do Gira, Dona Anca e Casal Martins Miguel Madeira
Os vinhos Cave do Gira são a gama de entrada da Adega Casal Martins Miguel Madeira
Fotogaleria
Castelo Templário é uma das marcas da Adega Casal Martins, onde Anca Poiana também faz os vinhos Cave do Gira, Dona Anca e Casal Martins Miguel Madeira

Para além do Dona Anca Tinto (colheita e reserva), a Adega Casal Martins tem as marcas Castelo Templário, Cave do Gira (entrada de gama) e Casal Martins (monocasta Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon). Em todos eles, o terroir fala mais alto. Intervenção, só a mínima — ​“não quero mexer no perfil dos vinhos”. O facto de ter vinhas em Ferreira de Zêzere, que lhe dão um Fernão Pires mais fresco, e outras no sopé da serra de Tomar, mais concentradas em termos aromáticas, aliado à riqueza dos solos de xisto, argila e calcário, é tudo o que precisa para fazer a sua alquimia. “Gosto que o vinho fale por si”.

A filha Florentina, que deixou a Roménia para se juntar à mãe em Portugal, já lhe segue os passos, expandindo, inclusivamente, o seu raio de acção. Foi ela que puxou Anca para os espumantes, depois de ter feito um estágio na região de Távora-Varosa, e para os Vinhos Verdes, na sequência de uma formação com o enólogo António Sousa.

Surgiram assim o Espumante Dona Anca Reserva (Cerceal, Bical, Maria Gomes) e o Espumante Dona Anca Baga, ambos da Bairrada, o segundo mais aguerrido que o primeiro, pedindo a companhia de um cabrito com o seu arroz de miúdos. Nos Verdes, foi apresentado recentemente o Dona Anca Grande Escolha, vinho que espelha o carácter amarantino: a primeira impressão é dominada pela firmeza do Azal, que, segundos depois, é amaciada pela volumetria do Alvarinho, sujeito a estágio em barrica. É, em suma, um vinho que premeia todo o palato que, não se fazendo arrogante, sabe descortinar o que está para lá de qualquer carapaça (ou casta) mais dura.

Os próximos passos desta produtora —​ que tem vindo a trabalhar na internacionalização dos vinhos portugueses na Roménia, em sucessivas participações premiadas no Concurso Internacional de Vinho Bucareste — ficam ao critério do “desconhecido”, essa espécie de entidade aleatória que tem podado o percurso de Anca. “Para mim sempre foi, ‘tens isto aqui, então faz’ e eu fui fazendo.” Enquanto a garra lhe correr no sangue, novas colheitas hão-de chegar.

Sugerir correcção
Ler 1 comentários