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As “fábricas de cliques” e o milagre da multiplicação da desinformação online

Jack Latham fotografou o interior do mundo clandestino das “fábricas de cliques”. A indústria dos likes e partilhas nas redes é apenas um "sintoma", e não a causa, da "doença" da desinformação.

A Beggar's Honey, co-editado pela Editions Vevey & Here Press ©Jack Latham
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A Beggar's Honey, co-editado pela Editions Vevey & Here Press ©Jack Latham

Quando o mundo soube, em 2018, que os dados de 87 milhões de utilizadores do Facebook tinham sido utilizados, ilegalmente, pela empresa Cambridge Analytica com o intuito de influenciar o voto dos eleitores norte-americanos em benefício de Donald Trump, o fotógrafo Jack Latham encontrava-se em trabalho na Califórnia, nos EUA. “Foi nessa altura que comecei a interessar-me pela ideia de ser possível manipular as pessoas através dos conteúdos que lhes são mostrados nas redes sociais”, explica ao P3, numa entrevista por videochamada a partir de Londres.

No universo digital dos likes, partilhas e comentários, os utilizadores com maior probabilidade de verem amplificada a sua mensagem são aqueles cujas publicações geram mais reacções. A pergunta filosófica "se uma árvore cai na floresta e ninguém está perto para ouvir, ela fez barulho?" pode ser reformulada e aplicada ao contexto do universo digital. "Se fizeres um post numa rede social e ninguém vir, reagir, comentar ou partilhar?" A resposta é simples: serás ignorado pelo algoritmo, que fará desaparecer, daí em diante, as tuas mensagens dos feeds de outros utilizadores.

Para grandes males, grandes “remédios”. Fruto da “ditadura” do algoritmo, as “fábricas de cliques” nasceram para inflacionar artificialmente a métrica dos conteúdos nas redes sociais, influenciando directamente o seu alcance e impacto. Esta indústria clandestina, que funciona de forma acrítica, beneficia qualquer cidadão ou organização que estiver disposta a pagar pelo serviço.

Jack Latham quis ver, com os próprios olhos, o funcionamento das “fábricas de cliques” que, diz, “nunca tinham sido fotografadas ou filmadas profissionalmente até então”. O fotolivro A Beggar’s Honey, co-editado recentemente pela Editions Vevey e Here Press e comercializado pela Setanta Books, reúne as fotografias que o britânico fez nas várias “fábricas de cliques” que visitou. “Fiz várias viagens entre Janeiro e o Verão de 2023 até ao Vietname e Hong Kong”, conta. “Inicialmente, foi um pouco assustador, porque, obviamente, elas operam numa área cinzenta da lei.”

O britânico esteve no interior de cinco empresas. “Depois das duas primeiras visitas, comecei a sentir-me mais confortável”, observa. “As comunidades são muito pequenas e as start-ups eram, afinal, interessantes e jovens.” No interior dos escritórios, Latham encontrou dezenas, por vezes centenas, de smartphones ligados a baterias e a computadores, alinhados em estruturas por entre um emaranhado de cabos. Cada um daqueles dispositivos, associado a várias contas, muda de endereço de IP cerca de 20 vezes ao dia, permitindo fazer-se passar por inúmeros utilizadores.

Duas das cinco empresas, para além do trabalho online, também eram fabricantes dos dispositivos que permitem realizar as operações. “Essas ficaram contentes por me ver porque eu quis comprar a minha própria ‘fábrica de cliques’”, revela. Latham levanta-se da cadeira, durante a entrevista, e traz para a videochamada um aparelho rectangular, de aspecto irreconhecível. “Esta é a minha ‘fábrica de cliques’”, apresenta. Graças a essa aquisição, o britânico teve direito a uma explicação exaustiva sobre o funcionamento do hardware e software do dispositivo por parte das empresas. Útil? Já lá vamos.

Em contacto com os trabalhadores dessas empresas clandestinas, Jack Latham apercebeu-se de que “não têm necessariamente uma percepção do seu papel no panorama geopolítico”. “A maior parte dos seus clientes, de quem compra likes e seguidores para fortalecer as suas contas nas redes sociais, não são obrigatoriamente políticos, mas sim jovens influencers ou artistas emergentes, pessoas que querem parecer populares.”

Uma das “fábricas” que visitou dedicava-se exclusivamente à alimentação dos seus próprios vídeos no YouTube, obtendo os rendimentos em publicidade. “Não se tratava, nesse caso, de espalhar desinformação”, evidencia o britânico. Outra das “fábricas” trabalhava exclusivamente no Facebook, criando denúncias em massa, comentários em massa, pedidos de amizade em massa, esse tipo de coisas.”

Como surgimento e disponibilidade ao grande público da inteligência artificial generativa, de serviços como o do ChatGPT, as “fábricas de cliques” passaram a apoiar-se nessa tecnologia para produzir as respostas automáticas. “Existe um casamento perfeito da inteligência artificial com este tipo de actividade”, observa Latham. “Antigamente era possível detectar, nas contas falsas que operavam, um inglês mal escrito que as denunciava. Agora, com o ChatGPT, podem gerar um número infinito de comentários que não apresentam quaisquer erros.” Esse aperfeiçoamento permite que o seu trabalho se torne praticamente indetectável.

O verdadeiro perigo para as sociedades, na opinião de Jack Latham, reside na disseminação de desinformação. “No que toca a legislação, é complicado. Existe uma distinção entre misinformation e disinformation.” Em português ambas as palavras são traduzidas por desinformação. “Misinformation é quando se partilha informação falsa sem se saber que é falsa; disinformation inclui intencionalidade, ou seja, quem a partilha quer propagar uma mentira. É difícil de provar se há ou não intenção de dolo e é, em muitos casos, difícil perceber onde essa informação teve origem. Assim, o fenómeno torna-se difícil de controlar e de punir.”

A disseminação de informação falsa é uma “arma” utilizada sobretudo por organizações com o intuito de moldar ou alterar a percepção pública de determinados eventos ou a imagem pública de certos indivíduos. Já várias campanhas de desinformação foram levadas a cabo por governos nesse sentido. É sabido que, em 2023, a Rússia levou a cabo uma destas campanhas para influenciar a percepção pública sobre a guerra na Ucrânia ou que, durante a pandemia, a desinformação foi utilizada para promover tratamentos sem eficácia. Em Portugal, que se aproxima de novas eleições legislativas, a desinformação também tem estado presente, mas sem grande expressão ou viralidade.

“As ‘fábricas de cliques’ não são a causa do problema”, sublinha Latham. “O problema começa quando as pessoas se apoiam nas redes sociais para consumir informação. As ‘fábricas de cliques’ nascem dessa premissa. As pessoas querem consumir informação de forma rápida e em formato de entretenimento.” Quem muitas vezes dissemina a desinformação tem como objectivo aumentar o número de interacções e engagement com os seus seguidores. “Toda a gente quer ser uma estrela nas redes sociais, isso também está na raiz do problema.”

Quando o fotógrafo anunciou pela primeira vez o lançamento de A Beggar’s Honey fez uso da sua própria “fábrica de cliques”. “Gosto de mostrar os resultados durante as minhas apresentações do projecto”, justifica. Por vezes, Latham acciona o dispositivo em directo, para que os espectadores possam assistir ao milagre a multiplicação de likes e partilhas em directo nos seus smartphones. “O primeiro post em que anunciei o livro somou, em três horas, oito mil likes e o mesmo número de partilhas.” Mas isso não se traduz necessariamente em visibilidade, uma vez que foram bots a partilhar a publicação com outros bots. “A única coisa que aconteceu foi dar uma falsa impressão de popularidade daquela publicação.”

O livro inclui imagens que não referem apenas às “fábricas de cliques” que fotografou no terreno – muitas são fotografias de conteúdo digital publicado nas redes TikTok, Facebook e Instagram. “Algumas pessoas pediam-me que interagisse com algumas imagens com a minha ‘fábrica de cliques’ e eu fotografei essas imagens em vez de as manipular online. A ideia do livro é folhear e ver só conteúdo em contínuo.”

Fotografia do livro <i>A Beggar's Honey</i>, co-editado pela Editions Vevey & Here Press
Fotografia do livro A Beggar's Honey, co-editado pela Editions Vevey & Here Press ©Jack Latham
Fotografia do livro <i>A Beggar's Honey</i>, co-editado pela Editions Vevey & Here Press
Fotografia do livro A Beggar's Honey, co-editado pela Editions Vevey & Here Press ©Jack Latham
Fotografia do livro <i>A Beggar's Honey</i>, co-editado pela Editions Vevey & Here Press
Fotografia do livro A Beggar's Honey, co-editado pela Editions Vevey & Here Press ©Jack Latham
Fotografia do livro <i>A Beggar's Honey</i>, co-editado pela Editions Vevey & Here Press
Fotografia do livro A Beggar's Honey, co-editado pela Editions Vevey & Here Press ©Jack Latham
Fotografia do livro <i>A Beggar's Honey</i>, co-editado pela Editions Vevey & Here Press
Fotografia do livro A Beggar's Honey, co-editado pela Editions Vevey & Here Press ©Jack Latham
Fotografia do livro <i>A Beggar's Honey</i>, co-editado pela Editions Vevey & Here Press
Fotografia do livro A Beggar's Honey, co-editado pela Editions Vevey & Here Press ©Jack Latham
Fotografia do livro <i>A Beggar's Honey</i>, co-editado pela Editions Vevey & Here Press
Fotografia do livro A Beggar's Honey, co-editado pela Editions Vevey & Here Press ©Jack Latham
Fotografia do livro <i>A Beggar's Honey</i>, co-editado pela Editions Vevey & Here Press
Fotografia do livro A Beggar's Honey, co-editado pela Editions Vevey & Here Press ©Jack Latham
Fotografia do livro <i>A Beggar's Honey</i>, co-editado pela Editions Vevey & Here Press
Fotografia do livro A Beggar's Honey, co-editado pela Editions Vevey & Here Press ©Jack Latham
Fotografia do livro <i>A Beggar's Honey</i>, co-editado pela Editions Vevey & Here Press
Fotografia do livro A Beggar's Honey, co-editado pela Editions Vevey & Here Press ©Jack Latham