Respondendo a André Silva

Para ele, o ritmo da política é o da tensão conflitual. Por isso não compreende, e aceita mal, uma gestão partidária encabeçada por mulheres que fazem pontes, fazem avançar causas, marcam pontos.

Ouça este artigo
00:00
04:12

André Silva, antigo líder e porta-voz do PAN, proclamou no PÚBLICO a sua decisão de se desfiliar do partido. Acusa-o de ser elástico, e de plástico; de bailar com qualquer um (um tropo obsessivo do André Lourenço, o baile); de ser, hoje, um partido inútil para as causas que defende – acusação sumamente injusta considerando que o PAN, pela mão de Inês de Sousa Real, foi o partido da oposição com o maior número de iniciativas parlamentares aprovadas nesta legislatura (45). André Silva acusa ainda o PAN (não o de outrora, o de hoje) de moderação excessiva, tibieza e duplicidade em relação à dicotomia esquerda/direita; pior, acusa-o de procurar, com olho ofídico, mandatos e “tachões” (não concebo quais); de ceder às conveniências da conjuntura e trair a sua matriz política, a ecologia profunda, a luta contra o especismo, o antropocentrismo, o horror climático.

Conheci o André Silva, sei que é dotado de capacidade oratória e espírito combativo, e abrasivo, e que para ele o ritmo da política é o da tensão conflitual. Por isso não compreende, e aceita mal, uma gestão partidária encabeçada por mulheres que fazem pontes e procuram instâncias de consenso, fazem avançar causas, atingem objectivos, marcam pontos. Entenderia em outras pessoas, porventura ignorantes dos valores e programa do PAN, a imputação de indiferentismo e acomodação à esquerda e à direita; compreendo-a mal em André Silva, que não é dado a mundividências caducas e conhece bem o significado da neutralidade posicional das causas PAN.

Naquilo que realmente impacta nas nossas vidas, a dicotomia esquerda/direita não tem nenhum préstimo. Para muitos de nós, chegou a hora da verdade, inclusive para os negacionistas mais obtusos: a exaustão hídrica, por exemplo, já não é algo de abstracto ou conjetural; no Algarve, anuncia-se um corte de 25% do consumo no sector agrícola e de 15% no sector doméstico, incluindo o turístico, estando em perspectiva um aumento de 50% do preço da água; na Catalunha, na rota aberta pelas comunidades de Andaluzia e Valencia, foi declarado o estado de emergência, o corte do abastecimento durante certas horas do dia, a redução do consumo a 200 litros per capita, com tendência para reduzir ainda mais no futuro, e um tecto de 3 minutos nos chuveiros públicos. Poderia dar outros exemplos, a qualidade do ar, a contaminação e histerese dos solos, o cenário seria o mesmo, uma catástrofe principiada.

Conceitos fundantes e expressivos (ia a dizer… plásticos) cunhados por António Guterres – “carnificina climática”, “vampirismo hídrico”, “era da ebulição” – nada têm com esquerdas e direitas, girondinos e montanheses, whigs e tories. Nem mesmo a “epidemia global de impunidade”, de que recentemente também falou, sempre com propriedade, o secretário-geral da ONU, que é hoje mais PAN que socialista, embora não o saiba (ou talvez saiba).

Espanta-me, por isso, que André Silva veja na afirmação do PAN como partido de centro progressista, capaz de fazer pontes em várias direcções – excepto aquelas que conduzem à negação do princípio republicano e democrático, sob o signo da Constituição – uma sombra de inutilidade e irresponsabilidade.

O posicionamento do PAN na Madeira, que obteve geral aplauso, foi tudo menos irresponsável: quando se tratou de apontar linhas vermelhas ao tal regime tentacular de que fala André Silva, o PAN fê-lo com bom senso e maturidade política, sendo de resto o primeiro a reagir e a apontar o caminho a um Luís Montenegro vacilante e dubitatitvo. O PAN não desonrou a sua palavra, não furou o acordo, fez o que tinha a fazer sem o estrépito que André Silva talvez considerasse útil e responsável. A propósito do teleférico do Curral das Freiras, seria importante que André Silva explicasse em que condições é que não se assina um contrato depois de adjudicada a empreitada sem grave responsabilidade do adjudicante, quer dizer, dos contribuintes da Madeira. Para quem deduziu capítulos tão rigorosos contra o PAN, fica esta perplexidade…

Tenho pena que André Silva se revele um ser abandonante e que se desfilie do PAN. Lamento igualmente que não esteja disposto a sacrificar um pouco o ego e a ajudar todos os antigos companheiros que se preparam para uma campanha eleitoral em condições adversas. E lamento ainda mais este divórcio precedido de proclamas, a escolha selectiva do momento para causar o maior dano possível ao seu antigo partido. A impiedade, longamente sublimada, destrói o coração.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Sugerir correcção
Ler 7 comentários