Mulher de Salgado assegura que ex-banqueiro se perde dentro da própria casa

Ouvida como testemunha no julgamento em que são arguidos o ex-banqueiro e Manuel Pinho, Maria João Salgado assevera que ex-líder do BES “não tem independência nenhuma”.

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O julgamento de Manuel Pinho, da mulher, Alexandra Pinho, e do antigo banqueiro Ricardo Salgado está a decorrer no Campus de Justiça, em Lisboa LUSA/PAULO CUNHA (aquivo)
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Maria João Salgado disse, nesta segunda-feira, em tribunal que Ricardo Salgado “não tem independência nenhuma” e que precisa da sua ajuda para fazer praticamente tudo. “Tinha um marido fantástico, mas hoje tenho um bebé grande para tratar”, afirmou.

A mulher de Ricardo Salgado foi ouvida como testemunha no julgamento em que são arguidos o ex-banqueiro, Manuel Pinho e a mulher deste, Alexandra Pinho. Sentada no banco das testemunhas, com a voz embargada, a mulher de Ricardo Salgado descreveu quem é hoje o ex-patrão do BES. “Sou casada há quase 60 anos. Sou eu que vivo com ele e sou eu que sei como era e como é”, começou por dizer.

Segundo Maria João Salgado, o ex-banqueiro perde-se na própria casa, não consegue escolher a própria roupa, sendo capaz de sair para rua de pijama mesmo estando frio. “Sou a cuidadora dele. Sou eu e serei sempre, mas às vezes preciso de descansar e já tenho recorrido a uma cuidadora”, explicou a mulher do ex-banqueiro, que também contou como era a sua relação com Manuel Pinho e a mulher, Alexandra.

“Era e sou amiga da Alexandra. Fomos jantar uma ou duas vezes a casa de Manuel Pinho quando estava com a primeira mulher e depois já depois com a Alexandra. Aliás, fomos ao casamento deles”, relatou, sublinhando que Ricardo Salgado não falava muito do seu trabalho em casa, mas que sabia obviamente que Pinho era uma das pessoas que trabalhavam para o marido. “Se gostava dele? Gostava. Era engraçado. Era uma pessoa especial”, sublinhou.

O antigo presidente do BES foi objecto de duas perícias do Instituto Nacional de Medicina Legal (IML), pedidas no âmbito de processos judiciais, que confirmam que sofre da doença de Alzheimer. A doença não impossibilita a comparência em tribunal nem a toma de declarações, mas estas podem não ser fidedignas, porque o ex-banqueiro já apresenta diminuição das funções cognitivas, segundo os relatórios.

Porém, no caso deste processo em concreto, a perícia sublinha que, “na análise de eventual esforço insuficiente ou tentativa de simulação durante o processo de avaliação, o examinando efectua relatos de sintomas neurológicos ilógicos ou muito atípicos e sintomas relacionados com distúrbios de memória que são inconsistentes com padrões de comprometimento produzidos por disfunção ou dano cerebral real, sugestivos da tentativa de exacerbar dificuldades”. Ou seja, que Ricardo Salgado, aparentemente, tentou exagerar os sintomas durante o exame.

Este segundo relatório, com data de 22 de Dezembro, e assinado pelos peritos Isabel Santana e Joaquim Cerejeira, concluiu, de facto, que “a doença de Alzheimer é a causa mais provável do quadro clínico” do arguido e que este revela “alterações significativas ao nível da orientação, atenção e memória e identificação psicomotora”.

No entanto, lê-se no mesmo documento: "Apesar dos défices cognitivos referidos, o arguido mantém uma boa capacidade de interacção pessoal, compreensão e expressão verbal, raciocínio e um estado emocional que, no nosso entender, não impedem que seja submetido a um interrogatório judicial na qualidade.” Os mesmos peritos acrescentam assim que, "atendendo a que o arguido apresenta défices de memória, não é possível garantir o rigor dos conteúdos evocados.”

Esta conclusão vem depois de uma avaliação neuropsicológica, a título de exame complementar, que foi pedida por Isabel Santana a outra perita, Renata Benavente, cujo currículo aponta para a especialização em áreas relacionadas com crianças e jovens e não idosos. A perita conclui que houve uma “tentativa de exacerbar as dificuldades” de Salgado.

Neste processo, Manuel Pinho responde por dois crimes de corrupção passiva, um de branqueamento e um de fraude fiscal, enquanto a Ricardo Salgado o Ministério Público imputa dois crimes de corrupção activa e um de branqueamento. Já Alexandra Pinho responde por um crime de branqueamento e por outro de fraude fiscal, ambos em co-autoria com o marido.

De acordo com a acusação, Manuel Pinho, enquanto ministro da Economia (cargo que ocupou de 2005 a 2009) e, depois, como responsável pela candidatura de Portugal à organização da competição de golfe Ryder Cup, actuou, em detrimento do interesse público, na prossecução de interesses particulares do Grupo Espírito Santo (GES)/Banco Espírito Santo (BES) e de Ricardo Salgado.

Alexandra Pinho senta-se no banco dos arguidos porque, segundo o MP, constituiu com o marido a Tartaruga Foundation e outras sociedades para alegadamente ocultarem os pagamentos feitos por Ricardo Salgado a Manuel Pinho. Já o ex-presidente do Banco Espírito Santo Ricardo Salgado está acusado de ter subornado o então ministro da Economia, Manuel Pinho, com valores superiores a cinco milhões de euros.

O padre da família Salgado também testemunhou, nesta segunda-feira, em tribunal. De acordo com o padre Avelino Alves, Ricardo Salgado confidenciou-lhe que “tinha uma solução para os lesados do BES”, mas que “não lhe deram oportunidade”. Avelino Alves descreveu o ex-banqueiro como um homem humilde e de fé, que sabia ouvir mais do que falar. “Nunca lhe vi arrogância. Era uma pessoa com serenidade de espírito e que transmitia paz.”

Porém, o padre diz que Ricardo Salgado, que “era um homem forte e firme, agora está muito debilitado”. “Elas não matam, mas moem. A pancadaria foi tanta que acabou por o levar. Ele sentia esse peso de não resolver o problema dos lesados”, disse.

Já durante a tarde foi ouvido Vítor Escária, antigo chefe de gabinete de António Costa e que actualmente é arguido no processo Influencer. Vítor Escária, uma vez que foi assessor económico de José Sócrates entre 2005 e 2011, período em que Manuel Pinho também esteve no mesmo Governo como ministro da Economia, veio falar sobre os Projectos de Interesse Nacional (PIN) e sobre como eram escolhidos os empresários que integravam as comitivas nas viagens do primeiro-ministro. O economista explicou que nunca Pinho teve intervenção na escolha de Ricardo Salgado e que o ex-banqueiro participou numa viagem a Angola, integrado numa comitiva de 60 empresários, tal como outros presidentes de bancos, nomeadamente da caixa Geral de Depósitos (CGD), BPI e BCP.

Sobre os PIN, Vítor Escária explicou que se tratou de um diploma que surgiu numa altura em que era necessário atrair investimento para Portugal e negou que alguma vez tivessem servido para discriminar projectos. “Não eram uma porta aberta à ilegalidade”, disse, sublinhando que os PIN nasceram da necessidade de criar uma estrutura que acompanhasse os investidores em Portugal.

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