Diário de uma vítima de bullying: Um, dois, três, lá vêm eles outra vez

Vejamos um “diário” do que são, tantas e tantas vezes, o quotidiano de uma vítima, neste caso numa qualquer escola portuguesa ou de qualquer outro país.

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"Batem-me, humilham-me ao pé da minha turma e até de alunos mais novos que depois também gozam comigo" Mikhail Nilov/pexels
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Era uma vez… Desculpem, não está correto, eram muitas vezes, às vezes todos os dias ou mesmo em vários momentos ao longo do dia, semana após semana e há muitos meses que o João é gozado, ameaçado, humilhado, posto de parte e agredido por alguns colegas da sua e de outras turmas.

O bullying existe em todos os contextos onde crianças e jovens em idade escolar interagem, principalmente em estabelecimentos escolares (e estes comportamentos ocorrem em todos, de norte a sul, do interior ao litoral, sejam escolas públicas ou colégios privados e em todos os países, podem é ser mais ou menos visíveis, alvo de maior ou menor atenção e/ou intervenção por parte dos adultos, mas que existem, existem, não tenhamos quaisquer dúvidas).

Ocorrem noutros cenários como são os clubes desportivos (sejam estes de futebol, basquetebol, natação, hóquei em patins, só para dar alguns exemplos), não esquecendo que ocorrem também em grupos de teatro, escolas de dança, agrupamentos de escuteiros, ateliês de tempos livres e tantas outras entidades que trabalhem na área da infância e juventude.

Estes comportamentos agressivos entre pares, repetidos, intencionais e realizados numa relação de desequilíbrio de poder afetam uma em cada três crianças e jovens em idade escolar, são especialmente comuns entre os 13 e 15 anos, tendo o seu pico no 8.º ano. São os rapazes que mais se envolvem, tanto como vítimas como agressores e, erradamente, continuam a ser vistos, demasiadas vezes, como meras “brincadeiras entre miúdos”, algo que acaba por normalizar, banalizar este tipo de ações graves e inadmissíveis, fazendo com que cerca de 60% das vítimas não denunciem as agressões verbais, físicas, psicológicas, sexuais ou através dos dispositivos digitais (designado por cyberbullying) que sofrem e quando o fazem demoram, em média, cerca de 13 meses a denunciar.

Ao longo dos muitos anos que trabalho no terreno com crianças e jovens, vítimas e agressores (não esquecendo os observadores que têm um papel muito relevante na prevenção, combate e intervenção neste tipo de comportamentos agressivos interpares) muitas foram as situações em que foi necessário intervir… Vejamos um “diário” do que são, tantas e tantas vezes, o quotidiano de uma vítima, neste caso numa qualquer escola portuguesa ou de qualquer outro país.

8h – Chego à escola, eles estão à minha espera…

10h05 – Agora é o intervalo “grande”, longo demais… Tiram-me o lanche e “brincamos” às “touradas”, o “touro” é sempre o mesmo… Eu!

12h15Ufaaa, hoje consegui esconder-me na casa de banho e ir diretamente para a última aula da manhã.

13h15 – Toca para a saída, é hora de almoçar… No outro dia estavam à minha espera para “almoçarmos” juntos, passei o cartão, trouxe a refeição mas não me deixaram comer, no fim ainda me obrigaram a ir pedir mais comida para eles… Hoje tinha refeição marcada, aliás tenho sempre de marcar porque a minha mãe vai confirmar, mas nem me atrevi a aparecer no refeitório. Passei a hora do almoço a esconder-me deles, andaram à minha procura, parecia uma “caçada”… Enfim, o costume.

15h25 – Todos os dias é assim: Batem-me, humilham-me ao pé da minha turma e até de alunos mais novos que depois também gozam comigo. Quando aparece algum funcionário ou um professor disfarçam logo. Acho que a maior parte dos adultos devem pensar que eles são os meus melhores amigos. Às vezes, acho que até a minha mãe pensa assim…

16h20 – Consegui escapar-me para a biblioteca mas eles já descobriram, dantes era um sítio seguro, agora não. Eles não apareciam lá mas houve um miúdo da minha turma que me viu a ir para a biblioteca e contou-lhes. Agora estão sempre a ver se estou lá escondido.

17h15 – Acabaram-se as aulas mas não a tortura, este grupinho vai comigo e com outros miúdos até perto da minha casa, levo “calduços”, pontapés e, enquanto alguns me agarram, um tira-me um dos meus ténis. Só o devolvem depois de eu beijar os pés do que é o “chefe” do grupo. Há uns tempos, um deles até trouxe uma coleira e obrigou-me, num jardim perto da minha casa, a imitar um cão, tive de ladrar e fingir que estava a fazer xixi.

17h45 – Começo a lanchar mas sinto-me triste, devia ter a coragem de dizer o que se passa mas tenho medo que as coisas piorem. Eles dizem que se eu contar, para além de mim, vão massacrar o meu irmão mais pequeno… Ele ainda só anda no 1.º ano.

18h45 – Tenho TPC de Matemática e de Ciências mas a minha cabeça não pára… Não me consigo concentrar. Desenhei um super-herói, que se existisse não deixava o bullying acontecer. O nome dele seria “Super Amigo Elástico” e teria vários superpoderes: Conseguir lançar uma bomba de fumo que o agressor respirava e deixava de gozar e bater nos outros… E era de elástico, assim quando alguém quisesse bater nos miúdos, ele enrolava-se às vítimas e protegia-as do bullying.

20h30 – Nem me apetece jantar, não paro de pensar em amanhã, o massacre vai continuar… Às vezes apetecia-me desaparecer ou ter o manto da invisibilidade do Harry Potter. Se o tivesse andava pela escola a proteger os miúdos que eram vítimas, colocava-os debaixo do manto e fugíamos.

23h – Estou há mais de uma hora a tentar dormir, mas não consigo… Tenho medo de adormecer e voltar a ter pesadelos como tem acontecido nas outras noites.

2h – Tive um novo pesadelo. Até a dormir eles me batem… Sonhei que estava a ser “toureado” por eles e até alguns funcionários e professores se riam de mim… Acordei mesmo mal, vomitei… Ainda bem que os meus pais não ouviram.

3h20 – Ainda não consegui voltar a adormecer…

5h30 – Adormeci mas voltei a sonhar que estava a correr, a fugir deles. Eu queria correr mas não conseguia e eles quase que me apanhavam… Acordei quando um deles estava mesmo a apanhar-me.

7h – Toca o despertador, estou cansado, não me apetece levantar… E agora quando chegar à escola já sei: Vão estar à minha espera e vai voltar tudo a acontecer… Será que ninguém vê? Será que acham que são brincadeiras?

7h25 – Estou a tomar o pequeno-almoço e não me apetece falar com ninguém… Apetecia-me desaparecer. A minha mãe está, como sempre, à pressa, quase não olha para mim… O meu mano está agarrado ao tablet a ver vídeos e o meu pai saiu ainda antes de eu acordar, só regressa na 5ª feira.

8h – Chego à escola. Eles estão à minha espera…

Pais, mães, tios, avós mas também professores, técnicos, assistentes operacionais das escolas, colégios e de tantas outras instituições, treinadores, chefes dos escuteiros… Adultos em geral, estejam atentos!

Na escola, em casa, nos clubes desportivos, associações culturais e recreativas, na rua... O bullying pode existir em todo o lado e muitas vezes acontece mesmo “debaixo dos nossos olhos”. Os comportamentos de bullying são frequentes e graves e não são brincadeiras entre miúdos. Quando se está a brincar todos se divertem, quando existem estes comportamentos agressivos apenas alguns se sentem confortáveis e se sentem bem.

O bullying pode “marcar” a vida de quem o sofre para sempre, caso não exista um acompanhamento e intervenção especializados e esse apoio ser realizado o mais precocemente possível.

Os efeitos do bullying na vida adulta são imensos, vítimas que o continuam a ser no que respeita à violência no namoro e mais tarde, doméstica, agressores que continuam a ser agressivos, a não respeitar aqueles com quem trabalham ou interagem, que apresentam maiores taxas de consumo e dependência (sejam estes de tabaco, álcool, drogas, jogo), maiores taxas de divórcio, de maus tratos na infância, de desemprego, de terem problemas com a lei ou até mesmo de ideação, tentativa ou mesmo de suicídio.

Prevenir, combater e intervir no bullying é uma missão diária… E de tod@s! Acompanhem o nosso trabalho aqui.


O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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