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Daniel Rodrigues cruzou África em bicicleta eléctrica e as suas fotos revelam como foi

Ao longo de quatro meses, o fotojornalista Daniel Rodrigues pedalou mais de seis mil quilómetros. “Posso atestar que é real: as alterações climáticas já se fazem sentir em África."

Rapaz a posar para a fotografia, enquanto tomava banho no Lago Malawi, no Malawi. As pessoas usam a lama do lago para lavar a pele. ©Daniel Rodrigues
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Rapaz a posar para a fotografia, enquanto tomava banho no Lago Malawi, no Malawi. As pessoas usam a lama do lago para lavar a pele. ©Daniel Rodrigues

Daniel Rodrigues já foi e já regressou. A bordo de uma bicicleta eléctrica, o fotógrafo pedalou 6373 quilómetros desde a Cidade do Cabo, na África do Sul, até Nairobi, no Quénia. Quatro meses na estrada, entre Junho e Outubro de 2023, serviram o objectivo de promover a sustentabilidade e alertar para o impacto das alterações climáticas no continente africano. Ao PÚBLICO, antes de embarcar na grande aventura, o fotojornalista afirmou que, “se é possível atravessar África em bicicleta eléctrica”, então qualquer pessoa na Europa “pode ir para o trabalho com energia eléctrica”. E foi para dar o exemplo, e para testemunhar com os próprios sentidos os efeitos das alterações climáticas, que pedalou através da África do Sul, Namíbia, Botswana, Zimbabué, Zâmbia, Malawi, Tanzânia e Quénia.

“Posso atestar que é real: as alterações climáticas já se fazem sentir em África”, conta ao P3 o fotojornalista vencedor do World Press Photo em 2013 na categoria Vida Quotidiana (com uma fotografia tirada na Guiné Bissau) e colaborador do jornal norte-americano The New York Times. Mas de que forma?

“Na África do Sul, por exemplo, enfrentei ventos muito fortes, ventos que as pessoas de lá diziam não serem normais. Nove dos dez dias que passei a atravessar o país foram de chuva e vento intensos, algo que para a época do ano era atípico.” Na Tanzânia ou no Quénia a experiência foi semelhante: “Verifica-se, cada vez menos, a existência de separação entre as estações do ano e uma intensificação dos fenómenos. Ou seja, quando chove, chove mesmo muito e quando está tempo seco, esse assim permanece por períodos demasiado longos”. No Botswana, recorda que apanhou tempo seco. “Seco, seco, seco”, frisou. “As pessoas queixavam-se que não chovia há meses. Por isso, quase não havia água.”

Ao longo do percurso, foram inúmeros os desafios vividos pelo fotógrafo. “Viajar de bicicleta significa estar mais vulnerável do que se estaria, por exemplo, num carro.” Carregar as baterias da bicicleta e do equipamento fotográfico foi, talvez, dos desafios mais simples. “Consegui fazer seis mil quilómetros sem nunca ficar sem bateria, mas devo isso à bondade das pessoas com quem me cruzei. Num raio de cem quilómetros havia sempre alguém que me deixava carregar baterias – podia ser um agricultor com um painel solar ou gerador ou um funcionário de uma loja no meio do nada, mas encontrei sempre solução.” As baterias do equipamento fotográfico carregavam-se com a bicicleta em andamento, com o recurso aos painéis solares que levou consigo. Só assim pôde captar as fotografias que partilha agora com o P3.

Furos e parafusos que se partiam com a trepidação resultante do contacto estradas em mau estado “foram obstáculos normais e expectáveis”, conta. Superou-os com facilidade, com ou sem ajuda das muitas pessoas que o viam a consertar o veículo. "Quando eu parava, muitas vezes apenas porque queria descansar ou comer, as pessoas abordavam-me e perguntavam-me se precisava de alguma coisa. Foi impressionante. As pessoas que menos tinham eram aquelas que mais partilhavam." Embora nunca se tenha sentido inseguro ao longo de quatro meses, foi vítima de um assalto por esticão no Quénia. “Pode acontecer em qualquer parte do mundo, inclusive em Portugal”, desvaloriza. Ao pernoitar em tenda ou em hospedarias, como fez consistentemente, a bicicleta esteve sempre segura e nunca foi alvo de furto. A sua Beeq, fabricada em Portugal, estava, em todo o caso, equipada com um alarme e um localizador  a viagem iria sempre continuar.

Daniel recorda alguns dos episódios mais marcantes da viagem, alguns dos quais partilhou em crónicas que escreveu para a SIC Notícias, um dos seus parceiros institucionais. “Um dos momentos mais bonitos aconteceu na Namíbia, quando um homem chamado Leslie me salvou, literalmente, a vida.” O português atravessava uma zona desértica da Namíbia quando estalou uma tempestade. Chuvas torrenciais e ventos fortes deixaram-no num impasse: ou percorria os 80 quilómetros que faltavam até ao próximo posto de carregamento ou voltava para trás. “Decidi arriscar. O tempo começou a piorar, a piorar, fiquei encharcado, cheio de frio. Pelo caminho, encontrei um homem, a quem pedi ajuda. Ele abriu a porta de sua casa, deu-me roupa seca, comida.” Daniel pensou em seguir no dia seguinte, mas Leslie avisou-o que a tempestade iria piorar e que se partisse morreria. “A tempestade durou três dias. Teria, seguramente, morrido de hipotermia se tivesse seguido. Impressionou-me que uma pessoa que eu não conhecia de lado nenhum fosse tão generosa.”

O episódio que viveu no Botswana ficará também para sempre gravado na sua memória, afirma. “O Botswana foi terrível para mim, foi o país que mais me custou percorrer. Cheguei mesmo a quebrar. Parei, chorei, questionei tudo, pensei que não aguentava mais. As pessoas eram as mais hostis que tinha encontrado em toda a viagem e a paisagem era sempre igual, igual, igual. Fiz mais de 300 quilómetros sem ver uma só pessoa. Estava física e psicologicamente no meu limite.” Já perto do final do percurso que o levava à fronteira, algo de surpreendente aconteceu. “Começaram a aparecer animais. Eu estava a pedalar e comecei a ver elefantes, girafas, e as zebras começaram a correr ao meu lado. Nunca pensei viver isso. Foi um dos momentos mais bonitos e que me deu força para continuar.”

Sentiu também, durante o longo trajecto, que o acto de fotografar pessoas se tornou mais difícil. “Há três anos que não ia ao continente africano e houve uma mudança. As pessoas não se deixam fotografar com facilidade e isso dificultou o meu trabalho. Existe a consciência de que muitos estrangeiros visitam países africanos com o intuito de fotografar as pessoas e fazer dinheiro com as imagens que recolhem.”

Nem tudo correu como tinha pensado inicialmente. Eram onze os países que tencionava visitar durante seis a sete meses. “A ideia inicial era chegar até ao Cairo, mas, infelizmente, tive de abandonar no Quénia porque a Etiópia está cada vez mais perigosa”, lamenta. “Tem havido muitos ataques de grupos rebeldes nas estradas do país. Além disso, pediam-me 7500 euros para entrar no país.” Apesar disso, considera que a viagem foi um sucesso. “Foi uma viagem muito exaustiva, fisicamente, mas, principalmente, a nível psicológico. Eu passei muitos dias sozinho e quando isso acontece os pensamentos não param. Foi uma grande prova pessoal ter conseguido viver com isso, comigo mesmo, ao longo de tanto tempo.”

Quanto às alterações climáticas, Daniel Rodrigues deixa um aviso. “Falar das alterações climáticas não é o suficiente, é preciso fazer mais do que isso. Elas são reais, estão a acontecer e é preciso fazer algo.” Em África, o fotógrafo detectou a existência de inúmeras campanhas, em vilas e cidades, em prol da protecção do meio ambiente. “Vê-se que, por lá, existe essa preocupação e que as pessoas estão consciencializadas. E percebe-se porquê, porque as consequências estão à vista. Embora África seja dos continentes que menos contribui para as alterações climáticas, é, infelizmente, o que mais está a sofrer com os seus efeitos.”

Retrato de uma mulher da tribo Masai, numa aldeia na Tanzânia
Retrato de uma mulher da tribo Masai, numa aldeia na Tanzânia ©Daniel Rodrigues
Paredes coloridas das casas da aldeia de Mazabuka, na Zâmbia, depois de uma dia a pedalar durante sete horas
Paredes coloridas das casas da aldeia de Mazabuka, na Zâmbia, depois de uma dia a pedalar durante sete horas ©Daniel Rodrigues
Crianças brincam ao final da tarde na água do Lago Malawi, no Malawi
Crianças brincam ao final da tarde na água do Lago Malawi, no Malawi ©Daniel Rodrigues
Refugiados abrigados da chuva no campo de Mahama, Ruanda. O campo de refugiados conta com mais de 60 mil refugiados, a maioria crianças.
Refugiados abrigados da chuva no campo de Mahama, Ruanda. O campo de refugiados conta com mais de 60 mil refugiados, a maioria crianças. ©Daniel Rodrigues
Árvores mortas no Deadvlei, em Sossusvlei, na Namíbia, e as suas famosas dunas, que são consideradas as maiores dunas de areia do mundo
Árvores mortas no Deadvlei, em Sossusvlei, na Namíbia, e as suas famosas dunas, que são consideradas as maiores dunas de areia do mundo ©Daniel Rodrigues
Criança brinca numa aldeia nas redondezas de Lilongwe, no Malawi
Criança brinca numa aldeia nas redondezas de Lilongwe, no Malawi ©Daniel Rodrigues
Elefante junto ao rio Chobe, no Chobe National Park, no Botswana, onde é possível realizar um Eco Safari em Land Rovers e barcos eléctricos
Elefante junto ao rio Chobe, no Chobe National Park, no Botswana, onde é possível realizar um Eco Safari em Land Rovers e barcos eléctricos ©Daniel Rodrigues
Crianças da aldeia Aussenkehr, na Namíbia, tomam banho. Esta é a última aldeia antes da entrada do deserto, motivo pelo qual é difícil encontrar pontos de carregamento eléctrico.
Crianças da aldeia Aussenkehr, na Namíbia, tomam banho. Esta é a última aldeia antes da entrada do deserto, motivo pelo qual é difícil encontrar pontos de carregamento eléctrico. ©Daniel Rodrigues
Crianças com os seus brinquedos, no campo de refugiados Mahama, no Ruanda. A EDP financia, no local, um projecto de acesso a energia limpar para os habitantes do campo poderem ter luz nas suas casas.
Crianças com os seus brinquedos, no campo de refugiados Mahama, no Ruanda. A EDP financia, no local, um projecto de acesso a energia limpar para os habitantes do campo poderem ter luz nas suas casas. ©Daniel Rodrigues
Arco-íris nas Cataratas de Vitória, no Zimbabué. Situam-se no rio Zambeze, na fronteira entre a Zâmbia e o Zimbabwe, e têm cerca de 1,5 quilómetros de comprimento e altura máxima de 128 metros.
Arco-íris nas Cataratas de Vitória, no Zimbabué. Situam-se no rio Zambeze, na fronteira entre a Zâmbia e o Zimbabwe, e têm cerca de 1,5 quilómetros de comprimento e altura máxima de 128 metros. ©Daniel Rodrigues
Mão de uma criança, junto ao campo de desporto no campo de refugiados Mahama, no Ruanda
Mão de uma criança, junto ao campo de desporto no campo de refugiados Mahama, no Ruanda ©Daniel Rodrigues
Camelos atravessam uma estrada, no norte da Tanzânia
Camelos atravessam uma estrada, no norte da Tanzânia ©Daniel Rodrigues