“O bairro está em luta” e gritou para Lisboa (e o Governo) ouvir

Mais salários, menos rendas, fim da repressão policial, melhores transportes públicos e redução dos preços dos bens essenciais foram as reivindicações da manifestação convocada pelo Vida Justa.

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O movimento Vida Justa convocou uma nova manifestação pela melhoria das condições de vida Matilde Fieschi
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Matilde Fieschi
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O movimento Vida Justa convocou uma nova manifestação pela melhoria das condições de vida Matilde Fieschi
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"Fartas de escolher entre pagar a renda ou comer", milhares de pessoas juntaram-se, este sábado, nas ruas de Lisboa, para protestar contra o "aumento insuportável do custo de vida". Foi a segunda manifestação convocada pelo Vida Justa, o movimento que nasceu nos bairros da periferia de Lisboa e que, num ano marcado pela crise habitacional, tem sido uma das faces mais visíveis dos protestos pela melhoria das condições de vida. Ao Governo, os organizadores do protesto asseguraram: o bairro está "cansado", mas "está em luta".

Num dia que uniu várias causas, desde a luta anti-racista ao activismo climático, passando pela solidariedade com a Palestina, a exigência de melhores condições de vida foi o mote comum de um protesto que começou por juntar algumas centenas de pessoas na praça do Rossio, onde teve início, mas que, de acordo com a organização, acabou por chegar aos milhares durante a marcha. A subida dos salários, a redução das rendas, o fim da repressão policial nos bairros de comunidades maioritariamente racializadas, a melhoria da rede de transportes públicos a ligar cidade e periferia e a redução dos preços dos bens essenciais foram as principais reivindicações.

O percurso escolhido, mais longo e passando por zonas mais amplas do que o da primeira manifestação da Vida Justa (que, em Fevereiro, seguiu por uma zona de escritórios, com pouca gente durante o fim-de-semana), pode ter tornado mais evidente o facto de esta manifestação não ter tido uma participação tão significativa como a "Casa Para Viver, Planeta Para Habitar" que, no mês passado, se estima que terá levado dezenas de milhares de pessoas às ruas. Mas serviu um propósito não menos importante: foi visível, ao passar por algumas das zonas mais turísticas da capital.

O que não foi irrelevante para um grupo que recusa ficar "acantonado em guetos invisíveis" e reclama o direito a viver a cidade. Isso mesmo defende Eduina Borges, que seguia pela manifestação a empurrar o carrinho de uma das três filhas. "Comecei a lutar juntamente com elas para que tenham a possibilidade de aprender a lutar pelos seus direitos", diz a operadora de call-center de 38 anos. Sobretudo, por serem portuguesas, afro-descendentes, moradoras num lugar, na Amadora, que considera tantas vezes esquecido. "Nas zonas de onde vimos, nas periferias de Lisboa, há sempre uma falta de representatividade. As nossas palavras não são ouvidas. Nós somos aqueles que vimos trabalhar em Lisboa para as grandes empresas e, no final do dia, somos deitados ao lixo", repara.

Eduina nasceu em Portugal. Os pais são cabo-verdianos e diz ter crescido a sentir um constante desrespeito pela comunidade africana. Carla Sanches, gestora de redes sociais de 26 anos, também o sente na pele, por exemplo, para arrendar uma casa, uma missão que se tem tornado cada vez mais difícil para os jovens da sua idade. Para além das rendas altas, a comunidade africana e afro-descendente de que Carla faz parte depara-se com ainda mais "barreiras" no acesso a uma casa: "Por sermos negros, por acharem que não vamos conseguir pagar a renda. Mesmo sendo portuguesa, mesmo conseguindo falar português correctamente - porque é a minha língua desde que nasci – a discriminação está lá na mesma.” Carla vive com o pai no Seixal. Sair de casa "passa pela cabeça", mas “é praticamente impossível”. Por isso, faz questão de sair à rua e de tirar da invisibilidade quem nasceu dentro dos bairros.

Do Seixal para o Vale da Amoreira, a faixa que Paulo Ramos ajuda a segurar alerta para as casas que o Estado, pela mão do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), tem fechadas, quando existem ali famílias que vivem "em casas sobrelotadas, sem condições de habitabilidade". Filho de cabo-verdianos, nascido em Angola e chegado a Portugal em 1977, já morou em Lisboa, em Alcântara e no Largo do Rato, e, por isso, entende o que é viver num território demasiado longe do "poder central". "As zonas periféricas e os nossos bairros sociais só são lembrados de quatro em quatro anos. Os nossos autocarros acabam às 20h. Depois disso, já não temos um autocarro que nos leve a um hospital, a um centro de saúde, a um centro comercial, a uma zona de lazer", diz o homem de 49 anos.

Desta vez, os bairros não estiveram longe do poder central. Foi na Assembleia da República que desembocou a marcha e foi lá que vários activistas subiram ao palanque montado horas antes. Flávio Almada, porta-voz do Vida Justa, foi o primeiro a tomar a palavra, incitando a multidão a gritar o lema que marcou o tom da manifestação: "Estamos juntos, estamos fortes, nu sta djunto, nu sta forti." Sobre os próximos tempos, o tom também foi claro. "Vindos da periferia, a nossa luta não começou agora. Mas é bom ver cá a malta dos bairros, que se recusa a cruzar os braços. A manifestação não é um evento, não é uma paródia. É uma exigência por uma vida justa, por emprego e por um salário dignos", resumiu Flávio Almada.

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