“Afastado” do centro do Porto, arraial LGBTI+ admite “ocupar espaço público”

Organização da Marcha do Orgulho do Porto rejeita realização do arraial LGBTI+ no Parque do Covelo, longe do centro da cidade. Petição com milhares de assinaturas foi hoje entregue à Câmara do Porto.

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Junho é o mês do orgulho LGBTI+, em memória das revoltas de Stonewall, em 1969 EPA/NACHO GALLEGO
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A duas semanas da Marcha do Orgulho LGBTI+ na cidade do Porto, uma mudança de planos da Câmara Municipal quanto à realização do arraial que, como é hábito, encerrará o dia da marcha, gerou uma onda de indignação e uma petição que reuniu, em três dias, 5700 assinaturas. O documento veicula um protesto contra a "invisibilidade" a que o evento foi remetido, longe do centro da cidade, e foi esta quarta-feira entregue ao executivo de Rui Moreira.

“Sou activista pelo direitos LGBTI+ porque sou mãe de um filho homossexual, [a quem prometi todo o apoio]." Foi assim que Eulália Almeida, membro da Amplos — Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género, deu início à sua intervenção na Assembleia Municipal do Porto, na segunda-feira.

Com 71 anos, dez de activismo, dirigiu-se ao executivo para fazer um pedido: “Digam ao nosso presidente que nos deixe fazer o nosso arraial. Porque a marcha nós vamos fazer, custe o que custar. Mas queremos o nosso arraial na Alameda das Fontainhas ou no Largo Amor de Perdição.” Eulália tomou a palavra já depois da 1h da madrugada, quando Rui Moreira já não estava presente. O autarca terá saído imediatamente antes das intervenções dos munícipes.

Esta quarta-feira, Dia Internacional do Orgulho LGBTI+, a organização da Marcha do Porto (MOP) entregou à Câmara Municipal a petição "Contra a invisibilidade, queremos festa no centro da cidade", que em três dias reuniu o apoio de 5700 subscritores, 3700 dos quais residentes no distrito do Porto.

Em causa está a decisão da Ágora (empresa municipal para a Cultura e Desporto) de, a poucas semanas da marcha, alterar a localização do arraial LGBTI+ para o Parque do Covelo, na freguesia de Paranhos, a 45 minutos a pé do local inicialmente proposto. “A nossa luta é contra a invisibilidade do arraial mais orgulhoso do Porto”, reivindica a comissão organizadora.

O primeiro pedido da organização foi para que o arraial voltasse ao local do ano passado, o Largo Amor de Perdição, junto à Torre dos Clérigos e ao Jardim da Cordoaria, mas, “após quase três meses de silêncio do gabinete da presidência”, essa opção foi recusada. As consequentes negociações com a Ágora levaram a um acordo, ainda que verbal, a 29 de Maio, quanto à realização do arraial na Alameda das Fontainhas.

“Após análise interna, e apesar de sua proposta, informamos que, devido à quantidade de iniciativas que ocorrerão na cidade no mesmo fim-de-semana, não será possível realizar o arraial na Alameda das Fontainhas”, informou a Ágora a 19 de Junho. “Considerando as reuniões realizadas, ainda estamos disponíveis para analisar a realização da iniciativa no Parque Municipal do Covelo.”

Nesta terça-feira, 27 de Junho, a Ágora enviou um novo email a confirmar a proposta e a pedir uma resposta célere da organização quanto à única hipótese oferecida.

Sobre o Parque do Covelo, além de falhas na acessibilidade do espaço, com “limitações ao acesso de pessoas com mobilidade reduzida”, em entrevista ao PÚBLICO, Filipe Gaspar, membro da comissão organizadora da MOP, refere preocupações de segurança.

“Para nós é impensável que o arraial aconteça no Covelo, que nem tem dimensão para receber tantas pessoas [a organização aponta para 15 mil]. E é uma zona arborizada e de fácil acesso a quem queira promover ataques ou palavras de ódio”, diz, lembrando os actos de vandalismo que ocorreram este mês em Évora, visando o 1º. Évora Pride, e a ausência de escolta policial na Marcha de Braga, que obrigou centenas de manifestantes a utilizarem apenas o passeio, em vez da faixa de rodagem.

Filipe Gaspar é categórico: “Para o Covelo não vamos." "Se não tivermos outra opção, a alternativa será a ocupação do espaço público. E essa é uma solução que nos coloca em perigo”, sem protecção das forças policiais. “Para mim, é muito claro que esta é uma forma de nos oprimir e desgastar. Mas temos esperança que o município ainda repense a sua postura.”

Contactado pelo PÚBLICO, o gabinete de imprensa da Câmara Municipal do Porto (CMP) confirma que, até ao momento, as condições permanecem inalteradas.

“A CMP reitera a resposta da empresa municipal Ágora (...) A solução apresentada passa pela realização da iniciativa no Parque Municipal do Covelo, espaço verde da cidade próximo ao Marquês, que reúne todas as condições necessárias para a concretização do evento”, informou a autarquia no último comunicado divulgado sobre o tema.

“Se, ainda assim, a organização entender não ser este o local indicado", lê-se, "o Município do Porto lamenta a posição”.

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