João Almeida pode ter um adversário na própria “casa”

Sugerindo que poderá ser duro “domar” o colega Jay Vine, Almeida aproveitou para chamar a equipa à razão: “Sou o plano A. Dou muito mais garantias do que qualquer um. As coisas têm de ficar claras”.

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João Almeida em acção no Giro EPA/MAURIZIO BRAMBATTI
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Quando a sabedoria popular nos fala de um lobo em pele de cordeiro permite-nos encaixar o conceito naquilo que João Almeida poderá ter pela frente na Volta a Itália. Sejamos claros: o português nunca teve ao seu lado um bloco de domestiques tão forte como o que terá no Giro que arranca neste sábado.

O problema – e está por provar que o seja – é que um deles, o mais forte, se chama Jay Vine. Pode ser um presente tremendo que a Emirates deu a Almeida e um gregário do melhor que há? Pode. E pode ser um presente envenenado, caso o ciclista australiano leve na cabeça e nas pernas ambições pessoais difíceis de conjugar com o trabalho em prol de um só líder? Também pode.

Tudo isto ganha um significado maior quando é dito não pela imprensa ou por fãs mais parciais do ciclista, mas sim pelo próprio corredor português, que, uma semana e meia antes do Giro, foi claro, “ditador” e até bastante agressivo na forma como olhou para os planos de Vine, possivelmente um “lobo em pele de cordeiro”, e para a possível inércia da Emirates em colocar cada um no seu lugar.

Almeida “bateu no peito”, é certo, mas também mostrou alguma resignação com a impossibilidade de evitar que Vine faça o que bem entender, como já lhe aconteceu no passado.

“O Jay é capaz de ter alguns pensamentos de oportunidade de ir para a geral, mas claramente eu sou o plano A. Por conversas que tivemos é capaz de tentar a oportunidade dele. No lugar dele também gostava de ter a oportunidade, mas vai haver uma altura em que se tiver que trabalhar claramente terá que trabalhar”, começou por dizer, ao site Top Cycling.

E foi mais longe: “Percebo que ele queira ter a oportunidade de tentar fazer a geral, se calhar vamos poupá-lo um bocadinho, mas vai chegar um momento em que se for necessário não vou hesitar em dizer o que quero. Com o desenvolver da corrida as coisas vão ficar mais claras. Quem sabe ele até esteja numa forma super e ganhe o Giro, não se sabe”.

“Apertou” a Emirates

Almeida criou ainda um segundo “adversário”, Brandon McNulty, também ele um ciclista com talento e estatuto para correr para si próprio: “Temos o McNulty, que vai estar bem. Se ele estiver bem é uma boa ajuda e é possível que pense numa etapa ou duas, o que é ok, não acho que seja um problema”.

Compreensivo com objectivos pessoais de Vine e McNulty – desde que compatíveis com a ajuda a Almeida –, o ciclista português apontou, sobretudo, à Emirates. “Tem que ser tudo bem organizado e estudado, o director-desportivo tem de meter as coisas claras, os pontos têm que estar nos i, que é para não haver problemas e as coisas estarem preparadas”.

“Há uma hierarquia clara. Isto não foi falado dentro da equipa. Terá de ser falado claramente dentro da equipa, mas na hierarquia sou eu o plano A. Isso nem é uma questão. À partida é assim que temos de ir, claramente sou o plano A e dou muito mais garantias do que qualquer um. As coisas têm de ficar claras”.

A Emirates pode ainda não ter sido clara, mas Almeida dificilmente poderia ter sido mais claro do que isto.

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