Realismo capitalista

A sensação de inevitabilidade do capitalismo manifesta-se na ideia de que o capitalismo é o reflexo da natureza humana, que somos naturalmente gananciosos, competitivos, egoístas.

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Citando o próprio Mark Fisher: “Tornou-se muito fácil ignorar os trabalhadores e, em parte por causa disso, eles sentem-se cada vez mais desamparados e impotentes" Reuters/HENRY NICHOLLS

A ideia de um sistema fora da esfera capitalista parece algo absurdo e muitas vezes ridicularizado. Citando o escritor francês Charles Baudelaire, o maior truque que o Diabo já usou foi convencer o mundo de que não existia”. O capitalismo funciona de forma oposta: convence-nos que só ele pode existir.

Este conceito começou a ficar relativamente popularizado pelo livro Realismo Capitalista, escrito por Mark Fisher em 2009. Nele, o autor aprofunda a ideia de que, após o “fim da história” e a adopção geral do neoliberalismo como a linha certa a seguir, o capitalismo tornou-se o único sistema político e económico possível e, portanto, a única opção para todos nós, para todo o sempre. Esta forma de estar manifesta-se na cultura que consumimos, dominada por narrativas que apresentam o mundo como ele supostamente é, sem questionar as estruturas impostas pelo próprio sistema. Isto leva a uma falta de imaginação ideológica e política de alternativas, como também a uma sensação de inevitabilidade do capitalismo.

Isso manifesta-se na ideia de que o capitalismo é o reflexo da natureza humana. Que somos naturalmente gananciosos, competitivos, egoístas, como todos os outros animais. No entanto, o capitalismo não é ganância, liberdade, egoísmo ou outro adjectivo que possamos arranjar. Estas características já existiam antes do capitalismo e vão existir depois. Tanto estes adjectivos quanto os seus opostos servem para descrever a condição humana. A existência de avareza não é razão suficiente para construir uma economia à sua volta.

O capitalismo sobreviveu este tempo todo e dizem-nos que é por ser, simplesmente, a ordem do mundo. O desenvolvimento deste sistema, quando ouvimos os seus defensores, raramente tem em conta circunstâncias históricas como o isolamento geográfico onde ele criou raízes, o sucesso das revoluções liberais, a ausência de concorrentes ideológicos a nível global durante o período de desenvolvimento, os avanços tecnológicos coincidentes que permitiram a escravização do trabalho de todo um continente no processo de “acumulação primitiva” ou o esmagar de projectos de esquerda em golpes de estado, assassinatos e guerras em estados menos desenvolvidos. Em vez disso, a explicação simples que é repetida ad nauseam é que o capitalismo funciona porque é assim que o mundo funciona. Esta explicação natural é totalizante, não tem limites lógicos e leva a pensar tudo em termos de capitalismo e negócios.

Citando o próprio Mark Fisher: “Tornou-se muito fácil ignorar os trabalhadores e, em parte por causa disso, eles sentem-se cada vez mais desamparados e impotentes. O ataque combinado aos sindicatos por grupos de interesse neoliberais, juntamente com a mudança de uma organização fordista para uma organização pós-fordista da economia – o movimento em direcção à precarização, produção just-in-time, globalização – erodiu a base de poder dos sindicatos [e assim, a força de trabalho].” Desta forma, é nossa obrigação lutar contra esta noção absoluta e em contrapartida criarmos o nosso próprio realismo baseado nos princípios da igualdade, fraternidade e liberdade.

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