No basquetebol há LeBron e há os outros

Para alguns, LeBron James é o melhor jogador de sempre. Para outros, nunca será. Para os fãs de números, a “candidatura” de Lebron tem, agora, um argumento de peso: nunca alguém marcou tanto como ele.

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LeBron emocionado após a quebra do recorde EPA/ALLISON DINNER
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Reuters/Gary A. Vasquez
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A passagem simbólica de uma bola de Kareem para LeBron EPA/ALLISON DINNER
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James celebra em Los Angeles EPA/ALLISON DINNER
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O momento do lançamento que deu o recorde a James EPA/ALLISON DINNER

Faltavam 10,9 segundos para jogar no terceiro quarto do jogo entre Lakers e Thunder. LeBron​ James era o dono da bola, escondeu-a com o drible na mão esquerda, com o corpo entre a bola e o defensor – que era Kenrich Williams, um homem que vai ficar para sempre numa das fotografias mais icónicas do basquetebol. Há sítios piores para se estar.

Voltando ao pavilhão, LeBron​ estava na zona do lance livre e fugiu da defesa de Williams criando um lançamento com queda à retaguarda. Foi com este lançamento – e é um detalhe supremo que tenha sido com o seu fadeaway de assinatura – que James se tornou na última madrugada o melhor marcador da história da NBA, batendo, com 38.387 pontos, o recorde que era de Kareem Abdul-Jabbar desde 1984.

Naquele momento, o jogo parou. E o pavilhão parou também. Foi a hora de celebrar LeBron​, com a pompa da qual a NBA nunca abdica para celebrar os seus heróis. Invasão de campo pelos fotógrafos, passagem de testemunho por parte de Kareem, abraços à família e respeito de colegas e adversários.

Os americanos dizem “there’s a new sheriff in town” quando alguém chega ao poder e tem o ímpeto e as ferramentas para criar novas regras. Algo como “há um novo xerife na cidade”, se traduzirmos à letra. E desde a última madrugada que há um novo xerife na “cidade” do basquetebol.

LeBron​ já é, agora, o melhor jogador da história da modalidade? Essa é uma pergunta com rasteira, já que o basquetebol, apesar da atracção pelas estatísticas, presta-se a uma análise mais complexa do que isso. Mas quem desdenhar este recorde como um bom argumento pró-LeBron​ possivelmente também não estará a ver bem o que se está a passar aqui.

Quem bate isto?

LeBron​ James tem 38 anos. Os críticos dirão que só a longevidade é que justifica este recorde – se joga mais, marca mais. Os fãs apontarão que essa longevidade é o maior argumento pró-LeBron​.

A verdade talvez esteja entre as duas coisas. É verdade que o avanço da tecnologia e do conhecimento na preparação física permite, actualmente, uma maior longevidade do que nos tempos de Kareem ou Michael Jordan.

Mas também é verdade que LeBron​ é de uma estirpe única – porque outros da sua geração, com as mesmas possibilidades, não tiveram a longevidade de, aos 38 anos, ainda marcarem 30 pontos por jogo. Ou sequer de marcarem pontos. Ou mesmo de ainda jogarem basquetebol.

Há quem diga que esta marca de LeBron​ James, que ainda vai ser bastante alargada pelo americano, será mais difícil de bater do que a de Kareem – que já durou quase 40 anos. E não é uma ideia descabida, mesmo com Luka Doncic ainda com 23 anos.

James cuida do corpo como talvez nenhum outro desportista fez (e Doncic terá uma longevidade especialmente discutível) e tem ainda a seu favor a extrema inteligência de se adaptar às circunstâncias.

Vitórias versus recordes

LeBron​ já foi o jogador que usava o poder físico para levar defensores à frente. Hoje, sabe que não pode ir ao duelo físico em todos os ataques. LeBron​ já foi um lançador de longa distância. Hoje, procura outras virtudes que lhe escondam a perda de eficácia. LeBron​ já foi um craque entre trios de luxo. Hoje, até pelas lesões de Anthony Davis, tem “tocado” muitas vezes sozinho numa orquestra bem desafinada como por vezes são os Lakers.

Tudo isto permitirá que LeBron​ engorde bastante o seu registo de pontos e adense mais ainda a discussão sobre se o melhor marcador de sempre fica mais perto de ser o melhor jogador de sempre.

Contra si, além de a premissa simples de ter existido, um dia, um senhor chamado Michael Jordan, LeBron tem a “nuvem” de ser alguém refém das estatísticas – a velha premissa de que Jordan jogava para ganhar, enquanto LeBron​ joga para recordes.

Por injusta que possa ser a acusação, LeBron​ terá dificuldade em descolar-se dela. Ontem, por exemplo, parou-se o jogo para celebrar um recorde enquanto a equipa dos Lakers estava a perder esse jogo – a subversão do princípio de que o interesse colectivo de vencer está acima da valorização individual de algum jogador.

Desta acusação LeBron​ não fugirá, mas, na NBA e no desporto norte-americano, não há, por lá, nenhum jogo ou resultado que possa sobrepor-se à celebração de um herói. E também por isso a NBA é um dos melhores espectáculos do mundo – nunca as Leis do Jogo ou o resultado de um Lakers-Thunder estará acima das palmas ao rei.

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