Jornada Mundial da Juventude: o palco da descomunicação

Já o concurso do logótipo deveria ter feito soar os alarmes: qual será a direcção artística da JMJ? Qual será o corpo de “peritos”, com percursos reconhecíveis no sector cultural e criativo?

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Projecto do palco Câmara Municipal de Lisboa

A sete meses da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), afinam-se posições sobre o altar: há quem goste e quem proteste, discute-se o valor e pedem-se descontos. Pelo que se vê na imagem que viralizou, existe uma pala metálica suspensa sobre um somatório de rampas acessíveis, como que um ensaio de pirâmide no Parque Tejo. A produção da imagem não terá sido cara, ao que parece, por ter sido exportada directamente de um programa de modelação 3D. Estando sem qualquer contexto ou enquadramento paisagístico, e tendo sido cruamente difundida, atiçou o debate público.

Na multiplicação das opiniões, fazem-se juízos muito legítimos sobre os gastos num acontecimento que representa a Igreja Católica, certamente relevante para a história e a cultura do país, mas que não deixa de ser uma entre várias confissões de fé dos portugueses. Poder-se-ia escrever sobre a falta de representação das várias religiões no espaço público, ou sobre a importância da liberdade religiosa num estado laico, onde cada vez mais jovens dizem ser ateus ou agnósticos, apesar da proporção muito significativa de católicos.

Bastaria comunicar os benefícios que o evento para a cidade, numa requalificação duradoura do Parque Tejo para, em parte, minimizar a polémica. Mas o projecto é dispendioso, surge em cima do acontecimento, prescinde de concurso de arquitectura, de planeamento e antecipação. Pelos sinais que chegam da organização da JMJ, pode-se questionar também a estratégia de comunicação com crentes ou não crentes, por mais multidões que venham a Lisboa. Questiona-se, por exemplo, a atenção dada ao logótipo e a desatenção dada a toda uma experiência de marca, capaz de perdurar na memória colectiva.

Vale a pena lembrar o regulamento para o concurso do logótipo da JMJ, ainda disponível online: as propostas seriam seleccionadas por "peritos em imagem e desenho" e seriam enviadas ao Dicastério para os Leigos, Família e Vida, em Roma, que faria a escolha do logótipo. Sendo a expressão "peritos em imagem e desenho" bastante singular, é também um sintoma de que a comunicação visual da Igreja se arrisca a cristalizar, afastada da produção cultural da actualidade. Este concurso deveria ter feito soar os alarmes: qual será a direcção artística da JMJ? Qual será o corpo de "peritos", com percursos reconhecíveis no sector cultural e criativo? O aparente desconhecimento, pelo menos fora das instituições eclesiásticas, levanta outras questões, sobre o afastamento da Igreja Católica dos novos géneros de criação artística.

Não é que a Igreja Católica não tenha feito esse esforço, depois do Concílio do Vaticano II, para repensar o programa de arte sacra e religiosa, ecoando a mudança no panorama artístico no pós-guerra, entre vanguardas e modernismos. Seguiram-se cartas aos artistas: a que o Papa João Paulo II escreveu faz este ano 24 anos. Trata-se de um empenho que não se pode perder, caso se pretenda reviver a arte sacra. Desconhece-se, por exemplo, a posição do Vaticano em relação à media art, e que tanto poderia enriquecer os quatro altares das JMJ. E muitos outros géneros de expressão artística, esquecidos, desconvocados, que perdem a ligação ao sagrado.

Esta questão não é de somenos, quando a maioria da população mundial é religiosa. A chave para pensar em grandes questões globais, da igualdade de género à preservação do ambiente, não pode deixar de parte as religiões. É por isso que não se podem esquecer questões fracturantes, mas necessárias, do sacerdócio feminino à aceitação de minorias. Não se pode esquecer, também, a pertinência das Cartas Encíclicas que o presente Papa Francisco já escreveu, reconhecida por ateus e agnósticos que continuam a citá-las.

Seguissem a JMJ as ideias que o Papa Francisco já deixou em Laudato Si, para cuidar da casa comum e lançar as bases para uma ecologia cultural. Com projectos mais sóbrios e articulados, a JMJ facilmente inspirariam um mundo melhor, longe de se tornar num imbróglio para organizadores e participantes.

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