Chegou o primeiro espumante dos Açores com Denominação de Origem — e em grande

A revolução dos vinhos açorianos continua, agora com o lançamento de um espumante DO da Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico. Quem diria!

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O primeiro espumante dos Açores com Denominação de Origem nasce no rendilhado de parcelas de vinhas que marca a paisagem da ilha do Pico Nuno Alexandre

Se há 15 anos alguém nos insinuasse que os Açores iriam produzir espumantes de qualidade o mais provável é que recebesse como resposta uma gargalhada sonora. Nem seria, sequer, pela questão da qualidade das uvas porque, como se sabe, até nas ilhas se consegue fazer um vinho base com pouco álcool e elevada acidez. Seria mesmo pela falta de experiência para se produzir um vinho que é tecnicamente exigente. E, vai daí, António Maçanita fez um primeiro ensaio com a casta Terrantez em 2010, que logo deu que falar. Seguiu-se Bernardo Cabral, na Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico (CVIP), com o CVIP Projectos, lançado há dois anos (vinho certificado pelo Instituto da Vinha e do Vinho, antigamente designado por vinho de mesa). Agora, pelas mãos do mesmo enólogo, surge o primeiro espumante com Denominação de Origem Açores —​ o Adega do Pico 2017. Para aguçar a coisa, há um enólogo do continente e muito conhecedor de espumantes que está a fazer ensaios na ilha da Montanha (não podemos revelar mais nada).

Feito em 2016, o espumante CVIP Projectos foi o primeiro exercício de Bernardo Cabral no Pico e até teve a particularidade de ser assinado, no contra-rótulo, com o nome de Humberto Faria, o adegueiro da CVIP que, depois de acabar os trabalhos da adega, vai tratar das suas vinhas para reduzir os níveis de stress na ilha (a tese é dele). E como cuida muito bem das vinhas da casta Terrantez (no Verão tudo faz para que cada cacho melindroso de Terrantez esteja protegido por uma parra), Bernardo e a direcção da CVIP prestaram-lhe homenagem nas garrafas do vinho.

Daí em diante, Bernardo não mais parou de espumantizar vinhos (sempre com leveduras livres), só que, perante a escassez das uvas de Terrantez, optou por trabalhar com a casta Arinto dos Açores, que apesar de ser diferente da casta Arinto do continente, é, também, bastante rica em ácidos. “Dentro deste rendilhado de parcelas de vinhas no Pico descobrimos uma vinha na Candelária de um associado — o Zé Pereira — que tem uma exposição muito peculiar. É perto do mar mas não está em cima do mar, fica numa escarpada com um declive de 40 metros e virada a Nordeste. Isso permite-nos ter quase nove por cento de acidez total e álcool baixo, sendo que, depois da segunda fermentação, o espumante ficou com 12 por cento de álcool”, diz-nos Bernardo Cabral, que convenceu a direcção da CVIP a investir na tecnologia necessária para a feitura de espumantes (câmaras de frio para espumantizar, máquinas de rodar garrafas e de dégorgement).

De maneira que daqui em diante o único risco que existe no Pico é o de aumentar a qualidade dos espumantes, em particular se Bernardo Cabral deixar mais tempo o vinho sobre borras (um detalhe). E não nos surpreenderá nada se, daqui a algum tempo, a CVIP anunciar o lançamento de um kit de três espumantes do Pico — um de Arinto dos Açores, um de Terrantez e outro de Verdelho. Seria algo bastante didáctico.

Num território que é só vacas, lagoas e mar por todo o lado, quem diria que se poderia possível produzir espumantes desta qualidade? Donde, se alguém hoje nos disser que vai fazer um vinho de colheita tardia em Santa Maria — ou até no Corvo — nem um sorriso libertaremos. É possível, sim senhor. O que é preciso é muita vontade e um bocado de ciência.

Crítica

Nome Espumante Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico

Produtor Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico

Castas Arinto dos Açores

Região Açores

Grau alcoólico 12 por cento

Preço (euros) 60

Pontuação 92

Autor Edgardo Pacheco

Notas de prova As primeiras notas são de pastelaria (bolacha de manteiga), conjugadas com aromas de torrefacção, mas quando as bolhas ficam mais tranquilas chega-nos aquele cheiro que mistura algas e maresia, o que revela bem o terroir do vinho. Na boca, o ataque é vigoroso, a bolha explosiva e envolvente, com o carácter salino a regressar. À mesa, é bastante polivalente. Se calhar são saudades, mas até uns torresmos de cabinho ficariam bem com este espumante.

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