Do jardim de vinhas à sala de provas

Em Fernando Pó, estende-se um percurso pedestre que convida a contemplar a região de olhos atentos. Os vinhos não ficam de fora. A Adega Fernão Pó é um dos produtores de portas abertas aos caminhantes

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O percurso circular estende-se por 11,5 quilómetros, por entre vinhas e bosque de montado Goncalo Villaverde
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Adega Fernão Pó, Fernando Pó (Palmela) Goncalo Villaverde
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Adega Fernão Pó, Fernando Pó (Palmela) Goncalo Villaverde
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Loja e sala de provas da Adega Fernão Pó, Fernando Pó (Palmela) Goncalo Villaverde
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Sala de barricas da Adega Fernão Pó, Fernando Pó (Palmela) Goncalo Villaverde

Uma curiosidade topográfica: olhe-se para um mapa da planície de areia designada por Plioceno de Pegões e repare-se nos nomes das localidades. Poceirão, Águas de Moura, Fonte da Barreira, Pegos Claros, todos têm um elemento em comum: todos se referem a água. Depois, aparece Fernando Pó.

Um sítio chamado “pó” no meio de tudo isto faz questionar o porquê. Dá até uma indicação contrária, lembra aridez – numa planície conhecida como berço de vinhos ricos, aromáticos, copiosos. “Até ao século XVIII isto era terra de ninguém”, introduz José Cunha, que traz explicação pronta. A história que por aqui se conta envolve um comerciante que fez fortuna na Guiné e o seu projecto de plantar vinha neste chão arenoso. “Como o sítio não tinha nome, terá posto o da ilha guineense onde vivia [hoje Bioco]”, continua José. Por vezes, um nome não é mais do que uma designação.

O percurso pedestre Jardins de Vinhas é um trilho circular que se estende por entre as vinhas de Fernando Pó. Goncalo Villaverde
“Partilhando conhecimento, conseguimos criar consciência da necessidade de preservação”, defende José Cunha, que propõe caminhadas guiadas para descobrir o património natural da região, através da BioTrails. Goncalo Villaverde
O percurso pedestre Jardim de Vinhas também pode ser feito em autonomia, com as devidas cautelas que o bom senso dita: usar calçado confortável, levar água, evitar as horas de calor e seguir a sinalização Goncalo Villaverde
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O percurso pedestre Jardins de Vinhas é um trilho circular que se estende por entre as vinhas de Fernando Pó. Goncalo Villaverde

Por entre Jardins de Vinhas

O percurso pedestre Jardins de Vinhas, criado por iniciativa do município de Palmela e da Rota de Vinhos da Península de Setúbal, nasceu para dar a conhecer este pedaço do território e fazer todas essas apresentações. Se a visita for feita em boa companhia, mais se aprende. José Cunha é um dos cicerones a quem se pode recorrer, através da BioTrails – empresa de turismo de natureza que fundou há cinco anos com o intuito de aliar caminhadas à sensibilização para a protecção do património natural. “Partilhando conhecimento, conseguimos criar consciência da necessidade de preservação”, acredita.

O trilho sinalizado estende-se por 11,5 quilómetros, num traçado circular que passa pela porta de cinco produtores: Quinta do Monte Alegre, Adega Fernão Pó, Casa Dupó, Casa Ermelinda Freitas e, do lado oposto do caminho, a Filipe Palhoça Vinhos.

Para tirar o melhor partido de ambos os mundos – o natural e o do vinho –, a BioTrails propõe uma caminhada mais curta, cerca de 6 quilómetros feitos num par de horas, com vagar para ir parando e descobrindo a envolvente, regresso de transfer e, no final, tempo de sobra para tomar o pulso a duas adegas. Ambas deixadas propositadamente para o final, “para não pôr ninguém a provar vinhos logo às 09h00”.

Apesar do nome e da atracção principal, não é só de vinhas que se faz este percurso. À saída de Fernando Pó, junto à Casa Ermelinda Freitas, entra-se por uma mancha de montado, que acompanha metade do percurso proposto pela BioTrails. À esquerda, vinhas a perder de vista. À direita, um bosque de sobreiros, algumas azinheiras, carrascos e pinheiros, que esconde muita biodiversidade.

Abundam, sobretudo, as espécies de aves, até porque a Reserva Natural do Estuário do Sado não fica muito longe. Avistá-las, é outra conversa, mas José Cunha vem apetrechado a contar com a sua timidez. Da mochila, retira ilustrações de pisco-de-peito-ruivo, estorninho, felosinha, gralha, pintassilgo, que vai mostrando à medida que cada um se faz ouvir no ar da manhã. Por aqui pairam também milhafres e águias-de-asa-redonda, pegas-azuis e “uma ave super-importante”, o gaio. “Alimenta-se de bolotas e tem o hábito de enterrá-las”, explica o guia. “Como se esquece de onde as deixa, acaba por semear árvores.” Um pássaro florestador, portanto.

O percurso pode ser feito em autonomia – basta trazer botas, água, evitar as horas de calor e seguir a sinalização. Porém, perdem-se estas notas, que enriquecem o caminho. E mais esta: “A paisagem varia tanto ao longo do ano que vale a pena repetir o caminho.” Há que ouvir quem sabe. Terminado o período de vindimas, a BioTrails retoma estas caminhadas, que decorrem mensalmente até Junho. A próxima está marcada para 19 de Novembro.

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O percurso pedestre Jardins de Vinhas passa pelas vinhas e adegas de cinco produtores: Adega Fernão Pó, Adega Dupó, Casa Ermelinda Freitas, Filipe Palhoça Vinhos e Quinta do Monte Alegre Goncalo Villaverde

“Fazer diferente”: vinhos para a mesa

A Adega Fernão Pó é um dos pontos de partida (ou de chegada) na rota da BioTrails. Quem faz as honras da casa é Isabel Palhoça, que tem longa ligação a este chão arenoso. Isabel cresceu aqui, foi o seu pai que construiu a adega, bem como a casa onde viveram, recentemente renovada e aberta a hóspedes com o nome Delmira Vineyard House, em homenagem à mãe. O pai, Aníbal da Silva Freitas, tem tributo nos vinhos de topo de gama da casa, que levam as suas iniciais.

Quem estiver atento logo reparará que estes dois apelidos se repetem no panorama dos vinhos locais. São vários os Freitas e os Palhoça ligados ao ofício. “Somos todos primos”, conta Isabel, que juntou as duas famílias num só tecto ao casar com Custódio Palhoça, que assume hoje a viticultura. O filho, João Palhoça, assina a enologia. “Somos uma equipa pequena”, admite a responsável de enoturismo, ainda que a produção se cifre hoje nos 800 mil litros, a partir de vinhas próprias – 70 hectares, 34 dos quais de castelão.

Na adega persistem ainda as antigas cubas de cimento, do tempo da fundação da casa. Goncalo Villaverde
Isabel Palhoça é a responsável de enoturismo desta empresa familiar - o marido, Custódio Palhoça, trata da viticultura e João Palhoça, filho de ambos, assegura a enologia. Goncalo Villaverde
A casa onde Isabel Palhoça cresceu foi transformada na Delmira Vineyard House, uma unidade de alojamento local com quatro quartos. Goncalo Villaverde
A antiga sala das caldeiras é hoje sala de provas e loja da Adega Fernão Pó. Goncalo Villaverde
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Na adega persistem ainda as antigas cubas de cimento, do tempo da fundação da casa. Goncalo Villaverde

“Já conhecemos a vinha, temos historial”, sublinha Isabel, para assumir o foco de “fazer diferente” como estratégia de posicionamento, numa vizinhança onde operam produtores gigantes. São, desde logo, vinhos para a mesa: “Nesta casa, o vinho sempre foi para ser bebido à refeição”, afirma. Há que fazer escolhas, e aqui opta-se pelo lado gastronómico, aliado a uma questão de gosto pessoal: a pouca propensão para a doçura, que se nota desde logo no moscatel, categoria em que a Adega Fernão Pó tardou a entrar – o primeiro data de 2017.

Na antiga sala das caldeiras, onde antes se destilou aguardente, hoje transformada em sala de provas, desfilam todas as referências da casa. Em querendo, ao programa de visita e prova, que traz pão, doce de vinho e tábua de queijos a acompanhar, pode juntar-se um menu de cinco pratos com harmonização e o acompanhamento do enólogo. Se for esse o caso, talvez valha a pena repetir a caminhada no final.

Adega Fernão Pó
Fernando Pó, Águas de Moura (Palmela)
GPS: 38.641534, -8.691333
Tel.: 265995423
Web: fernaopo.pt
Visita e prova desde 12 euros (4 vinhos); menu harmonização (5 vinhos), 80 euros

BioTrails
Tel.: 914760638
Web: biotrails.pt
Percurso Jardins de Vinhas, 15 euros/pessoa (inclui visita a 2 adegas, transfer e seguro)


Este artigo foi publicado no n.º 4 da revista Solo.

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