Quando a luz dos Blondie iluminou Nova Iorque

Tem um título que é desde logo a introdução a uma história. Reunindo mais de 50 faixas, entre inéditos, lados B e demos, Against The Odds 1974-1982 narra a história improvável e mundana dos Blondie, entre sucessos e desilusões. Guiada pela voz de Debbie Harry, a banda nova-iorquina deixou-nos canções que continuam a irradiar prazer, desejo, alegria e tristeza.

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Michael Zagaris

Os anos passam, o século XX afasta-se, a pop e rock debruçam-se, não sem langor, sobre os seus arquivos. Distantes do palco, músicos e bandas vão recolhendo temas que não chegaram a sair do crepúsculo: versões secretas de canções famosas, raridades e outras curiosidades. Tudo — ou quase tudo — o que ficara na sombra pode agora brilhar, isto é, ser ouvido. “Eis a indústria da reedição na sua máxima perversidade, a vender a nostalgia para consumo”, dirão os mais cínicos. E com efeito, à medida que aparecem novas canções (em caras novas), as caixas vão se acumulando. Há bem pouco tempo, saiu uma dedicada aos Stereolab e outra que iluminava a vida do Tall Dwarfs — esta teve a justa atenção, nestas páginas, de Mário Lopes. E para Novembro anunciam-se 59 faixas de PJ Harvey, grande parte constituída por versões inéditas de temas da cantora e guitarrista inglesa. O título: B-Sides, Demos & Rarities. Se conseguirmos escapar à visão comercial do mundo (que, teimosa, nos encadeia), há algo de desesperado neste revolver dos arquivos, neste insanável trabalho de libertar o que o passado não quis lembrar. Com algum esforço, somos capazes de escutar, em tom de murmúrio, uma súplica: “Não nos esqueçam”. “Não”, devemos responder-lhe, “não, enquanto pudermos ouvir”.

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