Ter muita escolha não traz felicidade

Sabes que sou bastante alérgica a esta história das atividades extracurriculares compulsivas, que além do mais deixam os pais igualmente exaustos e falidos.

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@designer.sandraf

Querida Mãe,

Passado o rebuliço do início das aulas chega Outubro e a correria das actividades extracurriculares, com um rol de opções cada vez maior. E é então que me lembro daquele estudo que comprova que ter muita escolha não traz felicidade, antes pelo contrário, aliás coisa que confirmo de cada vez que vou ao supermercado e sou obrigada a escolher um detergente entre cem.

Mas parece-me que este fenómeno vai muito para lá do racional, misturando-se tudo no caldeirão de razões e emoções. Por um lado, agarramo-nos à ideia de que se não tivéssemos desistido do ballet ou do futebol, se tivéssemos sido mais diligentes e persistentes, se tivéssemos tido os recursos necessários, por esta hora estaríamos no palco do S. Carlos ou no estádio de um qualquer clube da Primeira Liga — o que nos leva a querer garantir que o nosso filho não cometa o mesmo erro. Não pode desistir, vai chegar onde não chegámos. E agradecer-nos por cima.

Por outro, metemos na cabeça de que é nestas actividades que os talentos dos nossos filhos vão ser realmente revelados, resgatando-os de uma vida banal, tornando-os Extra-Ordinários — é claramente daí que vem o extracurricular. Subjacente a essa ideia, mãe, parece-me que está a desilusão de muita gente com a sua profissão, que as leva a considerar quase impossível que os seus miúdos possam ser felizes “só” com uma vida “normal”.

Seja como for, parece-me que pelo caminho nos esquecemos de algumas verdades importantes, e o resultado é que aquilo que começou por ser um valor acrescentado, depressa se pode tornar num pesadelo. Passo a enumerar:

1. Não precisamos de ser bons no nosso hobby podemos, pura e simplesmente, adorar o processo.

Numa sociedade que hipervaloriza os resultados, as actividades extracurriculares deveriam ser uma boa oportunidade para nos conectarmos com o prazer de fazermos qualquer coisa, só porque nos sabe bem, ou nos diverte, sem nenhum grande objectivo. Quando é assim, permitimo-nos muito mais facilmente experimentar e arriscar, tirando da actividade todas as coisas boas que nos podem dar. Tornar aquilo num emprego, a somar a todas as obrigações que os miúdos já têm, decididamente não faz bem a nada.

2. As crianças são desenhadas para a novidade.

É verdade que há miúdos que adoram uma actividade específica, mas as crianças em geral são desenhadas para adorar o que é novo, o que lhes permite conhecer coisas novas, antes de se irem tendencialmente “especializando”. Mas, para aceder a este leque de experiências, é preciso desistir de uma e avançar para outra, o que acabamos por não lhes permitir. Ou seja, desistir e querer trocar de actividade, não são sintomas de um feitio preguiçosos e pouco focado — faz parte do desenvolvimento.

3. Exigência e cansaço.

O facto de gostarem, não altera o facto de que são actividades organizadas, estruturadas e com exigência. Ou seja, são cansativas, sobretudo quando somadas a um dia inteiro na escola. Se ao princípio, e ainda frescos das férias, podem parecer tolerar bem o chegar a casa tardíssimo, o cansaço pode acumular-se a níveis insuportáveis. Mas se não há margem para desistir, se existe uma pressão gigantesca para que seja “boa naquilo”, podem sentir-se presos e com medo de desiludir pais e professores.

4. Fazemo-lo por nós ou por eles?

Se sempre adorámos ballet, e o nosso maior sonho era ter tido aulas, vamos é ganhar coragem para nos inscrevermos nas aulas de ballet para adultos, em lugar de vestir um tutu a uma criança contrariada, combinado? Idem aspas para os pais que sonhavam ter sido futebolistas ou nadadores olímpicos. Além do mais, não há nada que ponha mais a cabeça em água a uma criança/adolescente do que pais treinadores de bancada.

E a mãe, é este ano que se vai inscrever no hip-hop?


Querida Ana,

Hip-hop? Afinal, quero escolher dança do ventre! Na tua carta fica bem claro que posso mudar de ideias, e ontem as gémeas disseram-me que posso inscrever-me no “Aí a Dança”, e garantiram-me que aceitam alunas com mais de 60 anos, por isso vou mudar. E deixar-te orgulhosa de mim. Se não desistir antes, o que é uma probabilidade.

Mais a sério, hum, sabes que sou bastante alérgica a esta história das actividades extracurriculares compulsivas, que além do mais deixam os pais igualmente exaustos e falidos. Cá para mim, deviam estar incluídas no horário escolar, sobretudo a arte, a música e o desporto, substituindo-se umas disciplinas por outras, num currículo muito mais ágil e flexível.

Sou daquelas que acredita que se aprende matemática, ciências ou português, tão bem ou melhor enquanto se desenha, se faz barro, se toca piano ou se medem os metros de um espaldar numa aula de educação física. E não é uma utopia da minha cabeça, porque já vi esta forma de ensino posta em prática e com óptimos resultados.

Quanto à tua reflexão, assino por baixo. É mais do que natural querermos que os nossos filhos sejam “os melhores”, que brilhem e se destaquem, e que sonhemos que um bocadinho da luz dos holofotes acabe por cair sobre nós, pais ou professores/treinadores, mas temo o lado vaidoso para que esse desejo pode resvalar. Porque quando se torna muito narcísico deixamos de ter o bem-estar dos nossos filhos tão em conta, e isso é mau. Por isso tens toda a razão: vamos investir mais nos nossos sonhos, para não contaminar os deles.


O Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. E, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam.

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