Jean-Luc Godard: três mulheres, três fases da obra

Anna Karina, Anne Wiazemsky e Anne-Marie Miéville corresponderam a distintos momentos do “pai” da Nouvelle Vague.

Anna Karina
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Anna Karina RDB/ullstein bild / Getty Images
"Vivre sa Vie"
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"Vivre sa Vie" dr

Vivre Sa Vie, 1962

Anna Karina dizia que todos os filmes que fez com Jean-Luc Godard foram “presentes” dele para ela. Vivre Sa Vie deve ser o presente mais completo, totalmente construído para ela e e em torno dela com uma ousadia suprema, a ousadia de um homem apaixonado: sobrepor ao rosto de Karina o rosto da Falconetti na Joana d'Arc de Dreyer. Porque uma actriz – é um dos temas do filme: ser-se uma actriz – é uma mulher que arde numa fogueira à vista de todos.

Anne Wiazemsky Keystone-France/Gamma-Keystone/ Getty Images
One + One Hulton-Deutsch Collection/CORBIS Getty Images
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Keystone-France/Gamma-Keystone/ Getty Images

One + One, 1968

Os ares do Maio de 1968, período em que a politização do cinema de Godard –​ na verdade, iniciada antes, como um pressentimento do seu nariz de sismógrafo – se torna expressa, coincidem com o seu encontro com Anne Wiazemsky. Não ficou muito tempo no cinema de Godard, Wiazemsky, mas ficou o tempo suficiente para se tornar o principal rosto do período politicamente mais radical do cineasta, antes do “desaparecimento” dele no colectivo que se chamou Grupo Dziga Vertov. Em One + One, filme em que os Rolling Stones, a Simpatia pelo Diabo, e a Revolução ficaram eternamente associados, Wiazemsky foi uma aparição no Paraíso da Democracia, numa personagem chamada Eve Democracy, “Eva Democracia”.

Anne-Marie Miéville
"Soft and Hard"
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Soft and Hard, 1985

E a chegada de Anne-Marie Miéville à vida de Godard, sucedida durante o período inicial dos anos 70, em que ele estava afastado do cinema dito “normal”, coincidiu também com a descoberta do vídeo – cujas possibilidades de manipulação e de dissecação da imagem (ou de outras coisas através da imagem: do movimento, por exemplo) ele se pôs imediatamente a estudar e experimentar. Miéville, cineasta de nome próprio (e grande cineasta), foi porventura a principal, e mais perene, interlocutora de Godard, na vida pessoal e na vida artística – era a mesma “fábrica”, como se diz em Soft and Hard, filme assinado pelos dois, feito em casa deles, entre tarefas domésticas e a “elevação” de um diálogo filosófico.

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