O mar sobe e força habitantes das Fiji a mudarem-se. Eles querem que os poluidores paguem

Os habitantes têm de se mudar porque a água já lhes dá pelos joelhos. “Eles deviam ajudar-nos, deviam pagar pelas nossas perdas e danos”, dizem, sobre os principais poluidores mundiais.

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Nas Fiji, a água chega até às casas dos habitantes Reuters/LOREN ELLIOTT

Barcos atracam junto a salas de estar em Serua, nas ilhas Fiji, onde a água vai além do paredão e inunda a vila. Placas de madeira estendem-se ao longo de algumas casas, de forma a criar um passadiço improvisado, à medida que a água salgada inunda os jardins.

Os anciãos sempre acreditaram que iriam morrer aqui, nesta terra onde os ancestrais estão enterrados.

Mas à medida que a comunidade fica sem formas de se adaptar à subida do Oceano Pacífico, os 80 habitantes têm de tomar a dolorosa decisão para onde se mudar.

Semisi Madanawa, a criar três crianças que percorrem, com dificuldade, os parques, diz que dadas as cheias, a erosão e a exposição a temperaturas extremas, os residentes deveriam mudar-se para a ilha principal, de forma a assegurar o futuro das próximas gerações.

Em Serua, nas ilhas Fiji, os habitantes preparam-se para o realojamento Reuters/LOREN ELLIOTT
Em Serua, nas ilhas Fiji, os habitantes preparam-se para o realojamento Reuters/LOREN ELLIOTT
Em Serua, nas ilhas Fiji, os habitantes preparam-se para o realojamento Reuters/LOREN ELLIOTT
Em Serua, nas ilhas Fiji, os habitantes preparam-se para o realojamento Reuters/LOREN ELLIOTT
A comunidade junta-se para rezar Reuters/LOREN ELLIOTT
Em Serua, nas ilhas Fiji, os habitantes preparam-se para o realojamento Reuters/LOREN ELLIOTT
Em Serua, nas ilhas Fiji, os habitantes preparam-se para o realojamento Reuters/LOREN ELLIOTT
A comunidade junta-se para rezar Reuters/LOREN ELLIOTT
Em Serua, nas ilhas Fiji, os habitantes preparam-se para o realojamento Reuters/LOREN ELLIOTT
Em Serua, nas ilhas Fiji, os habitantes preparam-se para o realojamento Reuters/LOREN ELLIOTT
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Reuters/LOREN ELLIOTT

Os mais velhos estão a resistir, questionando-se se a recuperação de terra pode impedir o mar de “roubar” as casas e os locais onde os ancestrais estão enterrados, diz.

“É preciso tempo para uma ideia assentar nos corações dos humanos, para que consigamos aceitar as mudanças que aí vêm”, refere Madanawa, de 38 anos. “As alterações climáticas estão a acontecer e temos de tomar uma decisão.”

A ilha Serua é uma das muitas aldeias à beira mar a ter de tomar decisões difíceis sobre o seu futuro, procurando ajuda governamental para projectos caros de adaptação, referem representantes do Governo.

Líderes de 15 ilhas do Pacífico declararam que a crise climática é a sua “grande ameaça existencial”, num encontro na capital das Fiji, Suva, que aconteceu em meados de Julho.

A enfrentar alguns dos efeitos mais directos das alterações climáticas, querem que os países desenvolvidos, os que mais contribuem para o aquecimento global, não só reduzam as suas emissões, mas também paguem pelo que os habitantes das ilhas têm de fazer para se protegerem do aumento do nível do mar. E este tornou-se num ponto-chave das conferências climáticas das Nações Unidas.

Construir paredões, plantar mangue e melhorar o escoamento são medidas que, em muitos casos, já não são suficientes para salvar as aldeias, diz Shivanal Kumar, especialista em adaptação para as alterações no Ministério da Economia de Fiji.

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Os habitantes querem que os países desenvolvidos, os maiores poluidores, paguem pelos danos Reuters/LOREN ELLIOTT

“Muitas comunidades estão numa crise genuína, estão a tentar sobreviver”, diz. “Os impactos das alterações climáticas têm sido sentidos há muitos anos e houve uma altura em que eles desistiram e disseram que era altura de mudar.”

O realojamento tem como objectivo preservar os direitos humanos, protegendo as pessoas do aumento do nível do mar, tempestades e ciclones extremos, refere Kumar.

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A água inunda a aldeia Reuters/LOREN ELLIOTT

Mas os fundos prometidos pelos países desenvolvidos da conferência do clima das Nações Unidos não cobrem o realojamento, apenas a adaptação, como a construção de um paredão, dizem os responsáveis.

Na conferência do ano passado, a COP26, as nações desenvolvidas concordaram apenas com a continuidade de conversas sobre compensação para os impactos inevitáveis das alterações climáticas, incluindo a migração, sentida por populações mais vulneráveis.

No seu encontro, os líderes do Pacífico chamaram a atenção para que as nações desenvolvidas mostrassem um progresso significativo na COP27, com um novo objectivo — rápido financiamento para tais “perdas e estragos”.

O presidente da COP26, o britânico Alok Sharma, disse em Suva, esta quarta-feira, que entendia a desilusão dos habitantes do Pacífico, que estão na linha da frente das alterações climáticas.

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Os residentes preparam-se para deixar a aldeia Reuters/LOREN ELLIOTT

“São forçados a lidar com as consequências das emissões de gases de efeito de estufa geradas provenientes dos países que mais as emitem, que estão longe daqui. Isto não é uma crise feita por vocês”, disse, num discurso. “Vamos encontrar uma forma de ter uma discussão substancial sobre as perdas e estragos na COP27.”

Fiji, um arquipélago de centenas de ilhas a uns dois mil quilómetros a norte da Nova Zelândia, tornou-se, em 2014, na primeira nação de ilhas do Pacífico a realojar comunidades por causa da subida do nível do mar.

Seis aldeias foram realojadas ou estão a planeá-lo com a ajuda do Governo, mas um novo programa para dar prioridade a realojamentos mais urgentes ainda está em desenvolvimento.

Mais 795 vão ter de se mudar, diz a activista climática Salote Nasalo, que diz não conseguir dormir a pensar para onde poderão ir. Os jovens do Pacífico vão continuar a protestar contra a inacção relativa ao financiamento levada a cabo pelos grandes emissores, diz a estudante da Universidade do Pacífico Sul.

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Nas Fiji, os barcos atracam junto às salas de estar Reuters/LOREN ELLIOTT

A primeira comunidade a ser realojada foi a de Vunidogoloa, depois de os habitantes terem convidado representantes para verem como é viver com água pelos joelhos. A água salgada fez com que deixasse de ser possível que os 150 residentes tivessem plantações, alterando o seu modo de vida e a garantia de terem comida, diz o antigo chefe da aldeia, Sailosi Ramatu.

Na nova aldeia, a 1,5 quilómetros da costa da ilha Vanua Levu, as crianças agora sentam-se no exterior das suas casas, com os pés bem assentes no chão seco.

Ramatu, de 63 anos, diz que não é fácil persuadir os mais velhos a mudarem-se, mas a vila juntou-se e ouviu os especialistas. “Também podemos tomar decisões mundiais se os líderes se unirem”, diz. “Eles deviam ajudar-nos, deviam pagar pelas nossas perdas e danos.”