Dulce Maria Cardoso é a convidada do Encontro de Leituras desta terça-feira

Na próxima terça-feira, 9 de Agosto, a escritora portuguesa estará no clube de leitura do PÚBLICO e da Folha de S. Paulo a conversar com os leitores sobre o romance Eliete – A Vida Normal. A sessão acontece às 22h de Lisboa (18h em Brasília) no Zoom, aberta a todos os que queiram participar.

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Dulce Maria Cardoso é a convidada do próximo Encontro de Leituras enric vives-rubio

Dulce Maria Cardoso é a convidada do próximo Encontro de Leituras, o clube de leitura do PÚBLICO e do jornal brasileiro Folha de S. Paulo, no dia 9 de Agosto, terça-feira, às 22h em Lisboa (18h em Brasília). A sessão acontece no Zoom e a conversa será sobre o romance Eliete: A Vida Normal, publicado em 2018 em Portugal, pela Tinta-da-china, e lançado no mês passado no Brasil, pela editora Todavia.

Eliete: A Vida Normal fala-nos de uma mulher de meia-idade e em crise no tempo das redes sociais. Reflecte também sobre temas habituais na obra de Dulce Maria Cardoso, como a memória (a sua perda) e a identidade. Este romance foi o segundo qualificado no Prémio Oceanos em 2019 e esteve também nomeado na categoria de melhor romance estrangeiro para o Prémio Femina em 2020.

O debate com a escritora, que é licenciada em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa e durante anos exerceu advocacia antes de se dedicar à escrita a tempo inteiro, acontece via Zoom, aberto a todos os que queiram participar através deste link. A ID da reunião é 863 4569 9958 e a senha de acesso 553074.

A personagem Eliete nasceu no ano da Revolução dos Cravos e define-se no romance, que atravessa várias gerações de uma família que vive em Cascais, como tendo uma vida normal: “Se tivesse de apostar, diria que o Jorge começou a apaixonar-se por mim quando lhe contei dos meus projectos comezinhos, uma casa, um homem bom, filhos saudáveis, um carro, natais em família, jantares com amigos, álbuns de fotografias com as viagens das férias, uma vida normal.”

Foi com “este conceito de uma vida normal” que o ditador português António de Oliveira Salazar, que “emoldura este romance”, “convenceu os portugueses a aceitarem uma ditadura tão longa”, como explicou Dulce Maria Cardoso numa entrevista que deu à rádio RFI, na altura em que a tradução francesa deste livro esteve entre os candidatos estrangeiros ao prémio Femina em França.

Com a história de Eliete e da sua família, Dulce Maria Cardoso tentou também fazer uma reflexão sobre quem somos enquanto portugueses. Para a escritora, este romance é “uma metáfora que parte do princípio que Salazar teve de facto herdeiros físicos, não só os herdeiros ideológicos e afectivos. Eliete vai ou não libertar-se dessa herança com a mesma dificuldade com que um país se livra ou não dessa herança”.

Por outro lado, “casada e com duas filhas adultas, Eliete é uma mulher do seu tempo e do nosso, ou seja, do tempo do Facebook, do Instagram, do Tinder e de outras ‘redes sociais’, como escreveu em 2018 no Ípsilon Mário Santos. Para o crítico literário “Eliete é o retorno da personagem-protagonista ao centro do romance, condição triunfal que a focalização interna da narração na primeira pessoa prodigaliza e acentua”.

Dulce Maria Cardoso quis abordar as mudanças nesta época em que, como ela diz, “o colectivo é praticamente virtual” e as pessoas estão sozinhas em frente a um ecrã. Lê-se a determinada altura do livro: “Sentada à mesa da sala de jantar, a minha família desconjuntada, parte dela ali mesmo na sala, o corpo da avó no sofá, o do Jorge no chão. Eu tinha bebido demais, e o álcool que até àquele momento me deixara mais desperta talvez me tivesse desligado por instantes. Não podia dizer quanto tempo passara até o toque do telemóvel me sobressaltar ao assinalar a receção de uma nova mensagem. Era do Tinder. Alguém instalara o Tinder no meu telemóvel e esse alguém só podia ter sido eu.”

No podcast Cruzamentos Literários, Dulce Maria Cardoso contou que durante a escrita deste romance se apercebeu que queria que o seu projecto literário fosse a produção de “um romance eterno”, uma obra que não terminasse nunca. Por isso o próximo romance será ainda sobre a Eliete (e desvendará parte do que falta desvendar nesta primeira parte) e o seguinte poderá ser sobre alguma coisa ligada a Eliete, mas já não directamente sobre esta personagem. A escritora tinha já mil páginas escritas no seu computador quando percebeu que tinha de dividir esse material em mais do que uma parte.

A escritora que nasceu em Trás-os-Montes, em 1964, foi viver aos seis meses para Luanda e regressou de Angola, com a família, durante a ponte aérea de 1975. Numa entrevista à SIC disse que o seu pai – que não estava em Portugal quando ela nasceu - enviou à sua mãe uma carta com sugestões de vários nomes para a bebé, entre eles Dulce e Eliete. A mãe não gostou de nenhum mas escolheu aquele que lhe pareceu o menos mau. “Crescer é de alguma maneira perceber que temos de abdicar de vidas e de alguma maneira a Eliete era uma dessas vidas”, contou a escritora.

Dulce Maria Cardoso, que em pequena não parava de inventar histórias, começou por escrever contos, que ia publicando dispersamente, passou depois à escrita de guiões cinematográficos. Em 1999 recebeu uma Bolsa de Criação Literária atribuída pelo Ministério da Cultura e daí resultou o seu primeiro livro, Campo de Sangue, que venceu em 2001 por unanimidade o Grande Prémio Acontece de Romance, que tinha sido instituído para assinalar o 50.º aniversário das edições Asa.

O júri era constituído pelos escritores Rosa Lobato de Faria, Francisco José Viegas e Tomás Vasques e ainda por Hugo Santos, e Manuel Alberto Valente, naquela época responsável editorial da ASA. Campo de Sangue começa assim: “Estão quatro mulheres na sala. Destas mulheres é preciso saber antes de tudo que estão aqui por causa de um homem que cometeu um crime e que se por acaso se encontrassem na rua não se cumprimentariam.” São elas a mãe, a senhoria, a rapariga bonita e a ex-mulher Eva. Nessa época, a crítica literária Maria da Conceição Caleiro escrevia no PÚBLICO que se tratava de uma “máquina literária prodigiosa, alucinada e segura”.

Seguiu-se, em 2005, o romance Os Meus Sentimentos que recebeu o Prémio da União Europeia para a Literatura. Foi nessa altura, que depois de ter perdido o ficheiro com o “manuscrito” que se viu obrigada a reescrever o que tinha perdido de memória. Método que a partir daí nunca mais largou. Este é um romance sobre a morte, que tem como personagem Violeta, uma mulher “física e comportamentalmente excluída”, que se “debate com o amor que não teve e o amor que não pode dar à filha, Dora”, como escrevia na época o crítico literário Pedro Sena-Lino.

Mais tarde, em 2009, publicou O Chão dos Pardais, um romance sobre uma mãe que perde o filho e lhe valeu o Prémio PEN Clube Português e o Prémio Ciranda.

Mas o seu grande sucesso editorial foi o romance O Retorno, de 2011, sobre a época da descolonização e uma reflexão literária sobre os 500 mil retornados que aterraram em Portugal em 1975, que recebeu o Prémio Especial da Crítica e foi considerado o Livro do Ano nos jornais PÚBLICO e Expresso. A tradução inglesa deste romance recebeu, em 2016, o English PEN Translates Award.

Porventura será o romance que lhe é mais próximo, pois a autora viveu aqueles factos históricos, mas a sua experiência pessoal foi completamente diferente daquela que retrata no livro que tem como personagem principal um rapaz adolescente, Rui, que vive provisoriamente com outros retornados num hotel de cinco estrelas no Estoril, com a mãe e a irmã, esperando o pai que ficou em África.

A obra de Dulce Maria Cardoso inclui ainda antologias de contos e literatura infantil e os seus livros estão traduzidos em várias línguas e publicados em mais de duas dezenas de países. Em 2012 recebeu do Estado francês a condecoração de Cavaleira da Ordem das Artes e Letras. Publica crónicas na revista Visão e parte delas já estão publicadas no livro Autobiografia Não Autorizada (Tinta-da-china).

O Encontro de Leituras junta leitores de língua portuguesa uma vez por mês e discute romances, ensaios, memórias, literatura de viagem e obras de jornalismo literário, na presença de um escritor, editor ou especialista convidado. É moderado pela jornalista Isabel Coutinho, responsável pelo site do PÚBLICO dedicado aos livros, o Leituras, e pelo jornalista da Folha de S. Paulo Eduardo Sombini, apresentador do Ilustríssima Conversa, podcast de livros de não-ficção.

O evento discute romances, ensaios, memórias e outras obras na presença de um escritor ou um especialista convidado e busca reunir leitores de língua portuguesa de diversos países.

Já participaram no Encontro de Leituras os escritores: Julián Fuks, Yara Nakahanda Monteiro, Paulo Scott, Benjamin Moser (o biógrafo de Susan Sontag), Fernanda Miranda e Tom Farias (investigadores da obra de Carolina Maria de Jesus), Ana Luísa Amaral, Giovana Madalosso, Paulina Chiziane, José Eduardo Agualusa, Tatiana Salem Levy, Afonso Cruz, Laurentino Gomes, Fernanda Torres, Afonso Reis Cabral, Jeferson Tenório, Marília Garcia, José Luís Peixoto, Nádia Battella Gotlib (a biógrafa de Clarice Lispector), ​Valter Hugo Mãe e Ondjaki. Os melhores momentos de cada sessão podem ser ouvidos no podcast Encontro de Leituras.

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