Crítica

Dulce Maria Cardoso: o retorno da personagem

Eliete, nas livrarias no dia 30, é o retorno da personagem-protagonista ao centro do romance, condição triunfal que a focalização interna da narração na primeira pessoa prodigaliza e acentua.

A primeira parte do romance de Dulce Maria Cardoso narra a “vida normal” de uma mulher de meia-idade e em crise
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A primeira parte do romance de Dulce Maria Cardoso narra a “vida normal” de uma mulher de meia-idade e em crise ENRIC VIVES-RUBIO

O que primeiro devemos dizer sobre o novo romance de Dulce Maria Cardoso (n. 1964) é que talvez seja precipitado e precoce dizer sobre ele o que quer que seja, pois chegamos ao fim das quase 300 páginas do volume sabedores de que apenas acabámos de ler a “primeira parte” de um livro intitulado Eliete, assim ficando suposta e prometida uma segunda parte, pelo menos (senão mesmo uma terceira). Acresce que termina esta parte primeira do romance — subtitulada A Vida Normal — com a irrupção supremamente romanesca de uma carta atribuída a António de Oliveira Salazar — “(assinatura ilegível)” —, carta essa que, além de nos reenviar para a abertura intempestiva do livro — “Eu sou eu e o Salazar que se foda.” —, autoriza-nos, pela sua condição disruptiva na acção, a esperar que haja uma evolução na descontinuidade na parte (ou nas partes) por vir de Eliete. Eis-nos, portanto, na paradoxal e problemática situação de podermos afirmar, simultaneamente, que (já) lemos e que (ainda) não lemos o mais recente romance da autora de O Retorno.

A segunda característica deste livro, que logo nos interpela, tem que ver com o título. Na vastíssima história da onomástica literária, é longa a lista das personagens que titulam romances, contos e novelas, e tal prática, sendo usual desde os alvores do romance moderno (lembremo-nos, por exemplo, de Moll Flanders, de Daniel Defoe, para nos mantermos apenas no âmbito de protagonistas femininas, que é o caso do romance de Dulce Maria Cardoso), é particularmente exuberante no século XIX, associada, sobretudo, ao romantismo e ao romance realista de análise social e psicológica: Jane Eyre, de Charlotte Brönte (Eliete sendo, curiosamente, uma espécie de anti-Jane Eyre), Emma, de Jane Austen, Daisy Miller, de Henry James, Madame Bovary, de Flaubert, Anna Karenina, de Tolstoi, Maria Moisés, de Camilo, etc. É claro que encontramos ainda no século XX alguns bons exemplos dessa política de títulos, como Mrs. Dalloway, de Virgina Woolf, mas digamos que a rápida perda de confiança no romance enquanto “biografia” de uma personagem (ou de várias) e a crescente indeterminação do género romanesco passaram a desaconselhá-la. No campo do romance português contemporâneo, poderíamos talvez citar Maina Mendes (1969) mas o livro de Dulce Maria Cardoso nada tem que ver com a árdua experimentação estrutural e de linguagem de Maria Velho da Costa, antes se inscrevendo gloriosamente e sem rodeios na linhagem do romance realista de Oitocentos. Eliete é o retorno da personagem-protagonista ao centro do romance, condição triunfal que a focalização interna da narração na primeira pessoa prodigaliza e acentua. Ainda que Eliete não seja menos “escandalosamente banal”, a propósito, do que aquele José Matias do conto epónimo de Eça de Queiroz.

A primeira parte do novo romance de Dulce Maria Cardoso narra a “vida normal” — a exterior e a interior, a material e a sentimental — de uma mulher de meia-idade e em crise, segundo a fórmula consagrada: “Nunca tendo sabido tratar desse bicho frágil e espantadiço a que chamavam felicidade, preocupava-me apenas em exibi-lo, deixara-o morrer à fome e à sede, mas continuava a exibir o seu cadáver, esperando que todos fizessem o favor de não me dizerem que haviam dado conta do mau cheiro.” (p. 249) Casada e com duas filhas adultas, Eliete é uma mulher do seu tempo e do nosso, ou seja, do tempo do Facebook, do Instagram, do Tinder e de outras “redes sociais”. Entre o início e o fim do volume decorrem cinco meses, mas Eliete — uma não-heroína “banal e desinteressante”, incapaz de “sonhar” e de representar sem má-consciência o papel que supõe estar-lhe destinado — fará nesse interim, entre o “episódio” hospitalar inicial que anuncia a progressiva perda de memória de sua avó, e espoleta inversamente a rememoração sentida da protagonista, e o achamento da carta de Salazar, uma evolução talvez surpreendente e dar-nos-á a ler vislumbres de quatro gerações de uma família de Cascais, daquela parte de Cascais que não é bem da Linha. Que evolui de uma remediada pequeníssima burguesia para uma irremediável medianíssima burguesia. Uma tristeza contentinha e sem fim. O romance continua, como dissemos no início. Esperemos pelo próximo capítulo.