Preços do gás acusam pressão da dependência russa e sobem 20%

A notícia de mais uma redução nos abastecimentos russos à Alemanha fez regressar os preços do gás para valores na casa 200 euros por MWh.

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Exportações de gás russo para a Alemanha voltam a cair esta semana Reuters/HANNIBAL HANSCHKE

O anúncio da Gazprom de que os fluxos de gás para a Alemanha vão descer para 20% da capacidade do gasoduto Nordstream 1 a partir de quarta-feira voltou a pressionar o preço da energia nos mercados internacionais e a ilustrar a instabilidade de preços que poderá marcar os próximos meses.

O contrato para Agosto do principal mercado europeu, o TTF (Title Transfer Facility), esteve ao longo do dia com uma valorização na casa dos 10% e a partir das 16h (hora de Lisboa) acelerou para um ganho de 20%, acima de 210 euros por megawatt hora na Intercontinental Exchange (ICE), o patamar mais elevado desde Março.

No caso do mercado ibérico Mibgas, o preço para Agosto estava a subir 3,6% para 135 euros/MWh.

É mais uma boa notícia para Moscovo e um golpe para os europeus, que esperam que o acordo político alcançado esta terça-feira no Conselho de Energia da União Europeia (UE) possa pôr um travão numa escalada insustentável de preços que tem vindo a penalizar os consumidores e as empresas europeias enquanto financia o Estado russo e a guerra contra a Ucrânia.

A agência noticiosa russa Tass também dava conta esta tarde do agravamento dos valores do gás na Europa, assinalando que os preços ultrapassaram os dois mil dólares por mil metros cúbicos pela primeira vez desde Março.

A Tass alega que o facto de o Nordstream 1 estar a funcionar a 40% da capacidade desde Junho (a transportar 67 milhões de metros cúbicos, que passarão para 33 milhões a partir de quarta-feira) deve-se ao facto de a Siemens se ter atrasado a devolver uma das turbinas que foi para manutenção “devido às sanções do Canadá contra a Rússia”.

Mas a versão russa dos acontecimentos não convence os líderes europeus, que se comprometeram esta manhã com um plano de poupança no consumo de gás na UE para os próximos meses e que voltaram a acusar Moscovo de usar a energia como arma.

“Temos de estar preparados para um corte do abastecimento russo a qualquer momento”, afirmou a comissária europeia da Energia, Kadri Simson.

A manutenção dos preços elevados do gás vai continuar a inflacionar os preços da electricidade (Portugal e Espanha têm em vigor um mecanismo excepcional de tecto de preços que mitiga este efeito) e a encarecer os custos de produção de muitas indústrias, aumentando os riscos para as economias europeias.

De acordo com Bruxelas, os níveis de armazenamento de gás natural na UE rondam os 66% e alguns países ainda têm um longo caminho pela frente para encherem as suas reservas até ao nível proposto pela Comissão, que é de 80% em Novembro.

Tendo em conta os futuros do TTF, que em alguns casos registavam subidas acima de 12%, constituir reservas de gás nos próximos meses será uma tarefa cara.

Os contratos negociados na Intercontinental Exchange estão a apontar para valores de 200 euros por MWh nos restantes meses de 2022 e no começo de 2023, e só começam a aliviar já na Primavera, nos 163 euros/MWh em Abril.

A tendência de subida dos futuros está a verificar-se também no mercado norte-americano, onde o contrato para Agosto chegou a subir 11%, para o valor mais elevado desde 2008, impulsionado pelo aumento do consumo energético por causa do calor. Poderá tratar-se do mês com os preços mais elevados de sempre, noticia a CNBC.

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