Tinta Grossa ou Tinta da Nossa, orgulhosamente da Vidigueira

Quando a maior área de produção de determinada casta autóctone do Alentejo se mede em 3,5 hectares, isso diz muito sobre como tratamos o nosso património vitícola.

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As vinhas de Paulo Laureano, no Alentejo. DR

Como as modas em geral colocam problemas na medição precisa do tempo, comecemos por dizer que Paulo Laureano decidiu trabalhar apenas com castas portuguesas há 16 anos. Na altura, sendo consultor em diferentes regiões que exploravam inúmeras castas estrangeiras isso causou estranheza, mas, em 2022, continua a pensar que a decisão foi correcta e estratégica.

Ao telefone a partir de Singapura, onde se encontrava a promover os seus vinhos, Paulo Laureano reconhece que “dá mais trabalho ensinar aos estrangeiros o que são as castas e os terroir portugueses (os nomes podem ser um pequeno problema), mas como o negócio do vinho é algo que exige paciência, é só uma questão de acrescentar mais uma variável à equação – explicar tudo com calma”.

E continua. “Se estamos todos de acordo com a necessidade de valorizar e diferenciar os vinhos portugueses nos mercados externos, isso só será possível perante targets com algum poder de compra. Ora, esses targets podem não conhecer os vinhos portugueses, mas estão dispostos a parar perante um expositor onde estão vinhos únicos e com identidade vincada. E é aqui que entram as castas portuguesas. Não saberão pronunciá-las à primeira ou à segunda, OK, mas se gostarem dos vinhos farão um esforço. Castas desconhecidas, antigas e de um país com história, são trunfos, não são obstáculos”.

No portefólio da marca Paulo Laureano, o vinho Tinta Grossa é um caso peculiar, não apenas pelo vinho em si, mas pelo facto de mais nenhum produtor alentejano se ter interessado pela casta nos últimos anos, sendo que a primeira produção deste varietal data de 2006.

O abandono da casta deve-se às suas exigências do ponto de vista vitícola (tem muito vigor), pelo que, nos anos 90 foi arrancada em grande escala. “Sucede que, por via do peso destas uvas na feitura dos lotes de vinhos de talha – onde dava frescura e exotismo – ou por via dos ensaios que fiz na Universidade de Évora, sempre me interessei pela casta. De maneira que quando comprei as vinhas na Vidigueira, e descobri uma pequena mancha de Tinta Grossa, comecei logo a multiplicá-la, não apenas por gostar dela, mas por descobrir como as pessoas antigas a chamavam: Tinta da Nossa, o que significa que muita gente tinha orgulho no carácter único e regional da casta”.

Com 3,5 hectares de Tinta Grossa, Paulo Laureano é o maior produtor de uvas desta casta, o que se traduz num retrato imaculado do disparate que o sector promoveu a partir dos anos 90, arrancando tudo a torto e direito e afunilando os seus vinhedos em meia dúzia de castas, sem que houvesse um mínimo cuidado – do ponto de vista empresarial e institucional – da preservação de manchas das castas autóctones.

Paulo Laureano está a aumentar a área de Tinta Grossa e está a planear aumentar a área com Perrum, outra casta alentejana e importante na Vidigueira, que foi praticamente posta de parte. Com excepção da Adega Cooperativa da Vidigueira, não nos ocorre outro produtor que apresente um vinho varietal da casta, “e todos sabemos que ela é importante para manter a acidez nos brancos de regiões quentes. É mais difícil de trabalhar? É, mas dá vinhos com identidade e é isso que me interessa”.

Crítica

Nome Paulo Laureano Selectio Tinta Grossa 2015

Produtor Paulo Laureano Vinhos

Castas Tinta Grossa

Região Alentejo, Vidigueira

Grau alcoólico 14,5 por cento

Preço (euros) 25

Pontuação 90

Autor Edgardo Pacheco

Notas de prova Tivesse este vinho sido provado às cegas e é bem provável que avançássemos que se tratava de um Castelão ou de um Trincadeira (por causa dos frutos vermelhos e certas notas vegetais), ou até de um Alicante Bouschet (com menos cor e corpo, é certo) por causa de aromas de bosque. Na boca, sabores de frutos maduros, fresco e sedoso. Alentejano quanto baste.

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