Novo Cairo: a nova capital do Egipto ou a capital da desigualdade?

A nova capital do Egipto foi construída em pleno deserto, a 37 quilómetros do Cairo. Com um orçamento de 58 mil milhões de dólares, a Nova Cairo é uma construção absolutamente faraónica.

Foto
Cairo, Egipto EPA/KHALED ELFIQI

A cidade do Cairo vai deixar de ser a capital do Egipto. O presidente Abdel Fattah al-Sisi empreendeu a construção de uma Nova Capital Administrativa, uma cidade absolutamente megalómana, onde só as elites terão lugar. Uma estratégia do actual regime para concentrar o poder e impedir manifestações similares àquelas que aconteceram durante a Primavera Árabe, em 2011.

A actual capital do Egipto não tem casas a medir para todos os seus habitantes. Num país onde a população já ultrapassou a barreira dos 100 milhões, o Cairo conta com mais de 20 milhões de habitantes, tornando-se assim na cidade mais povoada do continente africano. Sem um ordenamento sustentável por parte do governo, e sem melhores opções, os seus habitantes acabaram por se espalhar por toda a parte.

A falta de organização urbana da cidade teve um papel preponderante nos protestos de 2011, que levaram à queda do regime de Hosni Mubarak. Durante os confrontos, várias esquadras da polícia foram ocupadas e pilhadas por manifestantes. A sua localização, maioritariamente em bairros de lata, facilitou a ocupação. Estes ataques colidiram com o esgotamento das Forças de Segurança e com o sucesso das rebeliões.

O actual presidente Sisi, e líder do presente regime, sabe que a cidade do Cairo é insustentável e que a própria organização favorece confrontos em massa. E foi esta a razão que levou o presidente a construir uma Nova Capital Administrativa, num esforço para fortalecer o regime e afastar qualquer tipo de insurgências.

A nova capital do Egipto foi construída em pleno deserto, a 37 quilómetros do Cairo. Com um orçamento de 58 mil milhões de dólares, a Nova Cairo é uma construção absolutamente faraónica.

O complexo administrativo conta com todos os ministérios dispostos lado a lado, ao longo de uma enorme avenida, com o Parlamento e o Banco Central nos extremos. A zona Norte será a base da residência presidencial, com múltiplos palácios e jardins dedicados ao presidente Sisi.

Mas a parte mais surpreendente da cidade está reservada à instituição mais poderosa do Egipto, o exército. O Ministério da Defesa foi construído sobre a forma de octógono com 10 edifícios. Assim que estiver construído, este será o maior complexo de defesa de todo o mundo, ultrapassando mesmo o tamanho do Pentágono nos Estados Unidos.

Mais do que a simples construção de uma cidade, a Novo Cairo representa uma reestruturação urbana do regime. Os centros residenciais da nova capital oferecem apartamentos no valor de 60 mil euros, um valor absurdo num país onde o PIB per capita chega aos 3 mil euros. Esta nova capital pretende isolar a maioria dos cidadãos dos centros políticos e construir uma cidade para elites.

Junto aos complexos de habitação existirá também um enorme parque verde, com cerca de seis vezes o tamanho do Central Park, nos Estados Unidos, e com um rio artificial inspirado no Nilo. Mais do que uma cidade inovadora, a nova capital será um símbolo de desigualdade social.

Em 2030 prevê-se que um enorme obelisco, em homenagem à antiga civilização egípcia, esteja construído. Se assim se verificar, este tornar-se-á na mais alta construção do mundo, com exactamente um quilómetro de altura.

Este empreendimento megalómano visa, acima de tudo, fortalecer o regime e conter possíveis revoltas urbanas, similares às que aconteceram em 2011. O povo representa a maior ameaça ao regime — são estes que irrompem greves, iniciam confrontos e desencadeiam manifestações.

A nova capital do Cairo é um tampão demográfico com o objectivo de afastar a população dos centros de poder e de centralizar a riqueza. Assim, os pobres permanecerão no Cairo, entregues a uma cidade insustentável, saturada e sem recursos, onde será impossível viver com dignidade. A Nova Capital Administrativa do Cairo é uma cidade paga por todos, mas apenas acessível às elites.

Um colossal empreendimento que não passa de uma estratégia militar que pretende impedir uma segunda Primavera Árabe.

Sugerir correcção
Ler 1 comentários