Sabemos demais para ter certezas, sabemos demais para que nos perguntem

Ouvir vozes de uma forma ou de outra é natural, assim como ter uma doença mental… pode acontecer a qualquer um. Às pessoas que ouvem vozes devemos atentamente escutar e nelas acreditar. Não é por não acontecer a nós que devemos duvidar.

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Neste texto do projecto Ouvir Vozes, o palco é de quem tem a experiência na primeira pessoa como ouvidora. Este conjunto de testemunhos escritos por alguns elementos do Colectivo Rádio Aurora levam a quem lê as suas reflexões e mesmo questionamentos sobre o que é viver este fenómeno.

- Gostava de compreender qual é a origem das vozes que ouvimos dentro da nossa cabeça. Todas as pessoas ouvem vozes. O pensamento, por exemplo, é uma voz permanente que temos dentro de nós…

- Não sou esquizofrénico, porém tenho vozes dentro da minha cabeça. Vozes que provêm da minha vida. Das más vivências, traumas e críticas. Vozes que me acompanham em tudo o que faço. Vozes que não consigo parar por mais estratégias que arranje. É demasiado material radiactivo. O que faço? Oiço-as e vivem comigo. Por vezes alteram as minhas atitudes. Dizem-me coisas para e como fazer.

- Eu compreendo a minha condição como uma cisão na minha personalidade. Digamos que tenho uma divisão na minha mente. Dividido então, em dois, poder-se-ia pensar que era uma coisa diferente, agradável até. Mas, cada uma destas divisões consegue também, por meio de certas ocasiões, dividir-se a si mesma, tal como uma célula que se divide ou multiplica. O problema é que eu não encontro, nunca encontrei uma maneira de pôr estas personalidades a agir uma de acordo com a outra… encontro então estados inferiores, e esses são impossíveis de controlar, pois têm as suas próprias maneiras de ser, ignorando o bem-estar do corpo que os alberga. Portanto, uma divisão em dois; depois, cada um(a) dos dois tem as suas próprias divisões; e será assim, até ao fim?

- As presenças. Como se não estivesse só. Como se estivesse continuamente acompanhado, mentalmente, por presenças de pessoas do passado e do presente. Como se tivesse que provar alguma coisa a alguém. Os diálogos internos com essas presenças. Não sei. Não sei calá-las. É um sofrimento contínuo. Mas o que realmente são estas vozes? E como surgem? Ora, a nossa imaginação é muito fértil se não estivermos focados em algo, como estudar ou algo mais específico. Consigo perceber que elas não têm grande impacto nessas situações. O problema é que mesmo estudando sou confrontado com elas… em tom mais baixo. Aí torna-se um problema maior, porque mesmo nessa estratégia dita infalível, até aí elas me perturbam. Imaginem-se a viver com um siamês. Esse siamês está constantemente a falar-vos ao ouvido, a criticar, a ordenar, a gozar, a rir-se no vosso ouvido. Estarei pronto para ter alguém na minha vida se não consigo sequer controlá-la? Como seria partilhar a vida com alguém que compreendesse os meus anseios e fúrias?

-Mas todos ouvimos vozes nos nossos sonhos e muitas vezes, vivemos os sonhos como realidades, que frequentemente recordamos, outras não, e muitas aparecem-nos mais tarde, como sonho que do Nada vem à cabeça como realidade passada ou como dejá vu. Também temos situações em que falamos sozinhos sem perder a noção do que estamos a fazer, mas como forma de organizarmos o pensamento ou até só por solidão. Muitas pessoas só para poderem ouvir uma voz, nem que seja a própria ou pela necessidade de falarem e não terem com quem.

- Talvez que, se as diferentes facções que guardo em mim, que vivo em mim, tomassem conhecimento de si próprias, talvez que poderíamos até desenvolvermo-nos física e mentalmente. O problema é que a minha condição é tida como um problema dentro e fora de mim. Portanto é frequente assistir em mim, a todos os patéticos esforços de cada facção para tomar o papel primordial e assumir a sua liderança. Claro que os estados que tenho vindo a vivenciar aconteçam sem a minha participação. Eu continuo, como sempre fiz, vivendo empurrado, encurralado, dentro de mim. Fechado na parte de trás da minha mente, sem a mínima oportunidade de ter algo que possa ser considerado uma vida, uma existência.

-Não sei o que é viver sem medicação e também não sei o que é viver sem estas vozes. Sei de quem são todas as vozes. Todas elas têm uma impressão digital. É delicado, mas tentei pará-las um dia. Uma noite. Tentei calá-las calando-me a mim também. Estas vozes são um coleccionar de pessoas que se atravessaram no meu caminho durante a minha vida. Mas era suposto que vivessem eternamente dentro de mim? Era suposto eu sofrer com a presença delas?

- Penso que a experiência de ouvir vozes varia muito de pessoa para pessoa e embora em muitos casos seja perturbadora, também pode ser uma coisa boa. E a meu ver, só o próprio sabe o que isso significa para si. No entanto nem sempre sabe o que fazer ou qual a melhor atitude a ter. Em última instância cabe a cada um decidir se essas vozes quer ouvir. Considero extremamente importante e útil a partilha de experiências de ouvir vozes. Creio que pode ser muito enriquecedor e libertador. Ouvir vozes de uma forma ou de outra é natural, assim como ter uma doença mental… pode acontecer a qualquer um. Às pessoas que ouvem vozes devemos atentamente escutar e nelas acreditar. Não é por não acontecer a nós que devemos duvidar. Mesmo o aparentemente impossível e extraordinário pode acontecer e ter o seu lugar.