Mar Português – uma fonte inesgotável de valor

É indelével a alma marítima de Portugal que atravessa séculos e serve de inspiração à literatura e cultura portuguesas desde a arte à gastronomia.

“E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português”

Mar Português, Fernando Pessoa

Assinala-se na última semana de setembro o Dia Mundial do Mar, uma data criada em 1978 pela Organização Marítima Internacional, agência das Nações Unidas. A data pretende alertar para a importância de um desenvolvimento marítimo seguro e eficiente e da proteção dos mares e dos oceanos, essenciais para a vida no planeta e para a sociedade. A beleza natural, riqueza mineral e centenas de milhares (238 700, Fundação Oceano Azul) de espécies marinhas habitante do mar são elemento de fascínio que exigem proteção e valorização apoiadas no conhecimento científico, e numa economia azul sustentável, circular e inclusiva, alinhado com o Pacto Ecológico Europeu.

É indelével a alma marítima de Portugal que atravessa séculos e serve de inspiração à literatura e cultura portuguesas desde a arte à gastronomia. Com uma linha de costa de cerca de 2500 km, incluindo uma das maiores zonas económicas exclusivas do mundo que se estende por 1,7 milhões de km2 (Estratégia Nacional para o Mar 2021-2030) Portugal goza de um espaço de excelência que conjuga valores naturais únicos com uma grande ocupação humana. A importância da preservação da biodiversidade e da integridade dos ecossistemas e recursos e da prevenção da acidificação e poluição destas zonas, na promoção da qualidade de vida dos cidadãos e nas respetivas economias, implica uma atenção redobrada na sua gestão e desenvolvimento. Urge contribuir para a sua proteção, gestão e conservação alavancando a sustentabilidade das dinâmicas da orla costeira em termos ambiental, económico e social suportadas na tecnologia, conhecimento científico e inovação. Todos os intervenientes são interpelados a agir de forma articulada e colaborativa num modelo multi e interdisciplinar desde as universidades, centros de investigação, indústria, empresas, associações do sector, entidades da Administração Pública e a sociedade civil. São já vários os projetos relevantes neste domínio da multidisciplinaridade, como são o ValorPeixe, o ValorMar e o CVMar+i, com enfoque na valorização de recursos marinhos e seus subprodutos através do desenvolvimento de novos produtos com aplicações na alimentação animal e humana, cosmética, materiais e biomédica, farmacêutica, têxtil ou mesmo agricultura.

A necessidade de combinar a gestão sustentável dos recursos marinhos com ações decisivas para recuperar o valor intrínseco das perdas, processamento de resíduos e subprodutos marinhos é também cada vez mais premente. A magnitude das rejeições anuais na pesca de captura marinha global foi estimada em 9,1 milhões de toneladas (FAO, 2019). A filetagem, salga e defumação de pescado geram a maior quantidade de resíduos sólidos e subprodutos (50-75% do pescado), seguido do enlatamento de pescado (30-65% do pescado) e o processamento de crustáceos e moluscos (20-50%). A aplicação do princípio da economia circular, “reutilizar subprodutos e resíduos para criar valor”, é um compromisso das cadeias de valor da pesca, da aquacultura e do processamento de pescado, para desenvolver produtos marinhos de base biológica de alto valor com grande impacto económico e pegada ambiental reduzida. O valor intrínseco destes subprodutos permite a geração de novas moléculas, ingredientes e produtos de elevado valor, onde a Biotecnologia Azul tem sido determinante para permitir a diversificação de novas abordagens e soluções inovadoras. O desenvolvimento de tecnologias novas e limpas destinadas a uma recuperação mais eficiente e de menor impacto ambiental tem acompanhado igualmente esta nova área em crescimento. Atualmente esta valorização engloba, de forma crescente, as algas, microalgas, ou plantas marinhas, sendo que alguns compostos de alto valor agregado recuperados destas fontes são economicamente mais atrativos do que os próprios produtos-alvo.

Esta valorização integrada levará ao desenvolvimento de processos cada vez mais lucrativos e geradores de produtos de maior valor, constituindo uma estratégia central para a sustentabilidade a longo prazo do mar e da qualidade de vida da sociedade portuguesa.

As autoras escrevem segundo o novo Acordo Ortográfico