Cartas ao director

O papel do humor

Ouvi com perplexidade um destacado comentador a considerar Ricardo Araújo Pereira “o melhor comentador político português”. Mesmo descontando a hipérbole, é perigoso confundir puro humor com comentário político. Ao contrário do que se espera do comentário político, o humor não está obrigado a qualquer espécie de rigor argumentativo ou preocupação em considerar diferentes perspectivas, não tem regras, apenas importa o ter piada (o que RAP habitualmente consegue de forma exemplar). Um exemplo de bom comentário político é o texto de sábado de São José Almeida: uma análise séria a uma questão bem contextualizada, com alguma dimensão opinativa, relativamente à qual, não se concordando, estabelece de qualquer modo um bom ponto de partida para posterior debate. Não está em causa desprezar a importância do humor para a sensibilização política, mas o que o tipo de humor em causa permite é sinalizar.
Achar que uma montagem de vídeo com piada é um bom comentário político é mais uma acha para alimentar a superficialidade de análises que abundam por todo lado.
João Silva, Lisboa

Portugal no seu melhor

Em certos bairros ou zonas de alguns concelhos do Grande Porto, e imagino que também do resto do país, muitas habitações pagam apenas metade ou menos da energia eléctrica que consomem. Isto porque alguns electricistas e mesmo técnicos da EDP, a troco de 120 euros, colocam um by-pass ao contador. Previna-se porque no inverno a procura destes serviços aumenta. 

Ainda na EDP, e todos conhecem as histórias do antigamente, dos engenheiros aos técnicos, todos ganham com os licenciamentos de construção ou com  avarias em restaurantes e comércio. Quem quer rapidez paga mais, quem não quer paga na mesma, mas menos. 

O mesmo acontece na água, pelo menos no Porto e Vila Nova de Gaia. Por 50 euros põe-se o contador a andar para trás, caso precise de encher a piscina ou regar a horta com água da companhia. Mas não são todos os picheleiros que sabem a manha. Investiguem, senão só pagam alguns. 

Zulmiro Silva, Porto

Impensável mas aconteceu mesmo

Como é possível que as Infraestruturas de Portugal tenham retirado os aparelhos que possibilitavam a mudança de linha de comboio da estação ferroviária de Albergaria-a-Velha, pertencente à linha do Vouga, sem que tenham avisado a CP de que jamais poderiam voltar a fazer cruzamentos de comboios naquela estação? E assim o que era necessário efectuar a 7 de Setembro e foi mandado executar não conseguiu ser realizado. Mas este país está louco ou cada um faz o que quer? Quem cometeu o lapso anteriormente referido foi castigado? Ou será que foi louvado?

Cada vez entendo menos a forma como os erros graves são sancionados e como os factos altamente positivos são louvados. Queremos um país medíocre onde o erro é compensado da mesma forma que o mérito? Será que esta filosofia tem por finalidade proteger, ainda que indirectamente, os políticos incompetentes que, infelizmente, são a maioria? Tenho dúvidas na resposta a dar. Pena é que os exemplos de rigor, competência, isenção e independência política demonstrados por alguns, como recentemente pelo vice-almirante Gouveia e Melo, não sejam a maioria e um objectivo para a maioria dos políticos actuais, mais influenciáveis pela cunha, pelo “cartão” e pela ausência total de independência. Quando mudará a mentalidade dos políticos portugueses, uma vez que as juventudes partidárias actuais nada mais querem que o “tacho” e desde muito cedo trabalham para ele? Chegará esse dia?

Manuel Morato Gomes, Senhora da Hora

Autárquicas e “bazuca” europeia

É público e notório que o primeiro-ministro António Costa está a fazer a campanha do PS às autárquicas, invocando o Plano de Resolução e Resiliência (PRR) da União Europeia, para apelar ao voto nos candidatos do PS como se as verbas deste plano fossem distribuídas pelo governo central aos amigos. Este abuso do secretário-geral do PS e chefe do Governo ser, além de ilegal e antidemocrático, é fraudulento. Sabemos que a distribuição destas verbas pelo Estado depende dos Orçamentos do Estado e nestes, das áreas a que se destinem, aprovadas na Assembleia da República. Assim, os dinheiros do PRR serão destinados aos serviços públicos e empresas que tiverem capacidade para fazer os respectivos projectos de investimento. Nesta perspectiva, as câmaras ganhas pelos partidos e forças políticas é que irão fazer os projectos para inserir os investimentos do PRR. Em conclusão, será vantajoso votar nos candidatos do PS com base no que diz o primeiro-ministro? Julgo que não.

Mário Pires Miguel, Reboleira