O Arco do Triunfo já está empacotado

L’Arc de Triomphe, Wrapped é uma instalação temporária que vai ser inaugurada no próximo sábado e dura apenas 16 dias.

Há quem veja a obra de arte como um presente de Natal antecipado. Outros como uma instalação de outra época, anterior às preocupações com a crise climática. O certo é que a visão para o Arco do Triunfo de Christo e de Jeanne-Claude tornou-se visível este fim-de-semana em Paris, com os 25 mil metros quadrados de tecido reciclado a começarem a cobrir as faces de um dos monumentos mais famosos da capital francesa, rumo ao empacotamento completo, o objectivo desta instalação póstuma que deverá estar finalizada a 18 de Setembro.

Os jornais franceses descrevem o sucesso da operação de embrulho com uma ampla publicação de fotos e vídeos que foram sendo disponibilizados nas redes sociais a mostrar alguns dos 95 “cordistas” envolvidos em poses sugestivas no topo do Arco do Triunfo. Grandes panos de tecido caíam lentamente sobre as paredes do monumento que começou a ser construído em 1806 para celebrar as vitórias militares de Napoleão Bonaparte. Com 50 metros de altura, o Arco do Triunfo está a ser coberto com polipropileno prateado e será agora apertado por três mil metros de corda vermelha. 

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Anos na memória

O projecto de Christo e da sua mulher Jeanne-Claude começou a ser desenhado em 1962, mas acabou por ser abandonado porque o casal, que passou a assinar em conjunto a partir de 1994, nunca acreditou que conseguiria a autorização necessária das autoridades que gerem o património francês. Depois da morte da mulher em 2009, o artista de origem búlgara, desaparecido em Maio do ano passado, apresentou o projecto ao Centro dos Monumentos Nacionais francês, que o aprovou como um testemunho do seu envolvimento com a criação contemporânea, numa operação apadrinhada pelo Centro Pompidou que preparava uma exposição sobre Christo. 

L'Arc de Triomphe, Wrapped é uma instalação temporária, com a duração de apenas 16 dias, na longa tradição dos seus projectos efémeros de arte pública, capazes de criar novos ambientes e interrogar a relação da arte com a paisagem ou o contexto urbano. O casal de artistas conceptuais embrulhou outros monumentos — Pont-Neuf, também em Paris (1985), ou o Reichstag, em Berlim (1995) —, mas também fez instalações flutuantes, como The Floating Piers, um passadiço que em 2016 permitiu caminhar sobre água no Lago Iseo, em Itália. São sempre instalações temporárias de projectos que levam décadas a conceber e a produzir, mas que são capazes de perdurar anos na memória dos espectadores. 

Tal como os seus anteriores embrulhos famosos, o projecto para Paris, que tem um orçamento de 14 milhões de euros, é inteiramente autofinanciado e não recebe fundos públicos, explica o site dos artistas. Financia-se através da venda de obras originais de Christo, desde desenhos preparatórios a colagens, pequenas maquetes, passando por litografias. 

“Hoje [domingo], é um dos momentos mais espectaculares da instalação. O Arco do Triunfo empacotado começa a tomar forma e aproxima-se da visão de Christo e Jeanne-Claude que foi o sonho de uma vida”, afirmou Vladimir Yavachev, o sobrinho do artista que acompanha o projecto, citado pelo jornal Libèration

Questões ambientais

O empacotamento, previu o casal de artistas, vai transformar o arco num objecto vivo, animado pelo vento e pelo reflexo da luz, com a superfície do monumento a ganhar um contorno sensual. Foi em 1962 que Christo assinou, pela primeira vez, uma fotomontagem do monumento embrulhado, uma ideia que surgiu quando habitava o seu primeiro apartamento em Paris, situado na avenida Foch, que parte do Arco do Triunfo. 

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No sábado, antes de começar o lado mais espectacular da operação, o jornal Le Monde publicou um artigo de opinião apelando a que se reflicta sobre estes objectos artísticos que glorificam o empacotamento, um símbolo da sociedade de consumo. Assinado pelo arquitecto Carlo Ratti, amigo dos artistas, o artigo intitulado “Para honrar Christo, desempacotem o Arco do Triunfo!” perguntava se, no plano ambiental, nos podemos permitir desperdiçar 25 mil metros quadrados de tecido. “A indústria da moda é responsável por 10% das emissões mundiais de carbono e o processo de produção de tecidos é o segundo maior consumidor de água do mundo onde o stress hídrico afecta 2,7 mil milhões de pessoas. [...] Envolver o Arco do Triunfo em tecido reciclado não chega.”