Joar, o “encantador de vacas”, abraça animais da quinta para mostrar que sentem como nós

Depois da vida em grandes cidades, tornou-se insuportável continuar longe da natureza. Joar Berger fez as malas e fundou um santuário na Alemanha, onde os animais de quinta são acarinhados e não têm de “gerar lucro”.

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Dagi, Joar e Emma Tanja(Fotohase)

Joar e Rexi eram os melhores amigos. Numa pequena vila alemã, passavam juntos os tempos livres, todos os dias. Caminhavam, deitavam-se em pastos que pareciam não ter fim, e, ao final do dia, Rexi carregava Joar às costas, até casa. Joar Berge, ainda criança, não sabia como educar uma vaca, mas a comunicação entre ambos era intuitiva, natural.

Joar e Rexi, na quinta da casa de infância de Joar. Joar Berge/Moustache Farmer
Joar Berge/Moustache Farmer
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Joar Berge/Moustache Farmer

Num dia igual a todos os outros, Rexi deixou a quinta, e não voltou, como acontece a todas as vacas em explorações leiteiras. Nessa altura, o seu melhor amigo era novo demais para descobrir como a resgatar. Já jovem adulto, a cidade tornou-se atraente, muito mais do que o campo, e, durante vários anos, Joar viveu em grandes cidades na Alemanha e em França.

A memória da ligação aos animais e à natureza, contudo, não o abandonava. E, ainda que adorasse viver na cidade, sabia que voltaria a ter uma quinta, como na casa da sua infância. O desejo de regressar tornou-se, aos poucos, insuportável. Por isso, voltou à terra natal e resgatou dois bezerros: Emma e Dagi.

Desde então, Joar, mais conhecido como Moustache Farmer (em português, “Agricultor de Bigode") ou “encantador de vacas”, dedica a sua vida aos animais e vive rodeado pela natureza.

“Vivo dias muito intensos que me dão pequenos momentos de muita alegria”, escreve, no seu site. “Começam quando troco de roupa para entrar na quinta e o cheiro do estábulo chega até mim, e continua com a redescoberta de cheiros, plantas e animais que tinha esquecido completamente, mas que ainda me são tão familiares.”

A ligação com os animais e, em particular, com as vacas, levaram-no a um estilo de vida vegan, que diz ser um processo natural quando se olha os animais nos olhos, e não de cima para baixo.

Em 2020, juntou-se a amigos preocupados com as mesmas causas e fundou o santuário animal Lebenshof Odenwald e.V., uma associação sem fins lucrativos.

“Oferecemos a animais que, de outro modo, não teriam tido tanta sorte um lugar seguro para viver sem que tenham de gerar qualquer lucro”, explica Joar. “Os animais são tratados e mantidos em ambientes apropriados para cada espécie, conforme as nossas possibilidades.” Além das vacas Emma e Dagi, no santuário também vivem porcos, galinhas, póneis, coelhos, cães e veados.

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Joar a passear com Dagi e Emma. Tanja (Fotohase)

Joar diz ser uma missão pessoal mostrar aos outros “como são maravilhosos os chamados animais de quinta”, que têm, como os humanos, diferentes personalidades, emoções e sentimentos.

“Perguntam-me muitas vezes se é um modo de vida tão belo como imaginava. Não, não é”, começa por revelar. “É muito mais bonito. A natureza e os animais impressionam-me todos os dias. Tudo isto me ensina a ser paciente, a estar atento ao meu redor, muda a minha perspectiva sobre tanta coisa.”