O farmacêutico na vacinação covid-19: oportunidade ganha ou perdida?

A questão, no momento actual e atendendo à estrutura do SNS português, não deveria ser sobre a administração destas vacinas em farmácias, mas sobre o contributo que os farmacêuticos comunitários (e também os hospitalares) poderiam ter dado, por exemplo, nos centros de vacinação.

1. Passados sete meses após o início da vacinação covid-19, é hoje indesmentível que foram postos grandes desafios à capacidade de organização e de liderança por parte dos farmacêuticos portugueses. Sem mediatismo, é certo. Mas fazendo face a solicitações diárias, fruto da evolução bastante rápida dependente de muitas variáveis (disponibilidade de vacinas, definição de grupos prioritários, política de comunicação, entre outros). Reorganizaram-se equipas em tempo recorde com o objectivo de garantir a vacina mais adequada a cada cidadão, respeitando elevados critérios de qualidade, segurança, eficácia e de equidade no acesso. Mas neste momento, emerge a pergunta: que balanço da intervenção farmacêutica?

2. Em diferentes contextos assistenciais (Hospitais e Centros Hospitalares, Administrações Regionais de Saúde, Unidades Locais de Saúde), os farmacêuticos garantiram o funcionamento do circuito das vacinas que, não esqueçamos, são medicamentos. Organizaram a recepção e o armazenamento das vacinas, tendo em consideração a rede de frio e o respeito pelas Boas Práticas de Distribuição. Providenciaram o equipamento necessário: um exemplo simples, mas ilustrativo, é a aquisição em massa de seringas com reduzido volume morto, de modo a rentabilizar a preparação das doses, evitando o desperdício e obtendo maiores níveis de eficiência no processo. Assumiram a responsabilidade da preparação de vacinas a nível intra-hospitalar de forma exemplar, bem como todos os registos necessários, devidamente articulados com os serviços de saúde ocupacional e órgãos de gestão.

Mas para além destas funções clássicas da actividade farmacêutica, outras tarefas muito relevantes, de natureza clínica e formativa, foram desenvolvidas por estes profissionais: elaboração de documentos de apoio, participação em comissões técnicas e de gestão da vacinação (a nível local e nacional, incluindo a task-force militar), farmacovigilância (notificando reacções adversas, colaborando com outros profissionais de saúde). E onde os farmacêuticos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) não podiam chegar, mercê da crónica falta de recursos humanos, foram ainda assim capazes de formar equipas a nível local de forma rápida e assertiva, incluindo a nível de Estruturas Residenciais para Idosos e da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados.

3. E na comunidade? Muito para além de todo o contexto inicial, marcado pela desconfiança e falta de diálogo, há-de reconhecer-se, neste momento, que foram os farmacêuticos comunitários a linha da frente no esclarecimento sobre as diferentes vacinas, adoptando uma linguagem ajustada aos utentes de quem estão próximos, assumindo a liderança na prevenção da doença e na promoção da saúde pública. Complementarmente à vacinação, e apesar de dificuldades na sua implantação no terreno, a disponibilização de testagem rápida e de equipamentos de protecção individual foi um aspecto muito relevante no controlo da pandemia. Impõe-se este reconhecimento a nível não apenas da sociedade, mas também dos decisores políticos.

Paralelamente ressalta outro facto, que deve constituir ensinamento futuro: o debate inicial sobre a participação dos farmacêuticos na vacinação não foi conduzido nos devidos termos. A questão, no momento actual e atendendo à estrutura do SNS português, não deveria ser sobre a administração destas vacinas em farmácias, mas sobre o contributo que os farmacêuticos comunitários (e também os hospitalares) poderiam ter dado, por exemplo, nos centros de vacinação, permitindo às equipas de enfermagem maior eficiência e libertando alguns destes profissionais para garantirem a actividade assistencial nos Cuidados de Saúde Primários.

4. Passado este tempo, começamos a ter algumas certezas. Estamos perante variantes mais infecciosas. Depois de cumprir os objectivos gerais de vacinação, é necessário atender aos primeiros grupos a ser vacinados. A quantidade de anticorpos em circulação diminui ao longo do tempo, e por isso estes grupos têm menor capacidade imunológica e estão mais susceptíveis. O investimento na sequenciação genética e nos serviços laboratoriais de imunologia é um factor essencial para gerar dados que permitam decisões em saúde informadas e fundamentadas. Neste âmbito, a valorização dos farmacêuticos analistas clínicos (muitos deles, inexplicavelmente, desconsiderados como grupo prioritário na vacinação) é uma necessidade premente, para apoiar os colegas de outras áreas de actuação, incluindo a Indústria Farmacêutica e os Assuntos Regulamentares. Estes dados analíticos serão muito importantes para a melhoria das vacinas já existentes (ou para o surgimento de outras) e para sustentar a sua aprovação legal em tempo útil.

5. Perante o facto de que a intervenção farmacêutica permite vacinar mais com menos doses, proporcionando ganhos em saúde, o que falta para a efectiva valorização destes profissionais? Porque é que as suas reivindicações são eludidas pelos responsáveis políticos e por algumas hierarquias técnicas do SNS? A verdade é que os farmacêuticos são os grandes desconhecidos do sistema de saúde, apesar do seu Acto Profissional estar claramente definido há vinte anos. Qual a sua intervenção no espaço público, para além dos aspectos técnico-científicos?

Neste momento de viragem, inclusivamente em termos de identidade profissional liberal, duas coisas se impõem: um verdadeiro ensino clínico das Ciências Farmacêuticas (que permita desde cedo o trabalho com outros profissionais) e uma política de comunicação para a profissão, sem complexos: haverá algum mal em dizer que se faz bem? Se assim não for, arriscamo-nos, mais uma vez, após todo o trabalho, a perder mais uma oportunidade. Os portugueses precisam de nós. Saibamos responder ao que nos pedem.