Nem gourmet, nem salão: uma grande exposição

Algumas ausências de peso em Tudo o que eu quero- Artistas portuguesas de 1900 a 2020, que pode ser visitada na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, não abalam o resultado final desta excelente exposição.

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A arte, quando é boa, não se esgota nunca numa única leitura Nuno Ferreira Santos

Diga-se logo de entrada: a montagem desta exposição é excepcionalmente boa. Os curadores, Helena de Freitas, da Fundação Calouste Gulbenkian, e Bruno Marchand, da Culturgest, puseram aqui em prática não apenas o que décadas de experiência em curadorias e montagens de exposições lhes ensinaram, mas também o resultado visível do conhecimento íntimo, familiar mesmo, com cada obra, cada artista, cada prática elencada na selecção dos 40 nomes que estão incluídos neste Tudo o que eu quero. Exemplar sem ser intrusiva, didáctica sem ser dogmática, a montagem soube abrir pistas de interpretação, criar novos modos de ver, associar o que não se imaginava associável. Ficará sem dúvida entre as melhores montagens já vistas em exposições de arte moderna e contemporânea. E não será apenas a memória deste particular modo de dispor as obras nos dois espaços expositivos do Museu Gulbenkian, o da Galeria de Exposições Temporárias e o da grande Galeria Principal, que guardaremos com gosto. É também uma selecção que, evitando quase todos os escolhos habituais das exposições deste tipo, soube definir núcleos temáticos numa iniciativa que, nas palavras dos próprios curadores, se caracteriza pela ausência de conceito. Apenas se quis mostrar o trabalho feito por artistas mulheres, ou seja, artistas que nasceram mulheres, sem dúvida, para além da identidade de género que possam ter adquirido na vida. De certa forma, a exposição parte sem dúvida de um conceito binário (esta é a arte feita por mulheres, aquela é a arte feita por homens) que evita, contudo, a armadilha de imaginar, ou tentar provar, que existe qualquer coisa como uma arte feminina. Não existe.