A admirável conquista portuguesa: vacinar, vacinar, vacinar

O que é absolutamente notável é que o país burocrático do qual nos queixamos quase cronicamente conseguiu montar uma estrutura à escala nacional que é virtualmente infalível.

Que Portugal está cheio de problemas, não é novidade para ninguém. Quando se anunciou que seria preciso um programa de vacinação massificado, muitos – eu incluído – pensaram que este lugar trágico-cómico de tanta burocracia iria alcançar a imunidade de grupo por volta do ano da graça de deus nosso senhor de 2057. Acontece que, afinal, a campanha nacional de vacinação contra a covid-19, salvo um problema aqui e ali, está a ser um sucesso do qual ninguém estava à espera. E nós, especialmente aqueles que – eu incluído – estão sempre de língua prontamente afiada, temos de ser justos e dar os parabéns a todos os envolvidos.

Há coisa de uma semana, recebi a primeira dose da vacina contra o novo coronavírus. Tinha ouvido familiares a comentar vagamente que estavam impressionados com o rigor de todo o processo, a começar pela hora específica e nada redonda a que a marcação havia sido feita. Ora era para as 10h17, ou para as 16h54, ou outro número que parecia inventado ao calhas. Até que, quando me telefonam para marcar a vacina para o dia seguinte (!), graças a uma vaga súbita, também eu recebo a hora específica: dezoito e trinta e três. Nem um minuto antes, nem um minuto depois.

O que aconteceu depois foi espantoso: cheguei uns vinte minutos antes da hora, e por isso fui colocado numa fila secundária à porta do complexto desportivo onde o posto de vacinação estava montado. Aproximavam-se as seis e meia da tarde quando me encaminharam para o interior do edifício.

Sou recebido por uma voluntária, que me leva até um guichet de registo. Depois, sou levado para uma pequena área de espera. De seguida, e após o breve preenchimento de uma guia, aguardo numa cadeira solitária à porta da enfermaria onde seria vacinado daí a nada. Sou chamado por uma enfermeira, que me inocula em menos de nada, e depois espera-me uma meia hora na área de recobro. Houve atrasos? Houve. Mas praticamente irrisórios, de uma mão cheia de minutos, não mais do que isso.

O que é absolutamente notável é que o país burocrático do qual nos queixamos quase cronicamente conseguiu montar uma estrutura à escala nacional que é virtualmente infalível. O mérito? De todos, sem excepção. A começar pelas forças militares, que conceptualizaram o modelo da melhor forma possível, mostrando que a sua fama de disciplina e método não foi alcançada por acaso.

Há que valorizar os voluntários, que estão a oferecer força muscular, tempo e paciência para assegurar que mandamos esta bicheza às urtigas o quanto antes. Depois, nós, os civis, que tão bem nos temos comportado, quanto mais não seja por não embarcarmos nas chalupices negacionistas que grassam por essa internet. Há que dizê-lo ainda: parabéns aos governantes, do primeiro-ministro aos autarcas, que contavam cumprir um mandato e calhou-lhes uma maratona sobrehumana. Mas o elogio mais elevado tem de ser feito aos profissionais de saúde, evidentemente, para quem já nem sequer há adjectivos que os definam com justiça. Devemos-lhes as nossas vidas, literal e figurativamente. Obrigado.

O resultado está aí à vista. Não é perfeito, mas não há argumentos para grandes razões de queixa. Nos últimos dias de Junho e nos primeiros de Julho, o ritmo de vacinação em Portugal era o mais elevado da Europa. Já para não dizer que temos quase quatro milhões de pessoas com a vacinação completa, e quase seis milhões com uma dose.

A tendência é para continuar, provavelmente até para melhorar: no passado domingo, o Almirante Gouveia de Melo, responsável máximo por esta operação megalómana, prometeu alcançar o número avassalador de 850 mil doses aplicadas por semana. (Almirante, se um dia o vir na rua dou-lhe um abraço.) Uma coisa é mais do que certa: Portugal está cheio de problemas, mas este não é um deles. Devíamos estar orgulhosos da batalha que estamos a travar, porque é por causa dela que estaremos nos livros de História das gerações vindouras.