Moradores desalojados dizem ter saído de reunião com a Câmara de Loures com “uma mão cheia de nada”

Moradores dizem não ter recebido nenhuma solução de realojamento por parte da Câmara de Loures. Município nega que as casas estivessem ocupadas na altura em que os técnicos fizeram um levantamento para a demolição destas construções precárias.

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Foram demolidas 17 habitações precárias Daniel Rocha/Arquivo

Simoa Neves pagava uma renda de 550 euros por uma casa em Loures que deixou de conseguir pagar. Sem uma solução à vista, ela e os quatro filhos ocuparam uma das 17 construções precárias do bairro em Montemor que, na segunda-feira, foram demolidas pela Câmara de Loures.

“Tive de desenrascar-me na barraca”, conta ao PÚBLICO a são-tomense de 45 anos, que está há 11 em Portugal, seguindo o caminho de muitos outros habitantes do bairro que deixaram São Tomé para trás em busca de um emprego e de uma vida melhor.

Quando ocupou a precária casa, no início de 2020, foi reconstruindo-a como pôde, conta. Com a pandemia, a situação agravou-se porque perdeu um dos dois empregos que tinha. Hoje, ganha 170 euros por mês, pelo trabalho diário de duas horas e meia a fazer limpezas. O que lhe compõe o rendimento é o subsídio de 350 euros que recebe da Segurança Social, mas que é insuficiente para fazer face a todas as despesas de uma casa.

Simoa sabia que aquela não poderia ser uma solução permanente, mas não esperava que o seu fim fosse tão repentino. “Quem vive numa barraca sabe que um dia a câmara vai demolir.” 

Segundo os moradores ouvidos pelo PÚBLICO, a Câmara de Loures notificou-os da demolição na passada sexta-feira. Também Wayvato Sacramento, de 32 anos, vivia no bairro há mais de uma década, onde construiu a sua casa com a ajuda da comunidade que ali se foi criando. Também a viu demolida na segunda-feira.

A noite foi passada numa igreja lá do bairro e esta terça-feira alguns moradores, entre os quais Wayvato, reuniram com a Câmara de Loures à procura de uma solução. “Saímos de lá com uma mão cheia de nada”, diz ao PÚBLICO. Segundo o morador, o adjunto do presidente da câmara de Loures que os recebeu disse-lhes para recorrerem aos apoios da Segurança Social e garantiu que, para já, não seriam feitas mais demolições. 

Durante a tarde desta terça-feira, o autarca comunista, Bernardino Soares, disse à agência Lusa que as 17 habitações precárias que foram demolidas não estavam habitadas e que foram construídas por uma rede ilegal. "Estas casas foram construídas recentemente. Os serviços têm vindo a monitorizar esta situação e verificaram que as casas estavam vazias na sexta-feira. Elas foram ocupadas durante o fim-de-semana porque se sabia que ia haver a operação de demolição”, disse Bernardino Soares, contrariando assim o discurso destes moradores.

A associação Habita, que tem acompanhado os moradores, afirma que as casas estavam habitadas e, entre os moradores, estavam uma idosa, uma grávida e um cidadão em cadeira de rodas. Uma afirmação que é também negada pelo presidente da Câmara de Loures que assegura que todos os “supostos moradores” daquelas habitações têm alternativa habitacional.

“Há pessoas que já vivem no bairro e procuraram transferir-se de outras habitações precárias para aquelas. Há outro grupo de pessoas que foi angariada e que veio por via do grupo de negócio que está instalado com a venda destas habitações e que veio de vários pontos da Área Metropolitana de Lisboa e de outros pontos do país”, afirmou.

Como exemplo, o autarca contou à Lusa que entre estes moradores está um casal que veio da zona centro e um senhor que tem uma habitação em Fernão Ferro (Seixal) e que conta com o apoio da Segurança Social para pagar a renda.

Ora, Maria João Costa, membro da Habita, contrapõe, dizendo que há vários moradores que mantêm uma morada antiga, pelo facto de no bairro não haver distribuição de correio regular, o que os obriga a ter outras moradas para que depois possam ir levantar a correspondência.

À Lusa, Bernardino Soares disse ainda que a autarquia não tem condições de realojar todos os moradores do bairro. Tal, esclareceu, só poderá ser feito no quadro da Estratégia Local de Habitação e com os apoios que o Governo agora anuncia a partir do Plano de Recuperação e Resiliência. “Temos uma grande consciência de como está a situação da habitação no nosso país, mas isso não se pode resolver permitindo o alargamento indefinido de um bairro que já é ilegal, permitindo que se construam habitações precárias”, sublinhou.