Cansada de assédio, Alícia criou um site onde todas podem contar a sua história

O medo de andar na rua tornou-se no objecto de estudo da tese de doutoramento. Alícia Medeiros criou o site Cansei de Assédio, onde recolhe depoimentos e regista num mapa de situações de assédio. Para chamar a atenção e, quem sabe, ajudar a acabar com ele.

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DR/Thiago Marcial

“Cansei de assédio”, disse Alícia Medeiros, num desabafo transformado em projecto de investigação. Formada em Arquitectura e Urbanismo no Brasil, a brasileira de 32 anos está, desde 2016, a fazer doutoramento em Artes Plásticas na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto — e a pensar sobre o assédio.

“Porque trabalhava com a questão do espaço público, passava muito tempo na rua. Comecei a perceber que sentia um certo medo, mesmo aqui em Portugal”, começa por contar ao P3. Sem saber muito bem porque sentia esse receio, até porque, supostamente, Portugal “é bem mais seguro” do que o país onde nasceu, percebeu que aquilo que temia era o assédio. Depois de já ter sido “assediada e perseguida” nas ruas do Brasil, descobriu que as ruas portuguesas também não a faziam sentir-se tranquila.

Esses “traumas” que não a deixavam “estar à vontade no espaço público” foram o mote para a sua pesquisa no doutoramento. Começou por fazer alguns vídeos e performances — que envolviam ir para a rua com um cartaz ao peito e tentar recolher testemunhos de situações de assédio. “Acho que a própria recolha do material a nível ‘artivista’ é um processo artístico”, refere.

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Alícia durante uma das performances a propósito do projecto. DR/Thiago Marcial

Mas estas interacções nem sempre eram bem-sucedidas: as pessoas não estão muito disponíveis para contar momentos confrangedores a “pessoas estranhas no meio da rua”. Por isso, decidiu, este ano, abrir o site Cansei de Assédio, onde esses relatos podem ser contados em anonimato. Mas sem perderem o detalhe: o registo no mapa é feito com recurso a informação sobre o local onde aconteceu, o que aconteceu, o tipo de assédio (verbal, físico, violação, homofobia, entre outros), o dia e a hora em que aconteceu, qual o género do agressor ­— e ainda é oferecida a possibilidade de deixar um contacto para quem quiser, de forma mais aprofundada, contar a sua história.

O mapa colaborativo, disponível no site, dá conta de ocorrências em vários pontos do país, com especial destaque para o Porto e Lisboa. “Um homem com mais uns cinco anos que eu pediu para me levar para um canto, para fazermos algo. Prendeu-me os pulsos, e queria-me forçar a ir. Perguntou informações sobre mim e quando finalmente me largou comecei a correr”, escreve uma vítima. “O meu chefe fez múltiplos comentários à minha aparência física, tendo insinuado que fui seleccionada para o meu trabalho porque ‘espalhei charme’ e não pela minha experiência e qualificações. Quando fui assediada por utentes, disse que a culpa era minha”, conta outra.

No total, o site conta com cerca de 30 relatos, mas, pelo que vai conversando com mulheres, principalmente, e também com pessoas não-binárias, percebe que “já toda a gente passou por isso”. No caso de artistas que fazem trabalhos no espaço público, estas situações dificultam o desenvolvimento de projectos: “Procuro saber se quando vão colar cartazes ou fazer performances, por exemplo, sentem medo ou necessidade de irem acompanhadas”, explica. A estratégia desenvolvida por estas pessoas é, normalmente, “ir fazer trabalhos acompanhada ou simplesmente tentar ignorar e ultrapassar o medo”, lamenta.

Apesar de a entrega da tese de doutoramento estar prevista para este ano, Alícia não pretende fechar o site. “Mesmo não sendo de um órgão oficial ou de um colectivo, mesmo que não possa fazer muito a nível de políticas públicas, acho que é interessante ter as histórias ali para ter uma visão mais palpável do que acontece, de quando acontece e também qual a percepção das pessoas quando são assediadas.”

O objectivo final é mesmo “chamar a atenção para o assunto”. Se “o número de depoimentos for interessante”, pretende também “começar a desenhar algumas estatísticas” — sem tirar o foco das histórias, uma vez que lhe parecem mais relevantes do que os números. Para a entrega da tese, deverá também montar uma exposição em que irão constar os depoimentos e alguns trabalhos artísticos que foi desenvolvendo ao longo dos anos. Todos eles gritam: “Chega de assédio!”