O camuflado

Há no ar um perfumezinho a saudades de um outro tempo, de um outro António. É esse fascínio que me preocupa, sobretudo porque agora é transversal a todo o espectro político – e é cada vez menos camuflado.

Há três meses, inesperadamente, o Governo decidiu entregar a liderança do processo de vacinação a um militar. Essa escolha não foi gratuita e, mais do que movida por imperativos de ordem prática, tem muito a ver com três razões simbólicas profundas que me parecem muito interessantes.

A primeira é a intenção claramente expressa de transmitir a ideia patriótica do combate contra um inimigo. O vice-almirante parecia saber bem disso – e apresentou-se de camuflado. Aliás, não abandona o camuflado em circunstância alguma. À primeira vista, essa opção, no seu exagero, poderia mesmo parecer algo ridícula. Se o líder do processo fosse um médico, o que diríamos se ele aparecesse nas conferências de imprensa, ou na televisão, de bata e estetoscópio? Se o líder do processo fosse um engenheiro, o que diríamos se surgisse em público, ou no interior dos centros de vacinação, com capacete e botas de estaleiro?

Mas não nos fiquemos pelas aparências: talvez a principal razão para o vice-almirante insistir no camuflado seja um gesto, uma bandeira, um estandarte, um sinal de orgulho – sobretudo para dentro da própria instituição militar. Os militares vivem, há muitos anos, num estado de carência afectiva: sabem-se menorizados pelo poder político e pela sociedade, sentem-se esquecidos e injustiçados. Têm dificuldade em justificar o seu papel, a sua utilidade, as suas exigências de modernização; não têm voz. Os militares sentem-se abandonados pela Nação, eles que estão intimamente persuadidos de serem um dos seus principais símbolos. O camuflado é, antes de mais, um sinal de orgulho militar e, nessa medida, é totalmente respeitável.

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Henrique Gouveia e Melo, o homem forte do plano de vacinação RUI GAUDÊNCIO

Em segundo lugar, o camuflado não é apenas uma opção pessoal nem meramente corporativista. Ele mostra bem a imagem que as autoridades querem passar acerca do processo de vacinação, bem como acerca da pandemia em geral: uma imagem de força, de determinação, de ordem, de disciplina, de rigor – ou de inflexibilidade. Sim, a maior virtude e, por vezes, o maior defeito da instituição militar é esse mesmo: o cumprimento das ordens superiores de uma forma cega, ultrapassando os limites do absurdo e da falta de senso, se necessário for. E, entendamo-nos bem: o ponto fraco das autoridades políticas e sanitárias, em Portugal como no resto do mundo, é precisamente esse: a absoluta ausência de certezas científicas – sempre desmentida, mas sempre claríssima, nas vacinas como em tudo o resto. Ou seja, numa situação em que se quer fazer cumprir ordens sem ter certezas científicas, ignorando as dúvidas e o bom senso, quem melhor do que um militar?

Finalmente, o camuflado tem um terceiro simbolismo, mais subtil e insidioso, e por isso mesmo mais interessante. Somos um povo que tem uma auto-estima baixa, com um imaginário colectivo que acumula séculos de auto-crítica. Um povo que, ao ver-se ao espelho, observa indisciplina, falta de rigor, incumprimento da lei, subterfúgios pela calada – e observa-os com uma enorme passividade, um torpor, um silêncio conformado e triste. Um povo a quem séculos de maus líderes e de opções erradas ensinou a sonhar que precisamos de um rumo, de uma autoridade indesmentível, de um chicote. Não demasiado violento, é certo, mas um chicote – inflexível sobretudo para os outros, para os vizinhos; e que trate firmemente os que não cumprem, os que questionam, ou os que têm ideias próprias. O camuflado mostra essa autoridade impoluta e despojada de interesses (ao contrário dos políticos, claro), essa autoridade admirável de alguém que serve o país desinteressadamente – tal como o fez um outro António, num outro tempo.

Num outro tempo… Mas o que dizer deste tempo, um tempo em que se aprova uma lei que diz “O Estado assegura (…) proteger a sociedade contra pessoas singulares ou coletivas, de jure ou de facto, que produzam, reproduzam ou difundam narrativa considerada desinformação”, definida como “toda a narrativa comprovadamente falsa ou enganadora (…) que seja suscetível de causar um prejuízo público, nomeadamente ameaça aos processos políticos democráticos, aos processos de elaboração de políticas públicas e a bens públicos”. Quão perto estamos de calar as vozes incómodas, a bem da Nação e das suas “políticas públicas”? Como entender a inacreditável ausência de qualquer voto contra na Assembleia da República perante um texto como este? Como se pode institucionalizar por lei um fact-checking que é tão-somente um rebranding da censura? Os deputados perderam todos a memória histórica?! Como explicação mais plausível (e quiçá a única), dir-se-ia que, num mundo em que os media clássicos estão quase moribundos e em que a Internet e as redes sociais são agora, e cada vez mais, o campo incontrolável onde se propagam as ideias, os partidos estão unidos, todos, na limitação da liberdade de expressão: é uma limitação que julgam legítima porque a sentem como uma luta pela própria sobrevivência. 

Quanto ao povo, pessimista, auto-crítico e triste, como sempre o foi, o nosso povo parece maioritariamente acolher de braços abertos a autoridade paternalista e disciplinadora de um camuflado. Também ele, o povo, propositada e empoladamente assustado, partilha esse desejo cada vez mais indisfarçado dos políticos para controlar tudo, desde as vacinas às deslocações, das lojas às aulas, das festas às praias, tudo, até mesmo a difusão de ideias “perigosas” – ainda que, como se tem visto no último ano, essas ideias sejam apenas tão científicas ou tão absurdas como as outras ideias, as oficiais, as teorias risíveis que especialistas sem especialidade alguma nos apresentam como “ciência”. Sim, há no ar um perfumezinho a saudades de um outro tempo, de um outro António. É esse fascínio que me preocupa, sobretudo porque agora é transversal a todo o espectro político – e é cada vez menos camuflado.