Bicicletas vs. carros: um duelo sem sentido

O caminho só pode ser um: a diminuição do número de carros que entram e circulam diariamente na cidade e a promoção de uma rede integrada de transportes públicos e de meios de mobilidade suave.

Neste Dia Mundial da Bicicleta é quase impossível não abordar a dicotomia bicicletas vs. carros que se instalou em Lisboa. Um duelo que temos visto crescer e que polariza algo que não deve ser polarizado – a procura por uma qualidade de vida melhor, com menos poluição, menos trânsito, mais saúde e mais tempo para viver.

Existe um claro responsável pelo extremar destas duas posições, e esse é Fernando Medina e o seu executivo que, como em tantas outras áreas, carece de uma visão integrada para as problemáticas da cidade. A política dos remendos é já uma imagem de marca, tapando aqui, destapando acolá, esperando que ninguém note ou que isso aconteça já só depois das eleições.

Vamos aos factos: os benefícios que a mobilidade suave tem para as cidades são inegáveis, nomeadamente em Lisboa, onde se estimava que, antes da pandemia, circulassem por dia meio milhão de carros. Aliás, em 2019 os condutores de Lisboa perderam, em média, 136 horas no trânsito, o equivalente a mais de cinco dias e meio! Mas os números não se ficam por aqui: segundo a Agência Europeia para o Ambiente, 99% da população urbana da União Europeia está exposta a níveis de ozono acima dos valores recomendados pela Organização Mundial da Saúde e em Portugal a poluição do ar causa cerca de seis mil mortes por ano. Estima-se ainda que a poluição atmosférica custe anualmente a Lisboa 635 milhões de euros.

Analisando os dados, percebemos que o caminho só pode ser um: a diminuição do número de carros que entram e circulam diariamente na cidade e a promoção de uma rede integrada de transportes públicos e de meios de mobilidade suave. Mas esta mudança de paradigma tem de ser acompanhada por estudos que sustentem as tomadas de decisão, algo que falha redondamente na cidade de Lisboa. Exemplo disso é o estudo sobre as necessidades de estacionamento que foi encomendado à EMEL em 2019 e que, aparentemente, anda perdido nos gabinetes da autarquia. Ou o facto de as ciclovias serem construídas sem planeamento e sem serem ouvidos os seus utilizadores e quem vive ou trabalha na área. Esta falta de participação nas decisões impede que se alcancem consensos e incita à animosidade entre as partes. Em resumo: falha o diálogo, falha a transparência, falha a governabilidade.

Se Fernando Medina criou este duelo em Lisboa que não saberá resolver, já Carlos Moedas, com a sua ideia de criar silos em Lisboa, mostra que a visão que tem para a cidade está parada no tempo. Não, o caminho não são silos, não são filas de trânsito intermináveis, nem pessoas que demoram uma hora para estacionar o seu carro. Para o PAN, o caminho é uma cidade planeada, inclusiva, pronta para enfrentar os desafios que a esperam – entre eles o das alterações climáticas –, escutando a população e mantendo-a unida neste importante desígnio.