Gonçalo Ribeiro Telles – O Arquitecto Paisagista

O País deve-lhe muito e tem a sorte de Ribeiro Telles, assim como Caldeira Cabral, terem deixado escola, mesmo para além dos arquitectos paisagistas. Assim o País os oiça e reconheça o interesse do seu trabalho para prosseguir a obra de Ribeiro Telles.

No dia em que faria 99 anos, repensamos a actuação do Professor Arquitecto Paisagista Gonçalo Ribeiro Telles para dela tirar lições muito actuais. Muito se tem dito sobre as suas características pessoais de integridade, de persistência, de afabilidade, de dedicação ao interesse público, de generosidade, de alheamento dos seus interesses pessoais, da energia permanente posta ao serviço do seu trabalho, da enorme preocupação em ser útil à sociedade, da capacidade de proximidade com as pessoas, fossem quem fossem.

Nesta efeméride refiro-me ao conhecimento que detinha e consequente entendimento da paisagem. Tal como Mário Grilo refere no filme que realizou A Vossa Terra – Paisagens de Gonçalo Ribeiro Telles, Ribeiro Telles dividiu as suas origens entre a quinta da família, em Coruche, e a R. de S. José, em Lisboa. Na infância passada em Coruche, o contexto do Montado e das Baixas do Sorraia marcaram-no profundamente, o que fica patente num comentário dito após uma reunião com a presença de gente ilustre, mas sem nenhuma sensibilidade para o ordenamento do território e o mundo rural: “Agora é que eu vejo a sorte que tive em andar a correr atrás das bezerras quando era pequeno...” Este contacto com o campo, complementado pela facilidade que tinha para ouvir as pessoas e as suas histórias, deu-lhe uma sensibilidade para a realidade do mundo rural que embebeu toda a sua actividade, ao longo da vida; por outro lado, a cidade permitiu-lhe o acesso às tertúlias do Café Lisboa e a entrada no meio político, mesmo em tempos e circunstâncias adversas à associação e reunião de pessoas. Esta fase preparou-o para a actividade política intensa que desenvolveu após o 25 de Abril. A faceta de político distinguiu-o dos colegas da sua geração que limitaram a sua actividade à Arquitectura Paisagista, sem ter enveredado pela política como modo de divulgar aquilo que defendiam. Aliás, os que o acompanhavam na defesa das mesmas causas olhavam para Ribeiro Telles como sendo o seu porta-voz, atribuindo-lhe a “obrigação” de defender essas causas publicamente.

A sua opção pelo Instituto Superior de Agronomia, onde obteve formação superior, está certamente em linha com a importância que dava ao mundo rural. No primeiro ano do curso havia uma cadeira de desenho organográfico leccionada pelo Professor Francisco Caldeira Cabral. E foi aqui que os dois se conheceram e que o Professor FCC teve oportunidade de reparar naquele aluno que desenhava muito bem. Ora o Professor FCC estava no ISA a organizar um curso de Arquitectura Paisagista equivalente àquele que tinha acabado de tirar na Universidade Técnica de Berlim, depois de se ter formado em Agronomia, no ISA.

A Arquitectura Paisagista era uma profissão que tinha surgido para ajudar a resolver os problemas criados pela Revolução Industrial e, como tal, começou por se instalar nos países que primeiro se industrializaram, com realce para o Reino Unido, a Alemanha e os EUA. A base científica desta profissão é o reconhecimento que o homem está inserido num Todo, do qual faz parte, e que a sua actividade tem que se exercer com o conhecimento desse Todo – a Natureza – e não contra ele. Por outro lado, a actividade do homem, marcada por determinada Cultura, constitui o outro lado das matérias a que esta profissão recorre. Ecologia e Cultura compõem assim as duas grandes componentes da Paisagem, o objecto da intervenção da Arquitectura Paisagista.

A Ecologia teve origem em Alexander de Humboldt (1769-1859) que, pela primeira vez, estabeleceu a relação entre vários factores ecológicos – a vegetação, o clima e a morfologia do terreno –, ao contrário do que se passava até então, que consistia no estudo dos vários factores (biologia – animais e plantas, geologia, solo, clima, etc.) e da classificação sistemática dos seus elementos. No entanto, a designação de Ecologia, para nomear a ciência que estuda a inter-relação entre os organismos e o seu ambiente e entre eles próprios, só mais tarde foi instituída por Ernst Haeckel (1834-1919).

A acepção do espaço e da actividade do homem com ele relacionada (a Paisagem), baseada na Ecologia, era completamente nova em Portugal e tinha repercussões radicais no projecto e no ordenamento do território. Não admira pois que tenha sido mal recebida pelos pares dos Arquitectos Paisagistas (arquitectos, engenheiros civis, agrónomos, silvicultores), mas também pelos que detinham o poder político e os promotores. Ressalvam-se algumas notáveis excepções, como Baeta Neves, Gomes Guerreiro, Delgado Domingos e poucos outros. A divergência entre estas duas perspectivas sobre a Paisagem – uma mais ecologista e outra mais neo-clássica, característica da arquitectura do Estado Novo e também mais mecanicista, quando se tratava da agricultura, da silvicultura, das grandes obras públicas, etc. – ficou evidente através dos obstáculos postos no ensino da Arquitectura Paisagista e em projectos, como o da Avenida da Liberdade, desenvolvido por Ribeiro Telles e FCC para a Câmara de Lisboa (1956-1960).

Homenagem na Gulbenkian a Goncalo Ribeiro Telles arquitecto paisagista e fundador do PPM e Movimento Partido em 2011 Miguel Manso
Jardins da Gulbenkian, uma das obras mais conhecidas do arquitecto daniel rocha
Gonçalo Ribeiro Telles morreu esta quarta-feira Rui Gaudêncio
Nos 50 anos dos jardins do castelo de São Jorge, Gonçalo Ribeiro Telles foi um dos arquitectos que desenhou o jardim em 1959 Shamila Mussa
O Corredor Verde é outro dos projectos mais conhecidos de Gonçalo Ribeiro Telles daniel rocha
Gonçalo Ribeiro Telles em maio de 2002 Adriano Miranda
Gonçalo Ribeiro Telles no jardim da Gulbenkian em 2003 Daniel Rocha
Ribeiro Telles nas hortas da Quinta da Granja de Baixo Carlos Lopes
Com Mário Soares e Maria Barroso na Gulbenkian em 2011 Miguel Manso
Gonçalo Ribeiro Telles Daniel Rocha
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As dificuldades de implantação da escola que informou a actividade de Ribeiro Telles como arquitecto paisagista justifica o espírito de missão que colocou em todas as suas intervenções e mostra o carácter inovador, não só em Portugal, mas também na Europa, das medidas que propôs como secretário de Estado e como ministro de Estado e da Qualidade de Vida.

Até ao 25 de Abril elaborou inúmeros projectos no espaço urbano, fiéis à sua escola, caracterizados por uma estética naturalista e a utilização de vegetação autóctone, não talhada, dos quais o Parque da Gulbenkian é o exemplo mais representativo e objecto de admiração por todos os que o visitam. Mas também outros parques públicos como o Parque da Moita e o do Vale das Abadias, na Figueira da Foz (1971), são exemplos notáveis de espaço público, por ele concebidos.

Ainda nos anos 50 participa em planos de ordenamento de maior escala, como o Plano Regional de Ordenamento Paisagístico do Concelho de Loures (1958), a Proposta de Estrutura Verde do Plano de Urbanização de Lisboa (1959), assim como contribuições para Planos de Urbanização de várias cidades. Nos anos 70 destacam-se a Revisão do Plano Director da Área Metropolitana de Lisboa (1971) e o Plano Integrado de Almada-Monte da Caparica (1971-1974), no qual foram produzidos documentos que apoiaram várias gerações de projectistas.

Depois do 25 de Abril, como membro de vários Governos, a sua actuação teve enorme impacto à escala do País. Nesta fase revela-se a sua compreensão do funcionamento ecológico e social da Paisagem, incluindo da paisagem tradicional. No que respeita aos ciclos de recuperação do fundo de fertilidade do solo e da água, propõe a protecção dos solos de maior qualidade, do relevo natural e do coberto vegetal, destruídos pela desconhecedora expansão dos aglomerados urbanos (1975). Com o Decreto-Lei n.º 613/76 propõe a protecção das áreas fundamentais necessárias ao funcionamento dos ecossistemas e também os sítios e lugares de interesse cultural. Este diploma é verdadeiramente progressista porque contém o embrião da Reserva Ecológica Nacional, criada quando foi ministro e que não tem paralelo na legislação europeia. Ribeiro Telles tem também um papel determinante na proposta de outros diplomas como os que criaram os Planos Regionais de Ordenamento do Território e a Lei de Bases do Ambiente. Sem querer enunciar exaustivamente a legislação que propôs enquanto membro do Governo, não se pode deixar de referir a sua intervenção política em diversas matérias que não tinham eco na opinião dominante.

Insurge-se contra a desarmortização dos baldios e a sua pinheirização, muitas vezes à força, iniciada com a Revolução Liberal e continuada pelo Estado Novo, desapossando as populações dos seus meios de subsistência, nomeadamente o gado que pastava nos terrenos comunitários. Estabelece a relação entre este processo e o abandono das aldeias e das terras e o êxodo das populações para a emigração ou a periferia das cidades. Quanto a estas, contesta a falta de planeamento que conduz à ocupação dos melhores solos ou dos leitos de cheia dos cursos de água, com as consequências que realçou e explicou após as terríveis cheias de 1967.

Ainda no domínio da paisagem rural, lutou contra a destruição da compartimentação da paisagem provocada pelas operações de emparcelamento desregradas. Opôs-se persistentemente à generalização do eucalipto conducente à simplificação e degradação da paisagem e ao despovoamento, cujo resultado é hoje patente nos incêndios calamitosos que Portugal enfrenta.

Chamou a atenção para a má qualidade das periferias urbanas, nas quais a vida das pessoas perdia o sentido. Neste âmbito, lutou pela criação de estruturas verdes urbanas e, nelas incluída, a agricultura urbana, como modo de dar uma ocupação sustentável aos fundos dos vales e de dar utilidade e coesão social às populações mais desfavorecidas. Hoje já não se trata das populações mais desfavorecidas e os municípios, incluindo o de Lisboa, têm grandes listas de espera de pessoas interessadas. Em termos de intervenção a nível municipal destaca-se a cidade de Lisboa, em várias fases da sua vida e que culminou com a coordenação do Plano Verde de Lisboa, componente do primeiro Plano Director Municipal (1994) e transposta para o segundo (2012). Como consequência desta intervenção, Lisboa foi declarada Capital Verde Europeia 2020, no ano em que morreu. Defendeu os cafés como locais de encontro (em rápido desaparecimento e substituição por agências bancárias) e criticou a falta de atenção ao espaço público e a sua ocupação maciça pelo automóvel. Contra os loteamentos do modernismo operacional, criticou os edifícios isolados e particularmente as torres, e alertou para a inexistência de condições para o peão, num espaço cortado por auto-estradas urbanas.

Aquilo que defendeu só agora surge, com expressão significativa, nas políticas da União Europeia.

O País deve-lhe muito e tem a sorte de Ribeiro Telles, assim como Caldeira Cabral, terem deixado escola, mesmo para além dos arquitectos paisagistas, como é o caso de José Sá Fernandes, vereador da Câmara Municipal de Lisboa desde há 12 anos e que este ano foi galardoado com o Prémio Gonçalo Ribeiro Telles. Assim o País os oiça e reconheça o interesse do seu trabalho para prosseguir a obra de Ribeiro Telles.

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