Lusofonias, grafias, fobias e velhas megalomanias

O “português correcto” universal não existe nem existirá, porque cada cultura tem o seu, devendo defendê-lo e com todo o direito.

Embora o título pareça decalcado de uma loja de quinquilharias, o assunto é sério. Ainda sob os efeitos do foguetório do Dia Mundial da Língua Portuguesa, travou-se uma curta polémica em torno da lusofonia, num pingue-pongue Brasil-Portugal. No dia 12, o escritor e jornalista brasileiro Sérgio Rodrigues escreveu na Folha de S. Paulo um artigo de opinião intitulado “Lusofonia, adeus!”, que suscitou, logo no dia 14, uma réplica de Rui Tavares no PÚBLICO com o título “Ainda dá para salvar a lusofonia?” Não, a lusofonia (ou seja lá o que entendam por lusofonia) não foi atacada por nenhum vírus nem tornada moribunda por nenhuma lei; mas Sérgio contrapôs no seu texto dois credos pessoais e antagónicos: “Já acreditei no mito da lusofonia”, primeiro; e, em segundo lugar, “já não creio na miragem de uma comunidade internacional em que nossas diferenças fossem encaradas como riqueza e não como defeitos.”

O que o levou a escrever isto? A leitura de um artigo na Folha (e ele escreveu que receava “estar reagindo com o fígado” depois de tal experiência) intitulado “Português brasileiro rende nota menor e discriminação em escolas e universidades de Portugal”; Tivesse ainda lido um outro com idênticos exemplos, este no PÚBLICO, no P3, com o título “Os brasileiros ‘têm meia língua portuguesa’? Quando as palavras são motivo de discriminação”, e o seu fígado ressentir-se-ia do mesmo modo. Porque os casos de pura discriminação relatados nos dois artigos devem fazer-nos pensar, embora a lusofonia não seja de todo para aqui chamada.

O que faz com que um país que há décadas ouve música brasileira com o maior prazer e até com idolatria, e que consome vorazmente telenovelas da Globo, reaja, de repente, contra a “fala brasileira” ou a “escrita brasileira”? Ressentimento? Ignorância? Pura estupidez? Não parece fazer qualquer sentido que, em particular em meios universitários, estudantes sejam estigmatizados pelo facto de se expressarem, na fala e na escrita, em português de uma outra variante que não a europeia. E, no entanto, há relatos de que isso sucede, uns sendo alvo de chacota por causa do sotaque, outros apontados como só tendo “meia língua portuguesa”. O mesmo acontecerá certamente com alunos africanos, misturando-se em todos estes casos, a eito, preconceito, xenofobia e o culto de um “português correcto” universal que não existe nem existirá, porque cada cultura tem o seu, devendo defendê-lo e com todo o direito. Se um professor no activo não sabe isto, ou não quer saber, talvez deva mesmo mudar de profissão. E isso é válido em Portugal, no Brasil ou em qualquer país onde se fale e escreva português.

Mas há outro ponto na discussão: Sérgio: “Já implantado no Brasil de cabo a rabo [o Acordo Ortográfico de 1990], seria ridículo que o revogássemos, além de um desperdício de dinheiro. Mas convém tratar como reforma brasileira o que não passou de desacordo, gasolina na fogueira do antibrasileirismo em Portugal – onde a nova ortografia foi rejeitada em peso pela sociedade – e motivo de confusão na África.” Convém dizer que Sérgio defendeu o Acordo, de início, como faz questão de frisar no seu texto. E o que contrapõe Rui Tavares, também ele um defensor do Acordo, a este desencanto? A “força da língua portuguesa” (que “até ao fim do século [terá] cerca de quinhentos milhões de pessoas”) e mais instituições-chapéu: uma Academia Internacional da Língua Portuguesa, uma “TV Cultura” da CPLP ou um “instituto conjunto de língua portuguesa” (já existe, o indigente IILP, e sabemos bem o que não vale).

Mas se queremos, mesmo, respondendo directamente a Sérgio Rodrigues, imaginar um futuro em que as “nossas diferenças fossem encaradas como riqueza e não como defeitos”, então temos de nos desfazer das falsas ideias que o Acordo Ortográfico cimentou: não há, nem deve haver, um idioma-padrão comum a todos os falantes de português. As variantes europeia (de Portugal), americana (a do Brasil) e africanas (as que vierem a ser fixadas nos vários países que as usam) podem e devem conviver, podem e devem as suas academias ou instituições congéneres trabalhar em conjunto em projectos específicos, mas tem de ser dada a cada país a liberdade para, na língua como noutras áreas, instituírem as suas normas. Daí virá um cabal reconhecimento do que já existe: a diversidade da língua portuguesa. Sendo o contrário disto, o Acordo Ortográfico e as megalomanias a ele associadas devem ser descartados de vez.