Em solidariedade com um jornalista racista da Lusa

O cinismo da chamada “linguagem inclusiva” é desesperante. Preferindo o invólucro à substância, os formalismos aos conteúdos, o “faz de conta” ao real, os algozes da nova Inquisição fanatizam-se nos entusiasmos contagiantes do que julgam ser moderno e progressista, não vislumbrando o quanto se tornaram fanáticos e desumanos. Passarão de moda, como a História ensina.

Um dia um jornalista foi a uma conferência de imprensa onde foi anunciada a composição de uma comissão parlamentar. Como não tivesse entendido o orador sobre o nome de uma determinada deputada, escreveu nos seus apontamentos: “preta”. Era uma mnemónica para posteriormente procurar o nome da deputada. Se fosse loira teria escrito “loira”. Se fosse oriental, talvez “chinesa”. Se não tivesse uma mão, possivelmente "maneta”. Se fosse gaga, certamente "gaga”. Como era preta, escreveu "preta”.

Por um daqueles azares caídos dos céus, com a pressa e o stress, esqueceu-se de apagar a referência “preta” e a peça foi assim para o ar. Referência que passou pelo crivo do editor (não há desculpa, mas a gritante falta de meios é desculpa) e que foi assim publicada em, pelo menos, dois jornais nacionais de referência. Estava montado o “circo”...

Aqui d'el-rei! Racismo, racismo, racismo! Partidos exigiram: "morte” ao prevaricador! Movimentos organizados, redes sociais, abaixo assinados: horror, crime de ódio. Faça-se justiça: culpado, culpado, culpado! As turbas atacam em matilha.

O editor (com mais de 30 anos de jornalismo imaculado) demitiu-se. Ao jornalista (que até é de esquerda, mas que – outro azar – cobria profissionalmente o Chega) foi-lhe movido um inquérito com vista a uma sanção disciplinar. Ambos têm as vidas estragadas.

Sempre me perguntei: por que é que eu posso dizer “a loira do quinto andar" mas é-me proibido dizer “o preto” do sexto? Por que é que tenho que dizer “cidadão de origem africana”, mesmo que seja um preto filho de três gerações em Portugal? Por que é que, dizendo “cidadão de origem africana”, sou menos racista do que se disser naturalmente “preto"?

O cinismo da chamada "linguagem inclusiva" é desesperante. Preferindo o invólucro à substância, os formalismos aos conteúdos, o “faz de conta” ao real, os algozes da nova Inquisição fanatizam-se nos entusiasmos contagiantes do que julgam ser moderno e progressista, não vislumbrando o quanto se tornaram fanáticos e desumanos. E injustos!

Passarão de moda, como a História ensina. Do macarthismo anti-comunista norte-americano à propaganda anti-semita da Alemanha nazi, passando pelas muitas multidões enlouquecidas autoras de crimes de que os indivíduos participantes depois se envergonham e tentam esconder, o Mundo é e sempre foi assim. E ainda há quem fale das claques do futebol... 

Estes novos polícias do pensamento, que nem o chegam a ser porque o pensamento não é policiável, têm, no entanto, nos nossos dias, um instrumento aliado poderoso, as redes sociais digitais. Funcionando em network e permitindo o “anonimato” de consciência (que, neste caso, quer dizer, desresponsabilizando os actos próprios diluídos na amálgama da multidão digital), os novos meios de comunicação electrónica potenciam as fúrias populistas justiceiras ao estilo dos autos de fé medievais.

Autos de fé que hoje em dia se chama “cultura de cancelamento” (cancel culture), actividade cobarde que consiste em, de forma persistente e organizada, escolher uma vítima (que não alinhe pelo “politicamente correcto” e, desta forma, mereça ser liquidada) e cercá-la, com campanhas de difamação e destruição, até que ela morra socialmente e fique com a vida, profissional e pessoal, estragada. Sim, tal como uma ofensiva de vírus que acaba por matar o doente. 

Isto faz-se – está a fazer-se – todos os dias na Internet. Nomeadamente nos EUA, país de grandes feitos humanos mas também de clamorosos erros e exageros. Sem julgamentos, sem contraditório, sem imparcialidade, à mercê dos caprichos dos fanatizados. A ditadura implacável do politicamente correcto...

Tem apenas um senão: a Internet regista nomes e acções. Para memória futura. De si e dos seus descendentes. 

A História os julgará!