Marina Abramovic é o prémio Princesa das Astúrias de Artes 2021

Escolha do júri foi anunciada esta quarta-feira. A artista sérvia, de 74 anos, é um dos nomes mais influentes das artes da actualidade.

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Abramovic e a sua instalação de 1997 na Bienal de Veneza Reuters/ANSA
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"Marina Abramovic: In Residence", em Sydney em 2015 DAVID GRAY/Reuters

A artista conceptual sérvia Marina Abramović é o prémio Princesa das Astúrias de Artes deste ano, anunciou a organização esta quarta-feira nas redes sociais.

Marina Abramović, de 74 anos, nasceu na antiga Jugoslávia em 1946 e é filha de dois dirigentes do Partido Comunista Jugoslavo. O seu trabalho é um dos mais conceituados da arte contemporânea na área da performance e toca temas como o feminismo, o corpo e a relação entre artista e performer. Estudou na Academia de Belas-Artes em Belgrado, foi professora e viveu um pouco por todo o mundo — em Amesterdão, na Holanda, conheceu o artista alemão Uwe Laysiepen, conhecido como Ulay, seu companheiro de vida e de trabalho durante décadas. Juntos criaram, entre outras obras, Relation in Space, Relation in Movement e Relation in Time entre 1976 e 77. Abramović é uma das mais influentes artistas dos nossos dias.

No MoMA, em Nova Iorque, "The Artist is Present": em 2010 a artista permaneceu durante 716 horas em silêncio face a quem quisesse sentar-se à sua frente no átrio do museu nova-iorquino que na altura tinha patente uma retrospectiva do seu trabalho Andrew H. Walker/Getty Images
Simon Dawson/REUTERS
A sua reacção à guerra na Bósnia, "Balkan Baroque", uma performance que consistiu no esfregar e limpar centenas de ossos de vaca durante quatro dias, um comentário ao genocídio que lhe deu o Leão de Ouro da Bienal de Veneza em 1997 Andrea Merola/REUTERS
Performance "Marina Abramovic: In Residence" em Sydney, Austrália, 2015 David Gray/REUTERS
Na Serpentine, Londres, em 2019 Simon Dawson/REUTERS
A artista nas cerimónias do Prémio Kandinsky em Moscovo, 2008 Sergei Karpukhin/REUTERS
Retrospectiva da obra de Marina Abramovic no MoMA WILL RAGOZZINO/Patrick McMullan/Getty Images
Retrospectiva da obra de Marina Abramovic no MoMA WILL RAGOZZINO/Patrick McMullan/Getty Images
Retrospectiva da obra de Marina Abramovic no MoMA Andrew H. Walker/Getty Images
Retrospectiva da obra de Marina Abramovic no MoMA Bennett Raglin/Getty Images
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“A obra de Abramović é parte da genealogia da performance, com uma componente sensorial e espiritual anteriormente desconhecida. Carregado de uma vontade de permanente mudança, o seu trabalho dotou a experimentação e a procura de linguagens originais de uma essência profundamente humana. A valentia de Abramović na entrega à arte absoluta e sua adesão à vanguarda oferecem experiências comoventes, que reclamam uma intensa vinculação do espectador e a convertem numa das artistas mais emocionantes do nosso tempo”, lê-se na acta do júri.

A artista resumia em 2018 ao diário britânico The Guardian a sua abordagem de carreira. “Neste momento tenho uma carreira de 50 anos e nos últimos 40 anos, a arte performativa não era considerada arte. Tive uma confiança incrível na minha própria intuição para sobreviver e acreditava tão fortemente na arte performativa... Nunca podemos desistir, mas quando não se desiste há 50 anos? Uau, isso é um longo período. Nunca parei de trabalhar.”

O seu trabalho, da performance à instalação, já passou pelas instituições e eventos artísticos mais reputados do mundo, como o Museum of Modern Art (MoMA) onde em 2010 se instalou com The Artist is Present, permanecendo durante 716 horas em silêncio face a quem quisesse sentar-se à sua frente no átrio do museu nova-iorquino que na altura tinha patente uma retrospectiva do seu trabalho; repetiu a lógica da presença, por 512 horas, na Serpentine Gallery de Londres, em 2014 — são meras amostras recente de 40 anos de carreira que contam com Cleaning the Mirror (1995), a sua reacção à guerra na Bósnia Balkan Baroque (1997) — uma performance que consistiu no esfregar e limpar centenas de ossos de vaca durante quatro dias, um comentário ao genocídio que lhe deu o Leão de Ouro da Bienal de Veneza — ou a sua série seminal Rhythm (1973-74).

“É difícil de explicar mas quando estamos na nossa vida normal somos uma pessoa e quando estamos diante do público usa-se a energia da audiência, que não temos. Essa energia dá a possibilidade de transcender o medo e fazer coisas que não teríamos a energia, a coragem e a força para fazer na nossa vida normal”, explicava há três anos ao diário espanhol ABC.

Esta é a 41.ª vez que o galardão espanhol é atribuído e o nome de Abramović foi seleccionado a partir de 59 nomeações oriundas de 24 países. O júri reuniu-se por videoconferência em tempos de covid-19 e é presidido por Miguel Zugaza Miranda e é composto por outras 19 pessoas. Abramović  foi uma proposta de María Sheila Cremaschi, directora do Hay Festival Segovia.

Estes prémios, que se dividem em galardões para as artes, comunicação e humanidades, ciências sociais, literatura ou desporto, entre várias categorias, destinam-se a recompensar “o trabalho científico, técnico, cultural, social e humanitário levados a cabo a nível internacional por indivíduos, instituições ou grupos de indivíduos ou instituições”, como se lê nos seus estatutos.

No caso das artes, cujos mais recentes laureados foram os compositores Ennio Morricone e John Williams (2020), o encenador Peter Brook (2019) ou o realizador Martin Scorsese (2018), o objectivo é reconhecer “o trabalho que acalente e promova o progresso da arte cinematográfica, teatral, da dança, música, fotografia, pintura, escultura, arquitectura ou qualquer outra forma de expressão artística”.

Além de um prémio pecuniário de 50 mil euros, o galardão consiste também numa escultura de Joan Miró.